Porque o rapper T.I. causou polêmica ao dizer que checa o hímen da filha

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O rapper T.I. (Foto: Reuters)
O rapper T.I. (Foto: Reuters)


Será que é realmente necessário saber quando uma mulher deixou de ser virgem? Essa foi a pergunta que levantamos ao ver o caso do rapper T.I., que disse levar a filha Deyjah, de 18 anos, ao ginecologista periodicamente para checar se o seu hímen "continua intacto". 

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O também ator contou sobre o hábito durante a gravação do podcast "Ladies Like Us" e causou revolta mundo afora. "Deyjah acaba de se formar no ensino médio, e está em seu primeiro ano de faculdade. Ela está resolvendo a vida dela por si mesma pela primeira vez. Eu não só conversei com ela sobre sexo, como vou uma vez por ano com ela ao ginecologista para checar o seu hímen", disse". "Sim, eu vou com ela… e eu posso dizer, até o seu aniversário de 18 anos, o hímen estava intacto". 


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T.I. contou que costuma marcar as consultas de surpresa, e os médicos precisam que a jovem assine um documento que permite o compartilhamento de informações íntimas com os pais. 

Porque a situação é problemática

Se você não estranhou a ação de T.I., com certeza deveria. Isso porque, antes de mais nada, esse tipo de comportamento viola as diretrizes da Organização das Nações Unidas. Na verdade, apenas no ano passado, 2018, testes de virgindade como esse foram condenados por três das suas principais agências: A Organização Mundial de Saúde, a ONU Direitos Humanos e a ONU Mulheres. 

A OMS até mesmo liberou um comunicado falando sobre o assunto para a grande mídia: "Esse procedimento medicamente desnecessário e muitas vezes doloroso, humilhante e traumático precisa acabar. A OMS declara que não existem provas de que esse método pode provar se uma mulher ou menina teve uma penetração vaginal ou não". 

Aliás, é aí que reside a grande polêmica. O hímen, por si só, não é prova de que uma mulher não é mais virgem. Na verdade, a membrana pode ser partida de diversas maneiras, muitas delas totalmente acidentais e rotineiras, como andar de bicicleta, andar a cavalo ou pela prática de esportes. 

Durante o podcast, o próprio T.I. disse saber que isso é assim, mas ainda pedia ao médico a comprovação de que a filha ainda não teve o hímen rompido. "Mas eu digo 'Olha, Doutor, ela não anda de bicicleta ou a cavalo, não pratica esportes, então, apenas cheque o hímen e me dê os resultados o mais rápido possível'". 

Até mesmo órgãos locais nos Estados Unidos, como o Departamento de Saúde de Nova York, disseram, no mês passado, como esse tipo de prática é considerado "um assédio à jovens mulheres sem qualquer embasamento médico ou científico". 

Desde então, os comentários foram cortados do podcast, mas a internet ficou em polvorosa com a ideia do que acontece anualmente com Deyjah. Pelo Twitter, milhares de comentários sobre o assunto foram feitos, inclusive alguns chamando o rapper de "nojento, controlador e possessivo". 

A organização não governamental Planned Parenthood, famosa por oferecer serviços de saúde reprodutiva à mulheres, também se manifestou sobre o assunto na rede social: 

"Eu não sei quem precisa ouvir isso, mas a virgindade é um conceito socialmente construído, e não tem absolutamente nada a ver com o seu hímen. Virgem é aquele que nunca transou, mas 'sexo' significa algo diferente para cada pessoa, portanto, 'virgem' também. Muitos não se importam com o que significa ou a sua importância. Quer você acredite ou não, não dá para dizer se alguém fez sexo ou não pelo hímen", disse a organização. 

O hímen é uma membrana fina localizada na entrada da vagina - e é diferente para cada pessoa assim como as demais partes do corpo. Normalmente, conta com uma abertura grande o suficiente para o sangue da menstruação passar livremente, mas uma vez que essa abertura é expandida, a membrana não volta ao estado anterior. 

Ou seja, além de uma questão fisiológica que precisa ser considerada, existe ainda a questão do machismo. É um fato que a vida sexual de uma mulher tem um peso muito maior do que a de um homem - historicamente, mulheres virgens sempre foram desejadas e até incentivadas pela sociedade. 

Porém, pensar no constrangimento que uma jovem de 18 anos passa ao ter o hímen checado e a sua sexualidade controlada pelo pai dessa maneira é, no mínimo, sinal de falta de informação e uma visão ainda arcaica sobre a vida sexual feminina. O comportamento reproduz a ideia de que mulheres de respeito são aquelas que “se guardam” e não tem uma vida sexual numerosa.

Considerando que vivemos em uma realidade em que 97% das mulheres assumem já terem sido assediadas (e isso só no transporte público, fora do ambiente familiar), ser submetida a esse tipo de exame por alguém tão próximo pode ser visto erroneamente como um ato de cuidado, mas, na verdade, pode gerar tantos traumas e dificuldades de relacionamento quanto um assédio escancarado. No fim das contas, pouco se pensa em como a mulher se sente e muito se assume sobre como ela deveria agir segundo opiniões nunca solicitadas.

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