Pia empolga, mas CBF blinda dirigentes e deixa perguntas sem resposta

Yahoo Esportes
Até Rodrigo Maia subiu ao palco, mas Marco Aurélio não (Lucas Figueiredo/CBF)
Até Rodrigo Maia subiu ao palco, mas Marco Aurélio não (Lucas Figueiredo/CBF)

Pia Sundhage foi apresentada ontem pela CBF como nova treinadora da seleção feminina. Após o discurso de boas-vindas do presidente Rogério Caboclo, a sueca subiu sozinha ao palco para falar com os jornalistas, mas como acabou de chegar ao Brasil e ainda está se familiarizando com a situação da equipe, deixou algumas perguntas essenciais sem resposta.

"É difícil demais responder agora. Sei que a CBF começou a fazer coisas maravilhosas, mas preciso saber como o futebol funciona aqui”, disse a treinadora ao falar, por exemplo, sobre o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Segundo Caboclo, Pia vai comandar a seleção principal, mas ajudará a coordenar o trabalho das seleções sub-17 e sub-20. A técnica, no entanto, não explicou como esse trabalho será feito ou como serão formadas as comissões técnicas das equipes de base, tampouco quem trabalhará ao seu lado no time principal.

Mais sobre futebol feminino no Deixa Ela Jogar:

A pessoal ideal para responder a esses e outros questionamentos seria o coordenador de seleções femininas da CBF, Marco Aurélio Cunha. Faz semanas que os torcedores e jornalistas que acompanham futebol feminino buscam explicações de porque a seleção sub-20 está sem comando técnico desde setembro do ano passado, quando Doriva Bueno foi demitido.

Ou então porque Luizão, que até junho todos pensavam ser técnico da equipe brasileira sub-17, foi citado em reportagem do Lance! como técnico da base do Juventus da Mooca sem que sua saída (ou substituto) fosse anunciada pela CBF.

A própria permanência de Marco Aurélio — debatida pela cúpula após a eliminação na Copa do Mundo diante do questionado trabalho de Vadão — foi anunciada por Caboclo sem que os jornalistas tivessem a chance de pedir maiores explicações, já que obviamente não cabia a Pia esclarecer o assunto.

O dirigente sequer subiu ao palco para receber a sueca e se limitou a ficar sentado na plateia ao lado de Vadão — que também esteve presente para passar relatórios e informações da seleção à nova treinadora.

Diante da falta de respostas, o blog Deixa Ela Jogar entrou em contato com a assessoria da CBF para saber os termos da decisão de manter Marco Aurélio no cargo. A resposta foi simples: “Ele é o coordenador de seleções femininas, não tem nada além disso.”

A jornalista Letícia Lázaro, do Planeta Futebol Feminino, resgatou imagens da apresentação de Tite em 2016 e lembrou que ao lado dele sentaram o coordenador da seleção masculina Edu Gaspar e os auxiliares Matheus Bachi e Cléber Xavier.

Outro ponto não ficou claro. Pia disse que alguns membros da comissão técnica de Vadão poderiam permanecer com ela, inclusive um “assistente”, mas afirmou que a decisão será tomada “em breve".

O único nome confirmado pela CBF é Bia Vaz, que seguirá como funcionária da entidade, mas não necessariamente como auxiliar técnica. A permanência do preparador físico Fabinho também é considerada, já que ele conhece as atletas há bastante tempo e fala bem inglês, mas os dirigentes não deram qualquer parecer sobre o assunto.

Foram poucos os jornalistas que fizeram perguntas mais incisivas, caso da jornalista Renata Mendonça, das Dibradoras, que lembrou a situação de Emily Lima e perguntou o que fazia Pia crer que desta vez seria diferente.

Lembrando que, em 2016, a atual treinadora do Santos se tornou a primeira mulher no comando da seleção feminina, mas foi demitida depois de dez meses, sob alegação de falta de “resultados”, sem sequer disputar jogos oficiais. Em entrevistas posteriores, Emily, de perfil questionador, deixou claro que “não se dava bem” com Marco Aurélio.

"Eu olharia para a situação como um todo. Você tem que dar o primeiro passo e abrir uma nova página, e essa é a nova página. A CBF tenta fazer diferente, então por que não abraçar isso? É normal cometer erros", respondeu Pia, que também é questionadora e historicamente luta por melhorias na modalidade.

Ao colocar a recém-chegada (e prestigiada) Pia sozinha diante da imprensa, a entidade acabou blindando seus dirigentes dos questionamentos repetidos há tempos pelos torcedores e jornalistas que acompanham a modalidade.

Sobrou empolgação com o trabalho da nova técnica, dona de um vasto currículo e presente nas últimas três finais olímpicas, com dois ouros pelos Estados Unidos e uma prata pela Suécia. Não há dúvida de que ela chega para fazer um trabalho sério. Mas também faltaram esclarecimentos e respostas concretas para os reais problemas.

Os resultados positivos que a treinadora eventualmente trouxer vão acabar servindo de escudo aos dirigentes — que deveriam ser os verdadeiros alvos das cobranças. Ao optar por não colocar Marco Aurélio Cunha no palco, a CBF mostra que está disposta a respaldar o coordenador e suas antigas práticas. Resta à imprensa e aos simpatizantes do futebol feminino seguirem de olho, exigindo explicações.

Leia também