PF indicia dois por morte de Paulo Paulino Guajajara no Maranhão e descarta emboscada

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Paulo Paulino “Lobo Mau” Guajajara foi assassinado durante uma troca de tiros em Bom Jesus das Selvas, no Maranhão. Imagem: Sarah Shenker/Survival International
Paulo Paulino “Lobo Mau” Guajajara foi assassinado durante uma troca de tiros em Bom Jesus das Selvas, no Maranhão. Imagem: Sarah Shenker/Survival International

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Polícia Federal descarta que o crime tenha sido uma emboscada.

  • Defensoria Pública da União alega que houve 'equívoco' na conclusão das investigações sobre o caso.

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A Polícia Federal indiciou Raimundo Nonato Ferreira de Sousa e Antônio Wesley Nascimento pela morte do indígena Paulo Paulino Guajajara e do madeireiro Márcio Gleik Moreira Pereira. O crime aconteceu em 1º de novembro do ano passado na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. A informação foi publicada pelo portal G1.

Ao portal, o delegado da Polícia Federal, Nathan Vasconcelos, responsável pelas investigações, disse que Antônio Wesley e Raimundo Nonato foram indicados por homicídio doloso, ou seja, quando há intenção de matar. Eles responderão também por porte ilegal de arma de fogo e por caça ilegal, uma vez que, de acordo com o policial, as investigações apontam que a dupla estava na região praticando atividades de caça.

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Láercio Guajajara, índio que sobreviveu à troca de tiros, também foi indiciado no inquérito da PF. Segundo as investigações, o indígena foi acusado furto, de porte ilegal de arma e por dano causado nas motocicletas que foram apreendidas pelos índios com os não indígenas. Uma terceira pessoa, Clayton Rodrigues Nascimento, também foi indiciado por porte de arma e caça ilegal.

No começo da última semana, a PF havia descartado a hipótese que o indígena havia sido morto em uma emboscada ou que o crime teria relação com conflitos étnicos. As investigações apontam que a troca de tiros aconteceu após índios terem furtado e depredado uma moto de ‘não indígenas’.

Para o defensor público da União, Yuri Costa, que atua na defesa de Laércio Guajajara, há um grande equívoco por parte da Polícia Federal na conclusão das investigações. A defensoria afirma que o caso tem uma relação com um conflito maior entre indígenas e não-indígenas que historicamente existe.

“A conclusão da autoridade policial é equivocada, não corresponde aquilo que foi apurado durante o inquérito policial. O delegado concluiu que não há relação dos homicídios e interesses da coletividade indígena. Ele reduziu a um conflito privado, específico, ligado a furtos de motocicleta. Na opinião da Defensoria, isso descontextualiza tudo o que envolve um conflito histórico naquela região entre indígenas e não-indígenas”.

Segundo o defensor, os indígenas não teriam furtado a motocicleta, mas a haviam apreendido para apresentar como prova para a Fundação Nacional do Índio (Funai) e denunciar as invasões que estavam acontecendo na região.

“A versão do Laércio Guajajara é que no dia em questão, o que aconteceu foi que durante a caça, encontraram quatro motos escondidas no mato e sabiam que eram de não-indígenas que se estavam ilegalmente na floresta. Eles [indígenas], dentro dessa estratégia de autoproteção, danificaram três das motos e estavam tentando levar uma para a Funai como evidência, já que eles estavam há dois dias na mata, sem bateria de celular para tirar uma foto. Daí, os não-indígenas viram, encontraram eles levando a moto, e aí houve o conflito que vitimou duas pessoas”, explicou.

A Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular no Maranhão (Sedihpop) e o indígena Láercio Guajajara afirmaram, depois do crime, que as mortes ocorreram em uma troca de tiros após uma emboscada dos madeireiros. O índio também ficou ferido durante a ação.

As investigações estão sendo realizadas pelo Ministério Público Federal (MPF) e foram encaminhadas para a Justiça Federal. A Justiça Federal informou ao portal que não vai se pronunciar sobre o caso e que os detalhes do processo corre sob segredo de justiça.

Ao todo, a Terra Indígena Arariboia é composta por etnias indígenas Ka’apor, Guajajaras e Awá-Guajás em um território com 413 mil hectares no sudoeste do Maranhão onde vivem 12 mil indígenas. Parte dessas tribos possuem Guardiões da Floresta, que são formados com o intuito de proteger a natureza, evitar invasões de madeireiros e incêndios.

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