Por que o lockdown é tão difícil de ser implementado no Brasil?

Matheus Pichonelli
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People take part in a motorcade demonstration in favour of Brazilian President Jair Bolsonaro, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in Brasilia, on March 14, 2021. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Manifestantes em Jair Bolsonaro, contra o lockdown e outras medidas de restrição. Foto: Sergio Lima / AFP (via Getty Images)

Foi-se o tempo em que o Brasil era uma República Federativa habitada 202 milhões de técnicos da seleção brasileira espalhados por 26 estados e o Distrito Federal. Uso os dados de 2014 do IBGE porque aquele foi o último ano que algum brasileiro se preocupou com a equipe. De lá pra cá, talvez sequelados pelo sétimo gol da Alemanha no Mineirão, desistimos da bola e fomos tratar de outras querelas. E nos tornamos assim uma nação com (atuais) 210 milhões de cientistas políticos com PhD em políticas sanitárias.

Em comum, tanto num campo quanto no outro, o que nos une é a falta de consenso.

De todas as probabilidades da montagem da equipe, a coisa mais rara, até 2014, era ver repetida a mesma uma escalação com os mesmos 11 jogadores. Cada um tinha um goleiro e um centroavante ideais, e os desenhos táticos se diferenciavam conforme a personalidade do cidadão. Os mais conservadores priorizavam a defesa em duas linhas de cinco. Os mais rebeldes atuavam sem volantes. As diferenças eram sempre minimizadas por um ódio comum ao treinador da seleção, o oficial, que nunca dava ouvidos aos seus lamentos.

Em política viramos mais ou menos isso, e tudo parecia se resumir a uma mera discordância programática e ideológica até que veio a pandemia. Os efeitos práticos da falta de consenso se transformou em uma carnificina que assistimos em tempo real e atualização minuto a minuto. Exagero?

Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira 19 mostra que 79% dos brasileiros consideram a a pandemia fora de controle no país. Em cada cem, dois afirmam que a situação está totalmente controlada (onde vivem e do que se alimentam é um mistério).

O índice dos que viam descontrole era de 62% em janeiro. Nossa percepção acompanha a curva de mortalidade.

Se antes 74% dos brasileiros diziam ter muito ou pouco medo de se contaminar, hoje o número chega a 82%.

O temor e a sensação de que a coisa desandou parece nos unir. O trauma nos levou a um consenso mínimo agora, certo?

Mais ou menos.

Quando os brasileiros são chamados a opinar sobre o que deve ser feito diante de um problema que concordam, a maioria ainda age como os técnicos amadores da seleção brasileira que só não discordavam em um ponto: o time está mal, a defesa não passa confiança, etc. Antes, como agora, o problema não era o que, mas o como.

Para 60%, ficar em casa é a medida correta para conter a circulação do vírus. Para 30%, o que precisa acabar é o isolamento.

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É praticamente o mesmo número (28%) dos que são contra diminuir o horário de funcionamento de comércio e serviços (eram 37% em janeiro).

A maior discordância, porém, é em relação ao fechamento de templos e igrejas, defendida por 59% e rejeitada por 40%.

Por aí dá pra ver que o consenso é ainda uma miragem —e a estratégia do lockdown vai, inevitavelmente, provocar a gritaria de ao menos um terço da população. Se organizada, ela pode fazer muito barulho no curto prazo e muito estrago no longo, quando a base política do prefeito ou governador tende a corroer.

No DataVizinhança, que nos oferece prognósticos diários sem sair de casa, a partir de conversas da janela e grupos de WhatsApp, são poucos os que, a essa altura, minimizam os riscos do vírus. A lenda de que quem tem histórico de atleta vai surfar em segurança pelas primeiras, segundas, terceiras e quartas ondas pela imunização de rebanho caiu por terra.

Mesmo que não queira, a maioria consegue ver e associar disposição do senador Major Olímpio (PSL-SP) até cerca de 20 dias atrás, quando tinha saúde e vigor até para puxar a fila das manifestações contra o isolamento social. Infectado, ele morreu na véspera de completar 59 anos. Não recebeu sequer menção do ex-aliado Jair Bolsonaro em sua live semanal, transmitida no mesmo dia. O capitão, para quem o major fez campanha 24 horas por dia, sete dias por semana, em 2018, estava ocupado demais em dizer que, veja bem, todos os países estão indo mal no combate à pandemia (mentira) e atacando as poucas ferramentas disponíveis para a contenção do vírus.

Com Olímpio, já são três os senadores mortos pela Covid-19 em menos de um ano —cerca de 5% do total dos parlamentares na Casa. Os demais têm razão para estar com medo.

Com medo estamos todos. Ou quase todos. (Oito em cada dez, na verdade, segundo o Datafolha).

