Polícia do RJ identifica integralista como autor de ataque ao Porta dos Fundos


Polícia apreendeu um simulacro de arma, camiseta da Accale, dinheiro e livros na casa de Fauzi (à dir.), que está foragido | Foto: Divulgação/Leonardo Coelho/Ponte Jornalismo
Polícia apreendeu um simulacro de arma, camiseta da Accale, dinheiro e livros na casa de Fauzi (à dir.), que está foragido | Foto: Divulgação/Leonardo Coelho/Ponte Jornalismo

Por Leonardo Coelho

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A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro identificou um suspeito de participar do ataque com coquetéis molotov à sede da produtora Portas dos Fundos, na véspera de Natal, dia 24 de dezembro. Trata-se de Eduardo Fauzi Richard Cerquise, presidente da FIB (Frente Integralista Brasileira) do Rio de Janeiro e que também é liderança da Accale (Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella), grupo de extrema direita ligado ao movimento neointegralista brasileiro. Fauzi é filiado regular do PSL, ex-partido do presidente Jair Bolsonaro, atualmente sem partido.

Na manhã desta terça-feira (31/12), a polícia realizou uma operação para cumprir mandados de busca e apreensão na casa de Fauzi. Foram apreendidos R$ 119 mil em dinheiro, um simulacro de arma, munição, camisa de “entidade filosófico-política”, como definiu a corporação sobre a camiseta da Accale, livros e computadores. O acusado ainda está sendo procurado e é considerado foragido.

O ataque foi reivindicado pelo grupo Comando de Insurgência Popular Nacionalista que agiu, segundo vídeo postado nas redes sociais, por conta do especial de Natal feito pela produtora e disponível na Netflix, intitulado “A primeira tentação de Cristo“, que retrata Jesus Cristo (Gregório Duvivier) como um gay que namora Orlando (Fábio Porchat).

“Eles se utilizaram de dois veículos no ataque ao Porta dos Fundos. O [Eduardo] Fauzi, após o ataque, saiu de carro e, posteriormente, saiu a pé e nós conseguimos observá-lo ao entrar em um táxi. Nós conseguimos averiguar o taxista, que confirmou”, explicou o delegado Marco Aurélio Ribeiro. Segundo ele, a apuração segue aberta. “Ao longo das investigações iremos apurar se foi um ato isolado de pessoas ou se há ligações com associações, etc”, prosseguiu.

Vídeos divulgados pela Polícia Civil (ver acima) mostram um veículo modelo Ford Ecosport chegando na região do Humaitá, bairro na zona sul do Rio de Janeiro, onde fica a sede da produtora. Em outra imagem, um homem, que seria Fauzi, segundo a Civil, vira a esquina e o mesmo veículo parte. Por fim, a polícia divulgou imagens das molotovs atingindo o prédio do Porta. No entanto, não explicou se imagens da rua flagram o momento exato em que acontece o ataque e o suspeito. A Civil ainda não tem a confirmação expressa de que Fauzi jogou os coquetéis molotovs ou outra pessoa o fez, mas confirma sua participação no ataque.

O delegado solicitou e a Justiça acatou prisão temporária por 30 dias de Fauzi, que não foi encontrado em seus endereços. “Ele está sendo investigado por tentativa de homicídio e crime de explosão”, detalhou Ribeiro, antes de traçar um perfil do homem. “A investigação está muito no início, mas ele é uma pessoa violenta que responde por outros crimes. O Eduardo tem um perfil violento, antagônico. Tem livros relacionados à religião cristã, muçulmana e é muito interessado na Rússia”, explica o delegado.

Ataque à UniRio

O Comando, que reivindicou o ataque, é o mesmo grupo responsável por atacar a UniRio em 2018, quando roubou e queimou bandeiras antifascistas postas em frente à universidade de Direito. No dia 25 de novembro de 2019, Fauzi revelou em postagem feita na rede social Facebook que os responsáveis pelo roubo das bandeiras expostas na universidade eram, em parte, alunos – e até um docente – da própria instituição.

Grupo integralista retirou bandeiras antifascistas da fachada da faculdade de Direito | Foto: Reprodução

Na época, ele respondeu uma postagem da página Ala Esquerda que discutia a emergência sobre ações de novos agentes da ultradireita nacional, dentre os quais a própria Accale. Fauzi postou uma imagem e mensagem confirmando a presença de membros do grupo na universidade.

“Essa foto é de um círculo integralista que realizou uma ação direta na UniRio, a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e é, em boa parte, composta por alunos, e por um professor, que preferiram não serem identificados por conta do viés marxista da reitoria e da decania da Faculdade de Direito, de onde eles vem (em sua maioria)”, escreveu o homem.

Fauzi se referia ao roubo das bandeiras antifacistas que estavam na fachada do prédio da faculdade de Direito, ocorrido em 30 de novembro de 2018. Na ocasião, a Ponte esteve no campus da Universidade e conversou com membros do corpo docente e discente, que confirmaram o ataque. Nenhum dos entrevistados quis se identificar com medo de represálias. Segundo um caderno de registros da segurança do campus, disponibilizada nas redes pelo Diretório Acadêmico de Administração Pública.

