Por que é um erro negociar atletas muito jovens com a Europa

Felipe Portes
Foto: Divulgação/Twitter

Vinicius Jr. é a grande sensação no Flamengo em 2017. E isso porque ele ainda nem estreou como profissional pelo clube. Cria das categorias de base da Gávea, o menino brilhou pela equipe juvenil do Fla na Copa São Paulo e pela Seleção Brasileira sub-20. Com essas credenciais, ele já está na mira do Barcelona.

Aos 16 anos, ele parece ter o mundo aos seus pés. E de acordo com o site “Goal.com”, o garoto negocia com representantes do Barcelona uma transferência. É claro que a saída só poderia ocorrer depois que ele completasse 18 anos, mas o Flamengo tenta se proteger do assédio e segurar Vinicius por algum tempo.

Com essa idade, ninguém está pronto para o futebol profissional. A última vez que alguém tão novo despontou bem para subir ao time principal foi nos anos 1950, com Pelé, no Santos. Mesmo Lionel Messi, com toda a pompa que tinha pelo desempenho na base, só conseguiu espaço no Barcelona com 17 anos. Por que com Vinicius Jr. seria diferente?

O menino mostrou que tem bola para chegar logo aos profissionais do Flamengo, mas é preciso muita calma para realizar essa transição. Se ele não estiver mentalmente preparado para dar cada passo na carreira, ficará logo cedo frustrado com a forma que as coisas andam. O grande perigo de tratar jogadores muito jovens desta forma é que se vende ao mundo um potencial que pode nunca ser alcançado por centenas de fatores. O emocional, claro, pesa bastante. Mas em condições normais de jogo entre os adultos, com pressão e expectativas lá no alto, o futebol sempre fica mais complicado para estes meninos.

É claro que temos exceções. Gabriel Jesus estreou pelo Palmeiras aos 17 anos e menos de uma temporada depois, já havia estourado. Campeão da Copa do Brasil e do Brasileirão com o Verdão, foi vendido no ano passado ao Manchester City e estreou em janeiro de 2017 pelo clube inglês, em grande estilo. Jesus não é um exemplo, é um ponto fora da curva. Enquanto a Vinicius Jr., pode até ser que ele seja mais talentoso que qualquer atleta juvenil brasileiro, mas é muito cedo para trata-lo como “novo Neymar” ou qualquer que seja o parâmetro de comparação.

Fora o fator do deslumbramento com o interesse de clubes do exterior, o jovem brasileiro está sendo acompanhado de perto por empresários e pelo grande público, conforme aumenta o interesse por competições de base. Isso costuma ser prejudicial nesta fase, já que se prima pelo desenvolvimento, não pelos resultados em campo ou pelo montante de propostas que possam chegar aos agentes. Quem perde com isso, além do próprio jogador, é o clube, que muito cedo já tem de dividir uma parcela dos direitos federativos para empresários ou grupos de investimento, prática que tem sido combatida pela Fifa recentemente.

Em suma: badalar demais um jogador ainda em formação é nocivo. Cria-se uma expectativa desnecessária em torno da estreia e dos primeiros jogos de um adolescente que nem sempre se dá conta do contexto no qual está inserido. Vinicius já mostrou que será um jogador de alto nível se fizer tudo certo, mas até lá, muita coisa pode acontecer.

A multa de 30 milhões de euros para liberar o atacante pode até ser vantajosa para o Flamengo no futuro, mas essa liberação tem de acontecer num momento em que ele já tiver provado o seu valor entre os adultos. A ansiedade por uma transferência milionária é também uma grande probabilidade de lançar ao futebol europeu um jogador ainda cru.

Em tese, o plano que o Santos traçou para Neymar é o ideal. O clube acompanhou o garoto desde cedo e mesmo recebendo propostas tentadoras, só liberou o jogador para o Barcelona em 2013, com 21 anos, já consolidado no futebol nacional e com títulos importantes como a Libertadores, o Paulista e a Copa do Brasil pelo Peixe. Detalhe: ele já havia marcado mais de 100 gols com a camisa do Alvinegro praiano.

Quem foi cedo para a Europa e virou exemplo (nem sempre positivo)

Foto: Daniel Augusto Jr. – Divulgação/Agência Corinthians

Matheus Cassini tem 21 anos. Aos 20, formado pela base do Corinthians e esperando uma oportunidade na equipe titular, e em 2015, acabou sendo negociado com o Palermo, da Itália. Entretanto, ele nunca se firmou e foi repassado a outras equipes menores. Neste ano, foi emprestado à Ponte Preta para jogar a temporada. Espera-se que com boas chances, ele desenvolva o talento que se esperava desde os tempos de juvenil no Parque São Jorge.

Outra promessa do Corinthians foi Malcom. Cria do “Terrão”, o jovem atacante despontou para o profissional em 2015 e fez parte do time campeão brasileiro naquele ano. No início de 2016, foi para o Bordeaux, da França. Em sua segunda temporada no clube girondino, Malcom já soma 37 partidas, seis gols e tem sido bem importante para a equipe treinada por Jocelyn Gourvennec.

Já o Fluminense, se desfez de dois meninos recentemente. Em 2015, negociou Kenedy com o Chelsea, quando ele tinha apenas 19 anos de idade. Em época de escassez no elenco, o garoto até chegou a fazer 20 partidas no time principal, mas após a chegada de Antonio Conte, perdeu completamente o espaço e só jogou uma vez em 2016-17.

O meia Gerson, por outro lado, desembarcou na Roma em 2016 e tinha um longo caminho pela frente. Bem cotado desde a formação no Flu, o garoto foi comprado pelos italianos, mas ficou a primeira metade do ano no Rio, pois não havia vaga para estrangeiros no plantel romanista. Desde que estreou, o atleta de 19 anos fez apenas 11 jogos e não impressionou. Ele ainda pode mudar esse panorama, visto que é muito novo e deve ser emprestado na próxima temporada. Mas até agora, é uma decepção.

Vale citar também o atacante Nathan, de 21 anos, que deixou o Atlético Paranaense em 2015. Forçando sua transferência para sair do Furacão, o catarinense foi para o Chelsea, mas nunca atuou com a camisa dos Blues, sendo repassado ao Vitesse por empréstimo no mesmo ano. Em sua segunda temporada na Holanda, ele tem 27 jogos e cinco gols.

David Neres foi um fenômeno no São Paulo em 2016. Sem nem sequer completar 10 jogos como profissional, ele foi negociado com o Ajax, aos 19 anos. Imediatamente lançado ao time titular, se deu bem e não teve problemas com adaptação. Fez seu primeiro gol contra o Feyenoord, no último domingo.

Para encerrar, temos o caso clássico de Keirrison, que foi revelado pelo Coritiba, jogou pelo Palmeiras e antes mesmo de estourar, foi vendido ao Barcelona em 2009, com 20 anos. Ele também nunca atuou em uma partida oficial pelos catalães e constantemente era emprestado a outros clubes. Rodou pelo Benfica e pela Fiorentina antes de retornar ao Brasil. E nunca mais foi o mesmo, apesar de ter feito parte do elenco campeão da Libertadores pelo Santos em 2011. Hoje está no Arouca, de Portugal, aos 28 anos, superando várias lesões que prejudicaram o seu futebol.