PM branco agride policial negro: 'Que polícia, que nada! Vai, negão, deita'

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Abordagem ocorreu na calçada de delegacia ao vizinha ao mercado municipal de SP | Foto: Reprodução/Google Street View
Abordagem ocorreu na calçada de delegacia ao vizinha ao mercado municipal de SP | Foto: Reprodução/Google Street View

Por Arthur Stabile

Um policial civil foi vítima de injúria racial e de agressão por um policial militar enquanto trabalhava identificado no centro da cidade de São Paulo por volta das 12h45 de segunda-feira (8/6). Os suspeitos que ele conduzia à delegacia viraram testemunhas da ação violenta.

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Wesley Vasconcellos de Souza levava três homens até a delegacia, que fica ao lado do Mercado Municipal, na Rua da Cantareira, sob suspeita de usarem bicicletas para praticar furtos e roubos.

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Ele seguia com outros dois policiais civis para delegacia na mesma rua quando quatro motos da PM surgiram na contramão. Um dos policiais, que usava a moto com a identificação 07058/11, do 7º Batalhão de Polícia Militar, desceu e foi direto em Wesley.

Segundo documento da Polícia Civil, o policial jogou a moto na direção de Wesley, o atingindo na perda direita. Em seguida, deu uma peitada e uma cabeçada usando capacete. Tudo aconteceu em frente à delegacia.

“Vai negão, deita no chão”, gritou o PM. O policial civil usava distintivo da corporação e perguntou “você não está vendo que eu sou policial?”. “Que polícia que nada, seu filho da puta”, ouviu em resposta.

Um dos outros PMs percebeu que se tratava de outro policial e não um suspeito e o alertou. “Ele é polícia, meu, você está louco”. Nessa hora, outros policiais civis em serviço apareceram.

A reação do PM agressor foi retirar sua tarjeta de identificação, subir na moto e deixar o local. Os outros três PMs permaneceram por “alguns segundos e deixaram o lugar”, segundo o registro da ocorrência.

O delegado Marcos Paulo da Silva destacou no documento “a conduta lamentável” do PM, que demonstra “o quanto cidadãos de bem estão à mercê de abusos praticados por agente do Estado”.

“Se um policial, devidamente identificado, em frente a uma unidade oficial do Estado, na região central de São Paulo, foi vítima de abuso, o que pode acontecer a um cidadão abordado nos rincões da cidade, no período noturno, sem nenhuma testemunha?”, questiona.

Os três homens inicialmente abordados por Wesley e levados à delegacia acabaram sendo colocados como testemunha da agressão. Além de lesão corporal, Marcos Paulo da Silva incluiu os crimes de injúria e violência arbitrária.

Ponte entrou em contato com o policial civil Wesley Vasconcellos de Souza para detalhar a violência sofrida, mas ele não quis se pronunciar. “Qualquer informação é com a secretaria”, disse, se referindo à Secretaria da Segurança Pública.

De acordo com o advogado Damazio Gomes, integrante da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio, Wesley foi vítima de uma conduta grave por parte do outro policial, ao sofrer racismo quando fora o único abordado. No entanto, explica que, apesar da violação sofrida, o próprio policial Wesley cometia uma irregularidade ao levar três suspeitos à delegacia.

De acordo com o B.O., o policial os viu em bicicletas e, pelo fato de a região ter muitos roubos e furtos, considerou a atitude “suspeita”. “Não haveria flagrante neste caso. A não ser que suspeitasse que o documento da pessoa não está batendo com as informações fornecidas ou não estivessem com identificação, só nessa hipótese, poderia levá-los à delegacia”, explica o advogado.

Damazio detalha que a conduta “não condiz com o que a lei fala”, segundo o artigo 244 do Código de Processo Penal, que cita fundada suspeito para posse de arma como exemplo para abordagem sem flagrante de prática de crime. O advogado explica que o policial pode levar uma pessoa à delegacia caso haja adulteração de documento, não pela suspeita aleatória.

A reportagem questionou a SSP e a PM sobre a abordagem. Em nota enviada nesta sexta-feira (12/6), secretaria e PM informam que “o policial foi identificado e afastado do serviço operacional” até a conclusão das investigações. Ele segue recebendo seu salário normalmente.

“O caso é investigado por meio de inquérito pelo 1º Distrito Policial (Sé) e por IPM pelo 7º Batalhão da Polícia Militar Metropolitano (BPM/M). A autoridade policial já ouviu a vítima, assim como testemunhas. As polícias Civil e Militar trabalham para esclarecer todas as circunstâncias relacionadas à ocorrência”, diz a nota conjunta.

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