Por que a Copa da Rússia registrou o recorde de gols de bola parada?

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Bola parada da Inglaterra foi muito forte, principalmente com Trippier na cobrança (Yuri Cortez/AFP/Getty Images)
Bola parada da Inglaterra foi muito forte, principalmente com Trippier na cobrança (Yuri Cortez/AFP/Getty Images)

Por Guilherme Yoshida

Os três primeiros gols marcados na final da Copa do Mundo, entre França e Croácia, mostraram uma tendência que aconteceu ao longo de toda a competição: tiveram origem em jogadas de bola parada.

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Dos 169 gols marcados no Mundial da Rússia, 72 foram feitos depois de cobranças de escanteios, faltas (diretas ou ensaiadas), pênaltis e até laterais. A marca de aproximadamente 43% do total dos gols e é um recorde na história da competição.

Antes, o maior índice de bola parada havia sido registrado na Copa de 1998, na França, quando 38% dos gols haviam ocorrido desta maneira. A incidência vista na Rússia foi maior até que alguns campeonatos da Europa que, no máximo, chegam a ter média de 35% em bola parada.

Ao todo nesta Copa, foram 24 gols oriundos de cobranças de escanteio, 23 de falta (sendo 17 ensaiadas e 5 diretas), 23 de pênaltis e 2 de arremessos laterais.

Lance que originou gol da Espanha no empate contra Portugal (Reprodução)
Lance que originou gol da Espanha no empate contra Portugal (Reprodução)

As dificuldades ofensivas das seleções, a introdução do VAR (árbitro de vídeo) e até jogadas inspiradas em movimentações do basquete foram algumas das razões para este cenário diferente dentro de campo.

Em 2018, muitos técnicos por ainda estarem em começo de trabalho, ou por não contarem com elencos de forte poderio técnico, ou até mesmo por opção de modelo de jogo, postaram suas equipes em “bloco baixo” e dificultaram muito os espaços para quem buscava atacar com a bola rolando.

Até a campeã mundial França teve seu jogo baseado em linhas defensivas mais recuadas para as saídas rápidas na fase de transição ofensiva. Com poucos espaços cedidos pelas defesas, foram poucos os gols marcados em contra-ataques neste Mundial.

Já segundo a Fifa, a inovação tecnológica VAR (árbitro de vídeo) contribuiu significativamente para este aumento de gols de bola parada. No Mundial da Rússia, o recurso foi o responsável pelo recorde de pênaltis em Copas, com 22 cobranças convertidas em 29 infrações marcadas no total.

Tipos de marcação

Tanto em cobranças de escanteios quanto em faltas laterais ou na intermediária, que geralmente resultam em cruzamentos para a grande área adversária, as seleções tinham à sua disposição três tipos de marcação para se defender nestes momentos: por zona, individual e mista (que reúne as outras duas em um só posicionamento).

México usou marcação individual dentro da área e deixou três jogadores no ataque (Reprodução)
México usou marcação individual dentro da área e deixou três jogadores no ataque (Reprodução)

No entanto, os três modelos têm vantagens e desvantagens e, se não forem bem treinados, acabam sendo facilmente vazados, como acabou acontecendo com boa parte das seleções que disputou a competição.

No formato individual, por exemplo, os defensores conseguem fazer a marcação bem próxima durante os deslocamentos ofensivos dos adversários. Muitas vezes, geram bastante embate físico na busca pelo espaço. Em contrapartida, fica vulnerável às movimentações ensaiadas do time que ataca.

Já a marcação em zona nas bolas paradas tem como premissa a ocupação dos espaços pré-determinados para cada jogador que defende. Então, acaba sendo uma estratégia que não gera setores vazios para os adversários conseguirem finalizar.