Entre eles o vendedor que bateu à porta de casa para trazer algumas encomendas e, com máscara, guardada a devida distância, descascou o governador e a prefeita que ampliaram as restrições de circulação e funcionamento do comércio na cidade. Para ele, a culpa pelo caos, que não ignora, é de quem se aglomera em festa, churrasco, casas de swing —os pecadores e hedonistas, enfim.

O trabalhador, diz, não tem nada com isso. Seguindo o protocolo, diz, ninguém pega nada. Ele encerra a conversa quando pergunto como a maioria vai chegar até os lugares de trabalho. Aglomerando-se em transporte público, certo? Muitas vezes com quem vai e com quem vem dos hospitais.

Não, essa não é uma matemática exata nem uma conta simples. Em uma pandemia, como na guerra, todos vamos abrir mão de alguma coisa em nome de algo maior: a vida. Uns vão perder mais que outros. E ceder —dinheiro, liberdade, planos— não é exatamente uma palavra facilmente digerível para quem acumula baixas, sobretudo financeiras, desde a última década. A dificuldade se acentua ainda mais quando se pensa no nível de informalidade no país, onde trabalhar é fazer o corre temporariamente suspenso, e o tecido das políticas de seguridade social é frágil. O auxílio-emergencial já deveria estar em campo há mais tempo, mas em vez cobrar e direcionar o revide há quem prefira tentar matar o mensageiro que apoia o isolamento, como aconteceu na sede de um jornal em Olímpia (SP) nesta semana.

Como técnicos de futebol, concordamos em discordar. E, como se tivéssemos à mão o controle remoto para trocar de canal e ouvir as ponderações de outros técnicos da seleção disfarçados de comentaristas esportivos, os brasileiros montam seus próprios kit-Covid ouvindo uma miscelânea de opiniões, nem todas fundamentadas com dados e referências, produzidas por quem deveria buscar, a essa altura, um mínimo de consenso.

É o que faz, mais de um ano após a primeira morte ser contabilizada por aqui, ainda estarmos tão longe de ver efetivada uma comunicação de crise e um alinhamento no discurso das autoridades.

Quando o prefeito fala uma coisa, o governador, outra, e o presidente chama ambos de idiotas, é normal que o vendedor aflito com o futuro incerto manifeste opiniões confusas sobre um problema que ele não nega (quando nega, é ainda mais difícil) ou tenda a apontar o dedo em quem definitivamente não gostaria de adotar medidas impopulares a essa altura. Mas tem como sair dessa vivo fazendo todo mundo circular normalmente enquanto o ritmo da vacinação é ainda lento?

Essa pergunta não poderia ser respondida com base em opinião, nem com acusações de elitismo a quem está disposto a obedecer ("é fácil ficar em lockdown com comida e Netflix"), mas de um plano conjunto que levasse em conta quem realmente entendesse do assunto e se preocupa. Isso, diferentemente do que diz o negacionista-mor, não é ditadura. É senso de coletividade.

Hoje os bombeiros dessa crise, que já anteveem um apagão de medicamentos em hospitais que já não comportam tantos pacientes, são os gestores estaduais e municipais que veem a mangueira de água ser furada o tempo todo pelo presidente que põe o risco à reeleição acima de tudo e de todos, rasgando o slogan da própria campanha e produzindo o maior estelionato eleitoral da história brasileira recente.

Enquanto o principal influencer dessa conversa se negar a olhar para o incêndio e usar a mesma mangueira dos demais, a vida de todos nós será determinada ou não pelo seu Zé da venda, que fala e age conforme seu ponto de vista e conceito de liberdade, vendidos no atacado por uma classe política irreconciliável e que transformou saúde pública em produto de feira. Cada um tem a sua.

Por isso uma medida drástica como o lockdown virou questão de opinião, não esforço de quem crê e confia na decisão das autoridades eleitas. Por isso estamos próximos de contabilizar 300 mil mortos enquanto a curva de outros países começa a despencar.

Em tempo. Falamos aqui, na última coluna, sobre como, com o estímulo do presidente e seus ministros, o fanatismo dos seguidores obedientes já colocava em risco a liberdade e a segurança de quem não está disposto a dobrar a espinha ao grande líder. No mesmo dia, um grupo de manifestantes que levou uma faixa com a suástica em frente ao Planalto foi preso com base na Lei de Segurança Nacional. A PM fez o trabalho sem que precisasse ser acionada. Longe dali, um senhor bolsonarista que compartilhou um vídeo armado e prometendo atirar no político que não gosta tentava explicar à polícia que estava nervoso e não quis dizer o que disse e jurou fazer no vídeo. Para quem acha que o Brasil está polarizado demais, talvez seja o caso de se perguntar qual das duas manifestações atira e mata. Há, como o presidente do PSDB, quem prefira o tiro.