Por que os brasileiros estão deixando de postar sobre política no WhatsApp?

Brasileiros estão deixando de falar sobre política no WhatsApp, mostra pesquisa. Marcelo Camargo/Agência Brasil
Brasileiros estão deixando de falar sobre política no WhatsApp, mostra pesquisa. Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um terço dos brasileiros deixou algum grupo de WhatsApp para evitar discussões políticas com amigos e familiares. Metade (51%) parou de comentar ou compartilhar notícias sobre o tema nesses espaços. Dois em cada dez deixaram de seguir alguma empresa ou marca por causa de suas posições políticas.

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Os números do Datafolha, divulgados nesta terça-feira, véspera de Natal, podem dar a impressão de que em Pindorama os moradores atingiram uma espécie de estafa política: foram do encanto ao desencanto.

A conclusão pode ser precipitada. E perigosa.

O levantamento capta os ânimos do rescaldo da eleição mais traumática e polarizada desde a redemocratização. Uma eleição que terminou com o vencedor prometendo “banir” do país quem vestisse as cores do adversário.

Normal que, longe dos discursos e promessas de campanha, os atos e resultados reais do governo eleito tenha jogado água no chope de boa parte dos apoiadores que elegeram um mito e acordaram com um ex-deputado do baixo clero com sérias dificuldades de se comunicar, montar equipe e explicar o que ele e seus filhos fizeram no verão passado.

Pela pesquisa, fica clara a associação automática, feita pelos entrevistados, entre discussões políticas e melindre: não posto, logo não ofenso. 

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Tenho a impressão de que o problema, ao menos por aqui, nunca foi o excesso de discussões do tipo, mas a falta delas. Se algo saiu errado está na forma, e não no exercício em si.

Quem acompanha o noticiário político vai se lembrar do tempo em que alguma bomba era divulgada nos jornais e um total de 0 pessoas falavam sobre o assunto na padaria, no bar, nos almoços em família, onde as atenções eram geralmente monopolizados pelo futebol ou pelas agruras da vida alheia.

De um tempo pra cá, à medida que equipamentos eletrônicos invadiram as mesas e as palmas das mãos das melhores famílias, política se tornou assunto obrigatório. As redes sociais atingiram pessoas que, sozinhas, não elaboravam discursos. Isso mobilizou identidades e valores e potencializou as disposições de ir para a rua.

O problema é que essas mesmas redes democratizaram também a desinformação, ou a informação pela metade. Passaram a ser monitoradas, vigiadas e pautadas por grupos de interesse dispostos a abrir a carteira até retomar o controle da narrativa.

Basta seguir a trilha do dinheiro para saber quem banca a produção em escala industrial de memes e notícias falsas para públicos-alvo específicos, fisgados antes pela emoção e pelas convicções do que pela disposição em discutir os fatos em si.

Deu no que deu, e ainda está dando.

Num país marcado por ditaduras, do Estado Novo à militar, passando pela política do café com leite e falsos caçadores de Marajás, que se democratizou sem observar os lastros da relação das velhas oligarquias e as linhas diretas com o poder, o eleitor médio passou anos acompanhando a tudo, ou quase nada, como espectador. Quando resolveu participar, imaginou que tudo se resolveria repassando correntes ou xingando quem estivesse à frente do seu candidato de coração - como se, com tantos anos de letargia, emprestasse a lógica da arquibancada, um dos poucos pontos de mobilização popular do país, para vencer um jogo que não se encaixa na lógica de vencidos e vitoriosos - não em uma democracia.

Hoje, 59% dos entrevistados pelo Datafolha acreditam que as redes sociais servem mais para divulgar notícias falsas do que para informar as pessoas, enquanto 54% as consideram importantes e 77% veem nelas uma possibilidade de dar voz a grupos sem espaços na sociedade. 

Minha aposta é que o desânimo diante do território político devastado em 2018 seja apenas cessar-fogo. Em 2020, ano eleitoral, tudo voltar ao anormal.

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