Misto entre escanteio curto e na área gerou sucesso para Portugal (Reprodução)
Misto entre escanteio curto e na área gerou sucesso para Portugal (Reprodução)

Porém, neste tipo de defesa, os defensores acabam se posicionando apenas em um determinado lugar da grande área e acabam ficando expostos às antecipações dos atacantes, que se deslocam e ganham mais velocidade e altura ao partirem de trás.

Com isso, algumas seleções utilizaram os chamados jogadores “bloqueadores”. Esta postura permite a defesa que marca em zona impedir que os adversários tenham espaços para se deslocar dentro da grande área (ver abaixo).

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Pick and roll

Quarta colocada na Copa-2018, a seleção inglesa foi a melhor no quesito entre todas as participantes. Dos 12 gols da equipe na competição, nove saíram em lances de bola parada (75%). Foram quatro vezes em cobranças de escanteio, três em penalidades, e duas de falta (uma direta e outra em jogada ensaiada).

Posicionamento emulando o “pick and roll” do basquete (Reprodução)
Posicionamento emulando o “pick and roll” do basquete (Reprodução)

O sucesso inglês neste momento do jogo foi graças a outro esporte. O técnico Gareth Southgate afirmou publicamente que, durante a fase de preparação para a Copa do Mundo, assistiu in loco a jogos da NBA para compreender melhor os deslocamentos no campo de ataque.

A inspiração para conseguir os cabeceios na grande área adversária veio de uma jogada no basquete conhecida como “Pick and Roll”. Nela, alguns jogadores são responsáveis por fazer uma espécie de “bloqueio” nos marcadores para permitir que um companheiro pré-determinado receba o passe (ou cruzamento) para finalizar sem ser incomodado.

Durante o Mundial, em muitas cobranças de escanteio, jogadores como Henderson, Stones, Harry Kane e Maguire formavam uma “fila” na entrada da área para possibilitar o último a atacar a bola sem marcação.

A aglomeração inglesa foi utilizada para confundir os marcadores e/ou “bloqueadores” individuais.

Ingleses deixavam bloqueadores adversários em desvantagem na entrada da área (Reprodução)
Ingleses deixavam bloqueadores adversários em desvantagem na entrada da área (Reprodução)
Com a cobranças, ingleses se movimentam e abrem espaço para um dos jogadores (Reprodução)
Com a cobranças, ingleses se movimentam e abrem espaço para um dos jogadores (Reprodução)
A cobrança vem na medida para a cabeçada de Stones e Kane marca no rebote (Reprodução)
A cobrança vem na medida para a cabeçada de Stones e Kane marca no rebote (Reprodução)

Pesadelo brasileiro

A seleção brasileira do técnico Tite também foi refém das jogadas de bola parada dos rivais que enfrentou na Copa. Dos três gols que sofreu na Rússia, dois tiveram origem em cobranças de escanteio.

No Mundial, a equipe brasileira optou pela marcação por zona, recorrendo aos “bloqueadores” na entrada da grande área. Mesmo assim, aconteceram falhas individuais dentro das zonas que permitiram Suíça e Bélgica vazarem Alisson com gols de cabeça.

A bola parada, inclusive, esteve presente nas últimas eliminações do time brasileiro em Copas. Desde 2006, a seleção pentacampeã mundial foi eliminada com derrotas que começaram com gols de bola parada do adversário.

Kompany aproveita espaço entre as linhas brasileiras (Reprodução)
Kompany aproveita espaço entre as linhas brasileiras (Reprodução)

Isso mostra que, independentemente da qualidade individual ou coletiva que uma seleção possa ter, um gol de bola parada tem um peso emocional e mental muito grande dentro de uma partida.

Nos últimos anos, os conteúdos defensivos têm sido muito estudados por técnicos e comissões, fazendo as defesas cada vez mais se sobressaírem sobre os ataques.

Todavia, a bola rolando continuou sendo o principal meio das seleções superarem os goleiros adversários, com 57%. Porém, a Copa da Rússia mostrou que, para conseguir as vitórias, também é preciso saber jogar com a bola parada.

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