Portas fechadas: a homofobia que exclui profissionais LGBT da imprensa esportiva

·7 minuto de leitura

Douglas Souza está focado nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Acontece que o atleta de voleibol, ouro na Rio-2016, não entra dentro das quadras somente pelo saque concentrado, passe eficiente ou cortadas velozes. A existência do ponteiro, enquanto esportista LGBTQIA+, é política e grita pela representatividade que tantos fez falta nas últimas décadas.

O jogador chama para si holofotes nem sempre calorosos. Quando falamos sobre homossexualidade em ambientes norteados pela masculinidade, há sempre um julgamento subjetivo no quesito técnico e pessoal. No entanto, isso não impede que ele exponha suas causas nas redes sociais ou fale sobre elas com naturalidade.

Douglas Souza foi campeão olímpico em 2016. | KAMIL KRZACZYNSKI/Getty Images
Douglas Souza foi campeão olímpico em 2016. | KAMIL KRZACZYNSKI/Getty Images

Se essas questões aos poucos vêm ganhando espaço entre jogadores, a imprensa futebolística vai na direção contrária e ainda é palco de uma diversidade quase inexistente. Quantos jornalistas esportivos LGBTQIA+ você conhece? Quantas matérias voltadas ao público você leu ou assistiu nos últimos meses? A homofobia vem sendo discutida como merece? Quantos atletas homossexuais você conhece na Série A do Brasileirão?

Com algumas dessas questões em mente, o 90min tenta entender os motivos que levam os postos de destaque do jornalismo esportivo a serem dominados pela heterossexualidade, enquanto a ausência de profissionais LGBTQIA+ é pouco debatida no meio – menos ainda nos programas de mesa redonda...

Fundado na masculinidade

Há divergências sobre a criação do futebol. Algumas correntes defendem que ele foi inventado na Inglaterra, ainda no século XVII, enquanto outros estudiosos afirmam que os ingleses apenas formularam as regras de um esporte já existente na Ásia. De qualquer forma, podemos dizer que a modalidade foi criada por e para homens brancos e heterossexuais. Esse fator foi destacado por Gustavo Andrada Bandeira, doutor em educação e pesquisador do jornalismo esportivo, futebol e suas respectivas masculinidades.

"Se a gente for pensar no esporte de espetáculo, ele inclui jogadores, dirigentes, torcedores e jornalistas. E a masculinidade não se limita a um desses atores, ela atravessa todos eles. O que eu chamo de currículo de masculinidade tenta tocar a todos, inclusive mulheres, para marcar aquilo que seria adequado e o que seria inadequado. Então, essa masculinidade que os jogadores gritam e representam nos enfrentamentos das partidas também constitui o jornalista", ressalta Bandeira.

Jogadores se desentendem em jogo entre São Paulo e River Plate. | Pool/Getty Images
Jogadores se desentendem em jogo entre São Paulo e River Plate. | Pool/Getty Images

Diante de uma fundação que é permeada pelos símbolos da representação masculina, o machismo aparece como consequência imediata de uma estrutura que afasta pessoas diferentes. Quantas vezes você ouviu algum jogador ou juiz ser chamado pejorativamente de bicha nos estádios? Em 2019, o árbitro Anderson Daronco interrompeu uma partida entre Vasco e São Paulo em razão de cantos homofóbicos disparados por alguns torcedores do Gigante da Colina. O fato inédito denotava que atos semelhantes seriam punidos. No entanto, também evidenciou que o ambiente do futebol segue impondo limites a pessoas LGBTQIA+.

"A heterossexualidade não só é desejada, mas também tida como valor. Não é simplesmente 'existem aqui heterossexuais'. Há um entendimento de que eles são melhores", salienta Gustavo. E, para além do ambiente, o pesquisador enfatiza que as produções jornalísticas de narrativa esportiva são pensadas justamente nesse público: "É isso que autoriza uma série de preconceitos travestidos de piadas, porque se parte do pressuposto de que isso vai fazer rir a partir dessa identidade compartilhada de homem heterossexual e também machista".

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Exemplos de declarações sexistas no âmbito esportivo não faltam. Somente nos últimos seis meses, por exemplo, Renato Gaúcho e Neymar compararam mulheres ao fundamento da posse de bola durante entrevistas. A falta de diversidade entre jornalistas normaliza discursos semelhantes e faz com que reações aos comentários sejam tratadas como exageradas. Por outro lado, ainda contribui para a ascensão de figuras notórias por falas preconceituosas.

O ex-volante Vampeta, por exemplo, que se orgulha de se referir a torcedores são-paulinos pelo apelido homofóbico de bambis, tem microfone aberto em rádios e programas de TV desde que parou de jogar. Em 2017, uma ofensa homofóbica contra o jogador Miller Bolaños não abalou o prestígio de Pedro Ernesto Denardin, narrador da Rádio Gaúcha e um dos mais reconhecidos do Rio Grande do Sul.

