Por que a contratação de Cuca arranha a imagem do Atlético e envergonha suas torcedoras

Breiller Pires
·4 minuto de leitura

Não se trata de pregação por pena perpétua nem por cancelamentos eternos. A rejeição à volta de Cuca por parte da torcida do Atlético-MG, sobretudo das mulheres alvinegras, é mais do que justificável. No fim dos anos 80, o treinador, que teve seu retorno confirmado nesta sexta-feira pelo clube mineiro, foi condenado por participar do estupro coletivo de uma garota de 13 anos, na época em que ainda jogava pelo Grêmio. O caso ocorrido na Suíça ficou conhecido como o "escândalo de Berna" e voltou à tona no ano passado, quando Robinho, também condenado por estupro, foi contratado pelo Santos, equipe treinada por Cuca.

Diante da enorme repulsa de torcedores atleticanos, que subiram nas redes sociais a hashtag #CucaNão, o técnico finalmente resolveu se pronunciar sobre o tema. Ao lado da mulher e das filhas, Cuca se disse inocente, pois teria sido julgado à revelia. Uma evolução de postura, por ao menos se dispor a tocar no assunto, já que, até então, rejeitara todos os pedidos de entrevista que envolvessem o escândalo que manchou seu currículo.

Por outro lado, no entanto, o pronunciamento não é suficiente para absolvê-lo de atitudes recrimináveis. A primeira, por usar mulheres como uma espécie de pedágio para autoperdão, como se o homem de família fosse incapaz de cometer violência machista. Depois, por contradizer o próprio discurso da época em que saiu da prisão na Suíça e voltou ao Brasil, ao lado de outros três companheiros que mais tarde também seriam condenados no processo, ovacionados por torcedores gremistas.

Na ocasião, Cuca chegou a se reunir com os pais de sua esposa para pedir desculpas pelo que acontecera em Berna, afirmando posteriormente à imprensa que "eles acharam que recebemos uma punição severa demais pela falta que cometemos". O agora treinador reconheceu que havia errado no episódio, mas hoje diz ter sido injustiçado. Vale lembrar que a Justiça suíça só proferiu a sentença sem a presença dos réus porque eles retornaram ao Brasil, por meio de intervenção diplomática do Governo brasileiro, e decidiram colocar uma pedra sobre o assunto.

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A pena de 15 meses de prisão imposta a Cuca prescreveu em 2004 e nunca foi cumprida. Embora ele não tenha sido reconhecido pela vítima como um dos autores da agressão sexual, a Justiça o considerou culpado por estar presente no quarto de hotel onde aconteceu o estupro, enquadrado como violência sexual contra pessoa vulnerável.

Cuca tem todo o direito de seguir negando participação no ato, mas, pelos registros processuais e relatos de testemunhas e envolvidos, não há como rechaçar, no mínimo, sua cumplicidade com o estupro de uma garota. As pessoas são capazes de aprender com os erros, evoluem, tiram lições do passado. Porém, isso não é possível quando não se reconhece a falha.

Assim, o Atlético justifica em nota oficial a contratação do técnico, a quem se refere como um "profissional íntegro": "Sobre os antigos episódios envolvendo o nome do treinador, o clube entende que o assunto está superado, em face das últimas declarações dadas por ele. O Clube Atlético Mineiro afirma confiar no treinador, em suas palavras e, principalmente, em sua conduta: sempre proba e séria, inclusive durante o período em que treinou o nosso time."

No ano passado, a diretoria desse mesmo clube que se diz comprometido com a bandeira da igualdade e o enfrentamento à violência contra a mulher desistiu de contratar o atacante Sebastian Villa, do Boca Juniors, após a fatia da torcida que hoje protesta contra a volta de Cuca rejeitar o jogador denunciado por agredir a namorada. Acolher o treinador nesses termos, passando pano para o histórico criminal semelhante, não é apenas incoerência, mas também um desrespeito às torcedoras atleticanas, que, não bastasse a afronta, amargam o anúncio da contratação às vésperas do Dia Internacional da Mulher.

Cuca não deve pagar pelo erro o resto da vida. Mas, antes de se dar por inocente, precisa assumi-lo e trabalhar para repará-lo. Poderia, por exemplo, usar sua fama e visibilidade para apoiar alguma iniciativa de proteção à mulher contra a violência doméstica. Não para limpar sua barra, e sim para mostrar que atualmente, como homem e pai de família, tem uma cabeça bem diferente do jovem jogador que atuava pelo Grêmio na década de 1980.

Enquanto isso não acontecer, o escândalo de Berna jamais será "superado", como deseja o Atlético. E qualquer clube que contratar Cuca terá de arcar com o peso de arranhar sua imagem por se associar ao lamentável episódio, que, num mundo que se cansou de normalizar a violência machista, não pode ser arrancado nem apagado da história.