Pelo relato, um grupo de três pessoas chegou ao campus e um deles, identificado como subtenente da área, solicitou a retirada das faixas. Quando um dos seguranças deixou a entrada da instituição para informar o decano, professor Benedito Adeodato, os homens teriam arrancado as faixas e deixado o campus às pressas. “Os seguranças têm mais detalhes, mas estão com medo de falar”, disse, à época, uma professora ouvida pela reportagem.

A UniRIo foi procurada para repercutir a fala de Fauzi sobre a presença de uma célula integralista na instituição federal, mas até agora não retornou o pedido.

Comentário de Fauzi sobre ação de integralistas na UniRio | Foto: Reprodução/Facebook
Comentário de Fauzi sobre ação de integralistas na UniRio | Foto: Reprodução/Facebook

No dia 10 de dezembro de 2018 começou a circular um vídeo que mostra 11 homens mascarados dispostos com camisas pretas e bandeiras do Brasil na região do peito. Ao final, os membros do grupo fazem a saudação “Anauê”, símbolo dos integralistas e similar ao que os nazistas alemães se direcionava a Adolf Hitler. Em meio a discursos de ódio, o grupo vandaliza as três flâmulas com pisões e chutes, terminando por incendiá-las.

A foto postada por Fauzi no último dia 25 de novembro de 2019 fazia parte justamente do frame desse vídeo propaganda divulgado pelos autoproclamados responsáveis pelo ataque à UniRio, que se autointitularam como Comando de Insurgência Popular Nacionalista, supostamente fazendo parte de uma corrente integralista.

Após o ataque, feito com coquetéis molotov durante a madrugada, um vídeo começou a ser divulgado, nomeando os responsáveis também como parte do mesmo autointitulado Comando de Insurgência Popular Nacionalista.

Segundo o site “integralismo.org.br” que é da FIB, Fauzi é presidente da seção fluminense da Frente Integralista. A informação é reforçada pelo site “Notícias do Sigma”, que lista os portais integralistas existentes no Brasil. Em postagem de 2018 diz-se que Eduardo Fauzi alcançou a liderança formal em 2018. A FIB, contudo, nega que ele seja presidente.

“Eduardo Fauzi frequentou sem filiação efetiva algumas atividades em que estavam presentes membros da FIB. Não localizamos processo de filiação antes de 2015 – quando interrompemos as homologações de fichas para reformulação dos modelos e sistema de participação, o que deve ser concluído neste próximo ano”, responderam por e-mail à reportagem na noite do dia 30 de dezembro, antes mesmo do pedido de prisão de Fauzi. “O núcleo do RJ não tem processos de eleição homologados desde 2009”.

O delegado Ribeiro explica que as investigações do crime na universidade estão sob responsabilidade da Polícia Federal e não fez ligações entre os dois ataques. Sobre Fauzi ser uma liderança de extrema direita, adotou cautela. “Nós temos a confirmação de que ele participou de eventos da Accale, mas se ele é membro, etc, nós ainda iremos verificar”, afirmou.

A fala dessa liderança da Accale abre espaço para que se questione inclusive se membros do grupo que roubou as bandeiras estão envolvidos no recente atentado ao estúdio do grupo de comédia Porta dos Fundos, ocorrido no último dia 24 de dezembro e divulgado de maneira similar por um grupo de mesmo nome.

Fauzi, contudo, é conhecido também da imprensa carioca. Em novembro de 2013 ele agrediu o secretário de ordem pública Alex Costa. Ele foi condenado em 2019 a quatro anos de prisão, mas recorreu.

Após o pedido de prisão, quando questionado pela Ponte, a Frente Integralista Brasileira soltou uma nota da diretiva nacional, explicitando que “O Conselho Diretivo Nacional da FIB, em reunião extraordinária, decidiu em caráter irrevogável expulsá-lo [Eduardo Fauzi] das fileiras da FIB e conclamar aos leais companheiros que tiverem informações que possam ajudar na elucidação do caso que cooperem com as autoridades policiais”.

Quando questionados sobre a presença de inúmeras notícias de que Fauzi seria uma liderança não apenas ativa, mas formal da FIB no Estado, o Diretor Administrativo Nacional e membro fundador Lucas P. de Carvalho entrou em contato com a Ponte para clarear que eles não tem informações sobre o Fauzi no que tange a uma suposta representatividade oficial no estado do Rio de Janeiro. O diretor, porém, ressaltou que “de fato uma parte [da comunidade integralista] entendia que ele teria sido legitimamente eleito e fosse membro ativo”.

A FIB reconheceu ainda que há postagens em diversas indícios que demonstram que Fauzi seria presidente local da Frente, mas no caso da matéria do site “integralismo.org.br”, eles explicaram que a postagem foi feita em uma seção de colaboradores não-filiados.


“Foi uma desorganização nossa. Não querendo fugir de vínculo – embora informal – ele foi visto, esteve falando e se apresentando em nosso nome sem atenção ou reclamação nossa”, disse Lucas. “Não há uma “patente” ou direito de marca, infelizmente”. A FIB disse ainda que não tem contato direto com Fauzi desde o dia 26 de dezembro.

A Accale, por sua vez, disse à Ponte que o procurado é um mero participante ativo. “Mas podemos afirmar que ele e nem ninguém é ‘presidente’ da Accale, pois não adotamos esse formato”, pontuam. Ao serem informados de que Fauzi, um membro ativo da associação, estaria sendo procurado, a associação se prontificou a dizer apenas de que já estavam cientes, mas que já tinham enviado todos os esclarecimentos necessários.

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