PM detém jornalistas e apreende celulares em jogo do Brasileiro

KATNA BARAN
Folhapress

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - O repórter da rádio Transamérica Jairo Silva Junior e o assessor de imprensa do Paraná Clube, Irapitan Costa, foram detidos e tiveram os celulares apreendidos pela Polícia Militar (PM) de Santa Catarina durante a partida entre Paraná Clube e Criciúma, pela série B do Brasileiro, na noite desta terça-feira (19).

Segundo os jornalistas, eles ficaram presos por cerca de uma hora em uma sala do estádio Heriberto Hulse e, até a publicação desta reportagem, não tiveram os aparelhos devolvidos pela PM.

Jairo e Irapitan filmavam uma confusão à beira do campo já no final do jogo, quando um dos atletas do Paraná se recusou a seguir para o vestiário depois de ser expulso e acabou repreendido pelo quarto árbitro da partida.

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Percebendo a situação, o executivo do clube, Alex Brasil, tentou intervir para retirar o jogador de campo. Segundo o seu relato, ele mesmo acabou sendo conduzido para o vestiário por policiais, a pedido do supervisor da CBF no jogo, Robson Cechinel.

De acordo com o jornalista da Transamérica, Cechinel também tentou pegar o seu celular, sem sucesso. O supervisor, então, teria pedido a ajuda dos policiais, que detiveram os profissionais que faziam as filmagens.

"Eu agi instintivamente, tentei fazer o relato do que estava acontecendo", diz Jairo, que chegou a narrar ao vivo na rádio o momento em que foi detido. Segundo ele, repórteres desse tipo de veículo realmente não têm autorização para filmar ou fazer fotos das partidas, mas a regra vale apenas em relação a fatos do jogo, não a situações externas ao campo.

Já Irapitan afirma ter filmado a situação para utilizar as imagens em eventual defesa sobre o desentendimento envolvendo o executivo do clube em que atua: "Foi só por precaução. Poderia aparecer na súmula que houve invasão do campo, e isso não ocorreu. Comentei com os policiais que poderia deletar o vídeo e estaria tudo certo".

A situação acabou sendo gravada por torcedores que assistiam ao jogo e compartilhada nas redes sociais.

Ambos foram liberados pelos policiais, sem os celulares e mediante assinatura de um termo circunstanciado, também assinado por Brasil, segundo a PM. Nele consta, de acordo com o assessor do Paraná, "perturbação do trabalho ou sossego alheio".

"Eu não estava importunando ninguém, eles que estavam importunando o trabalho, eu não estava fazendo nada de errado, houve excesso por parte da polícia", diz o profissional.

Ambos afirmam que outros jornalistas de veículos locais também filmaram toda a situação, mas não foram repreendidos pelos policiais nem pelo representante da CBF. "Foi uma ação direcionada, porque é pessoal de fora [do estado]", afirma Irapitan.

"Em 20 anos como radialista, desde 2007 viajando pelo Brasil inteiro, nunca tive uma experiência como essa. Nunca vi a polícia agir dessa forma no sentido de pegar o celular de alguém, nem tampouco um membro da CBF tentar impedir o trabalho da imprensa. Fiquei bastante surpreso", diz Jairo.

As empresas em que atuam os profissionais estudam medidas judiciais diante do ocorrido. No termo circunstanciado consta a realização de audiência no dia 19 de fevereiro para esclarecer os fatos.

Alex Brasil relata ainda que foi retirado do campo de forma truculenta, o que o deixou com hematomas no braço. "Esse assunto está superado, mas as lesões estão aqui", afirma o executivo, que diz que não vai tomar outras medidas contra os responsáveis.

Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão repudiou o ocorrido com os profissionais e pediu a apuração dos fatos e punição dos responsáveis. "Nada justifica a agressão a um repórter que está devidamente identificado como imprensa e no exercício da profissão. A plena liberdade de informação jornalística está garantida na Constituição Federal e não pode, em qualquer circunstância, ser desrespeitada."

A Associação dos Cronistas Esportivos do Paraná (ACEP) também divulgou nota em que "repudia veementemente os atos de abuso de autoridade e arbitrariedade praticadas por oficiais da Polícia Militar de Santa Catarina". A entidade ainda classificou o episódio como uma "injusta agressão" ao exercício profissional.

Em nota, a PM de Santa Catarina afirma que Alex Brasil se negou a deixar o campo, "tumultuando" os trabalhos e que, por isso, assinou o termo circunstanciado.

Declara ainda que os jornalistas estavam cientes de que não é permitido fazer filmagens no interior do estádio. Os celulares apreendidos servirão, segundo a instituição, como "meio de prova", por conta das imagens neles arquivadas.

O supervisor da CBF no jogo, Robson Cechinel, não foi encontrado pela reportagem para comentar o ocorrido.

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