Por que o Leeds de Bielsa na Premier League é bom para o futebol

Stats Perform News

Mais do que simplesmente títulos, o futebol é feito de lamentos e comemorações. E após 16 anos de uma profunda depressão, o Leeds United, um dos clubes mais tradicionais – além de amado e odiado – da Inglaterra retorna à Premier League. O acesso foi oficializado após a vitória do Huddersfield sobre o West Brom, o segundo colocado da Championship (a segunda divisão), na abertura da 45ª rodada.  O título ainda nem tinha vindo (foi oficializado um dia depois), mas o que os torcedores queriam comemorar já pode, enfim, ser comemorado. E com todo o merecimento que você puder imaginar.

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Em primeiro lugar, e de forma direta em relação ao Leeds, porque o salto da segunda para a primeira divisão da Inglaterra representa o maior ganho financeiro que um time de futebol pode conseguir através de seus feitos esportivos – tanto que o playoff que define a última vaga do acesso é conhecido como “jogo mais valioso do mundo”. Mas de maneira geral, a boa notícia do retorno dos Whites está na presença de uma grande marca do futebol inglês ao maior palco futebolístico da Terra da Rainha.

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Leeds caiu após dar passo maior que a perna

Rio Ferdinand Leeds United 2000
Rio Ferdinand Leeds United 2000
(Foto: Getty Images)

Antes de citarmos outro ponto para somar ao argumento, vale resumir como foi que o Leeds sucumbiu na Inglaterra ao ter dado um passo maior que a perna na tentativa de se estabelecer de vez como um superclube num momento em que apenas os mais ricos, salvo raríssimas exceções, passavam a ter protagonismo dentro da Champions League – uma das consequências da Lei Bosman e das mudanças de formato na competição. E um nome simboliza toda esta jornada: Rio Ferdinand.

O hoje ex-jogador e atual comentarista foi contratado em 2000 por 18 milhões de libras, estipulando a marca de transferência mais cara já feita, até então, por um zagueiro. A aposta deu certo e Rio foi um dos destaques na épica campanha que levou o clube até a semifinal da Champions League 2000-01.

Com uma crise financeira que deixou o time no buraco, após gastar o que não tinha, em 2002 o Leeds vendeu Ferdinand para o arquirrival Manchester United: 34 milhões de libras e novo recorde no preço do defensor. Mas nem essa grana salvou e, três anos após viver um conto de fadas na Champions League, o Leeds foi rebaixado para a segunda divisão inglesa como vice-lanterna em 2004. A caminhada de 16 anos até o retorno à elite é a maior desde que a Premier League, o Campeonato Inglês moderno, começou em 1992.

A depressão profunda

Nottingham Forest Leeds United Championship 09222012
Nottingham Forest Leeds United Championship 09222012
(Foto: Getty Images)

Esta longa espera é mais um motivo (o segundo apresentado neste texto) que explica por que o feito do Leeds treinado por Marcelo Bielsa deve ser celebrado. Se você chegou a ver a série/documentário “Sunderland até Morrer” (NetFlix), consegue imaginar o drama pelo qual passou o Leeds.

Os Whites sentiram o baque do rebaixamento e caíram para a terceira divisão na temporada 2006-07, de onde sairiam apenas três anos depois antes de inúmeras péssimas campanhas na segundona inglesa. Em meio a um turbulento período, de resultados ruins dentro e fora de campo, até um brasileiro chegou como esperança: Adryan, revelado no Flamengo com o rótulo de “novo Zico”, entretanto, foi um dos tantos a não darem certo sob a difícil expectativa na Gávea e também com a camisa do Leeds.

O fracasso nas tentativas de voltar à Premier League ganhou ares de maldição quando o time já treinado por Marcelo Bielsa, em 2018-19, saiu de sensação do campeonato para uma sequência inesperada de derrotas que adiaram o sonho. Mas ali, entretanto, a figura do excêntrico treinador argentino já dava mostras de que ao menos era possível sonhar. E é exatamente a transformação feita por Bielsa no clube de Yorkshire que também explica por que toda esta comemoração em 2020 é merecida.

O fator Bielsa

Marcelo “El Loco” Bielsa é uma figura conhecida no futebol por ser um treinador de grandes ideias e poucos títulos. Na prática resultadista, o mais seguro seria dizer que o argentino de Rosário é melhor como inspiração para técnicos que seguiam seus fundamentos, mas fazendo suas mudanças. Os exemplos mais conhecidos dos discípulos bielsistas são Pep Guardiola, Mauricio Pochettino e Jorge Sampaoli – todos mais vitoriosos que o mestre.

Mas não duvide da capacidade de Bielsa – deixe isso para o temperamento do argentino, talvez. Nestas duas campanhas, “El Loco” tem média de vitórias de 55% com o Leeds, segundo o jornal inglês The Guardian. É a maior média de um técnico na história do clube, ainda que estejamos falando de segunda divisão e de uma instituição que se colocou como uma das mais tradicionais de seu país.

Leeds Bonzinho?

Bielsa, contudo, não apenas foi a luz no fim do túnel com o Leeds como mudou boa parte do ethos, da identidade, da instituição. Se em seu período mais vitorioso, entre as décadas de 1960 e 70, o clube passou a ser conhecido pela alcunha de “Dirty Leeds” (o Leeds sujo) pelo futebol duro e muitas vezes desleal, com Bielsa os Whites foram elogiados pelo jogo de passes e proposição.

Além disso, foram além ao conquistarem o prêmio de Fair Play da FIFA, em 2019, após permitirem ao Aston Villa marcar um gol logo depois de terem, eles próprios, balançado as redes sem ver que um adversário estava caído no gramado, lesionado. Já em meio à pandemia do novo coronavírus, Bielsa e seus jogadores insistiram para sofrerem cortes salariais para que o emprego de 272 profissionais do clube fosse mantido.

Ninguém é indiferente ao Leeds

Leeds United Manchester United Peter Schmeichel Steve Bruce Gary McAllister Roy Keane Gary Neville 1996
Leeds United Manchester United Peter Schmeichel Steve Bruce Gary McAllister Roy Keane Gary Neville 1996
(Foto: Getty Images)

O fato de ter sido uma das potências do futebol inglês, conquistando três títulos nacionais e até mesmo sendo vice-campeão da Copa dos Campeões da Europa em 1975, ajudou a criar grandes rivalidades. A maior delas é com o Manchester United: George Best, um imortal dos Red Devils, detestava o Leeds e Sir Alex Ferguson fez, em sua autobiografia, um relato surpreendente sobre o duelo.

“Quando eu cheguei a Manchester, já sabia sobre os clássicos com o City e os enfrentamentos contra o Liverpool. Eu não sabia nada sobre a animosidade entre o (Manchester) United e o Leeds”, relatou, antes de contar um episódio em que preferiu deixar o Elland Road, estádio dos Whites, por conta do excesso de xingamentos direcionados a si.

Em memória a um grande ídolo

Esta rivalidade só deve ser amenizada na família Charlton. Maior craque da história do Manchester United, Bob foi campeão mundial pela Inglaterra, em 1966, ao lado de seu irmão, Jack, um dos maiores ídolos do Leeds em todos os tempos. Jack Charlton faleceu dias antes de ver o seu querido Leeds de volta à elite, mas com certeza deve estar comemorando em algum lugar.

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