Nesse sentido, Gustavo Andrada alerta: "Certamente a gente precisaria de mais presença [LGBTQIA+] ou, pelo menos, de pessoas mais sensíveis a essas demandas, porque sem a diferença é muito difícil que as pessoas que estão em seu lugar confortável entendam que precisa ser feito algum questionamento".

Forjado no preconceito

Fabi Alvim conquistou o Olimpo duas vezes. Ex-líbero da Seleção Brasileira, ela se acostumou a enfrentar as maiores atacantes do mundo, bem como defender suas cortadas e passar seus saques. A atleta também é mãe e lésbica, ou seja, a luta contra o preconceito nunca deixou de fazer parte do seu cotidiano. Afinal, é preciso coragem para fugir das convenções sociais.

Atualmente, Fabi integra o time de comentaristas do SporTV. Embora seja difícil colocar em números o tamanho da representatividade da ex-jogadora, é seguro dizer que homens e mulheres homossexuais não costumam contar suas próprias histórias enquanto membros da imprensa esportiva brasileira. "É um espaço no qual mulheres e pessoas LGBTQIA+ ainda são vistas como indesejáveis. As pessoas não conseguem se reconhecer dentro dessas formas e mensagens que são passadas dentro desses ambientes", afirma Maurício Rodrigues Pinto, pesquisador e antropólogo.

Fabi disputou duas Olimpíadas na carreira e venceu as duas. | Ricardo Bufolin/Getty Images
Fabi disputou duas Olimpíadas na carreira e venceu as duas. | Ricardo Bufolin/Getty Images

No caso do futebol, esse caminho pouco povoado pela diversidade pode ser explicado pela relação histórica da modalidade com seu público. Quantas vezes você ouviu que uma mulher ou homossexual não entendia de futebol? "Esse preconceito vem muito de um não reconhecimento dessas pessoas como sujeitos dentro do contexto do campo futebolístico. Eles não são sujeitos porque, por muito tempo, não foram reconhecidos como praticantes do jogo ou como pensadores ou produtores de conteúdo acerca do esporte", destaca Maurício.

O pesquisador ainda explica que a busca por uma imprensa mais plural passa diretamente pelo acolhimento de profissionais que não atendam somente aos padrões estabelecidos: "É preciso aprofundar sobre a inclusão de pessoas LGBTQIA+ ou mulheres, que não seja essa inclusão para falar exclusivamente de pautas que se refiram a esses grupos. Claro, é importante essa visão, traz outro peso e outras perspectivas. Mas é importante também que perspectivas de homens e mulheres negras, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e trans sejam sobre todo e qualquer assunto."

Erguida na luta

Tom Daley fez história no esporte. Queridinho na Inglaterra, o astro do salto ornamental quebrou recordes desde sua adolescência. Aos 13 anos, por exemplo, sagrou-se o mais jovem vencedor de medalhas de ouro no Campeonato Europeu. Quando o atleta chegou às Olímpiadas de Londres, em 2012, ele já era uma estrela.

Mas Daley não é uma grande personalidade somente dentro das piscinas ou em competições planeta afora. Em dezembro de 2013, ele assumiu que estava apaixonado pelo escritor Dustin Lance Black. Sua designação enquanto esportista LGBTQIA+ foi permeada de coragem. E essa palavra norteia milhões de outras pessoas no mundo, inclusive algumas que batalham para tornar o futebol mais justo, seguro e diverso.

Tom Daley segue colecionando medalhas. | Toru Hanai/Getty Images
Tom Daley segue colecionando medalhas. | Toru Hanai/Getty Images

Yago é uma dessas pessoas. Vice-presidente da Fiel LGBT, ele conta como surgiu a motivação para instituição do coletivo: "A ideia surgiu através de um amigo que tem uma torcida LGBT do seu clube, então pensei: 'O Corinthians é do povão. Por que não criar um coletivo também?'. Foi daí que, no dia 19 de dezembro de 2019, criamos a Fiel LGBT. Logo de início, houve grande repercussão, tanto positiva, como negativa", completa. Ele ainda comenta que mantém conversas com representantes do Timão para discutir assuntos relacionados ao preconceito e homofobia.

Ele não está sozinho na luta. Centenas de torcedores brasileiros se engajam em iniciativas semelhantes e seguem batalhando pela diversidade no esporte e na grande imprensa esportiva, mesmo guerreando contra as correntes históricas da normatividade. Até 2020, por exemplo, 14 organizadas faziam parte do Coletivo Nacional de Torcidas LGBTQ Canarinhos Arco-Íris.

Quantas vezes você ouviu alguma declaração homofóbica e ficou em silêncio? Quantas vezes já desperdiçou oportunidades de lutar por um ambiente mais plural e inclusivo? O enfrentamento deve ser papel de todos. Em entrevista ao portal UOL, Milly Lacombe, jornalista esportiva lésbica, deixa um importante recado: "Homofobia tem cura. E o remédio nem é caro: se chama amor."

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.