Consciência Negra: deputados dão aula de como racismo opera no Brasil

Protesto durante o primeiro ano do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, no Rio. Foto: Sergio Moraes/Reuters
Protesto durante o primeiro ano do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, no Rio. Foto: Sergio Moraes/Reuters


No livro “A Nova Segregação: Racismo e encarceramento em massa”, a advogada norte-americana Michelle Alexander afirma que a confusão da negritude com o crime não acontece naturalmente. “Ela foi construída pelas elites políticas e midiáticas como parte de um amplo projeto conhecido como Guerra às Drogas. Essa confusão serviu para fornecer uma porta de saída legítima para a expressão do ressentimento e do animus antinegros - uma válvula de escape conveniente agora que as formas explícitas de preconceito racial estão estritamente condenadas”. 

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“Na era da naturalidade racial”, completa a autora, “já não é permitido odiar negros, mas podemos odiar criminosos. Na verdade, nós somos todos encorajados a fazer isso”.

O trecho é citado no capítulo mais sensível do livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, sobre o qual escrevemos no começo da semana, e é fundamental para compreender o que aconteceu nos corredores da Câmara nesta terça-feira, dia 19, véspera do feriado nacional da Consciência Negra.

Para celebrar a data, foi montada uma exposição no túnel localizado entre o Anexo II e o Plenário. No local havia uma charge sobre o genocídio da população negra, com dados sobre letalidade policial (75% das vítimas entre 2017 e 2018 eram negros), e a imagem de um homem com a camisa do Brasil algemado e alvejado pela figura de um PM. 

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A representação causou revolta na chamada bancada da bala. O Coronel Tadeu (PSL-SP), que tinha o direito de se manifestar e protestar contra a representação, decidiu encerrar a conversa rasgando a placa.

O ato foi prontamente repudiado por colegas, entre eles Orlando Silva (PCdoB-SP), um dos raros parlamentares negros da Casa.

Mas foi aplaudido pelo colega Daniel Silveira (PSL-RJ), que no ano passado ficou conhecido após rasgar uma placa em homenagem a Marielle Franco, vereadora negra do Rio assassinada em via pública, em plena campanha.

Em discurso, Silveira contestou os números do Ipea sobre assassinatos no Brasil, classificou como falácia a ideia de “genocídio” da população negra e disse ser “evidente” por que mais negros morrem no país.

“Tive o prazer e desprazer de operar em todas as favelas do estado do Rio de Janeiro. Tem mais negros com armas, tem mais negros cometendo crime, tem mais negros confrontando a polícia. E mais negros morrem. E aqui quem fala sabe o que está falando. Não estou falando com base de dados que alguns supõem. O negro não morre por ser negro. Morre porque sustenta um fuzil. A PM não entra na favela atirando a esmo para matar o negro. Se for branco, se tiver que ser neutralizado, vai ser porque comete crime. Não venha atribuir à Polícia Militar do Rio de Janeiro as mortes porque um negrozinho bandidinho tem que ser perdoado”, discursou.

O deputado pode não gostar de números, mas presume-se que se atenha aos fatos.

No mesmo dia em que discursou, ficou comprovado que partiu de um policial a bala que vitimou a menina Ágatha Felix, segundo inquérito feito pela Delegacia de Homicídios do Rio. Ela não carregava fuzil - assim como o jogador das categorias de base do América (RJ) Dyogo Costa Xavier de Brito, um dos cinco rapazes mortos a tiros no Rio em um mesmo fim de semana de agosto. Em vez de fuzil, ele portava uma chuteira na bolsa.

Quem também não foi perdoada foi a pequena Kethellen de Oliveira Gomes, de cinco anos, que na semana passada se tornou a sexta criança morta por disparos de arma de fogo no estado do Rio em 2019. “Não chora, não, mãe”, disse ela, deitada no chão, após ser alvejada enquanto ia para a escola.

Ela também não carregava fuzil.

Fuzil quem carregava, em sua casa, era o comparsa do sargento da reserva Ronnie Lessa, suspeito de ter matado a vereadora de quem o deputado Daniel Silveira tentou rasgar a memória. Não um nem dois, mas 117 armamentos incompletos, do tipo M-16.

Já pensou se um caso desse causasse tanta indignação aos deputados quanto uma charge? Talvez não houvesse armas circulando em mãos indevidas pelo país.

No caso de Lessa, um homem branco, valeu a lei: preso, ele tenta provar sua inocência por meio de advogados, não de relatos de parentes vitimados pela chamada bala perdida que no Brasil só encontra pele negra.

A disparidade é tão evidente que chega a gritar, e é isso o que explica a tentativa de alguns grupos de berrar mais alto para que ninguém perceba que suas ideias de bases racistas não correspondem aos fatos. Se não, por que tanto medo da consciência?

O discurso de Daniel Silveira só reforça uma guerra que atenta contra os soldados da corporação que jura defender. Como lembra Djamila Ribeiro, é triste constatar que o Brasil é também o país onde mais morrem policiais. “A maioria deles vem da classe trabalhadora, muitas vezes dos mesmos lugares onde jovens negros estão sendo assassinados. Se a polícia é o braço armado do Estado opressor, é também um dos lados que cai com essa guerra”.

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