Perdas, ganhos e interrogações: como adiamento dos Jogos impacta o Brasil

Jonas Moura
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No dia em que os Jogos Olímpicos de Tóquio deveriam ser oficialmente abertos, nesta sexta-feira, com a delegação brasileira reunida para uma moderna cerimônia de abertura, os atletas acordaram em diferentes partes do mundo e cercados de dúvidas sobre o que será de suas carreiras.

A pandemia do Covid-19 virou do avesso a preparação feita minuciosamente nos último quatro anos. O decorrer dos meses desde o anúncio do adiamento, em março, não trouxe até agora respostas claras sobre como será o evento.

Nem sequer está garantida a realização da Olimpíada, entre 23 de julho a 8 de agosto de 2021, e da Paralimpíada, entre 24 de agosto e 5 de setembro de 2021. Mas a eficácia de algumas nações comprometidas com uma política sanitária agressiva e a velocidade sem precedentes de estudos sobre uma vacina enchem o universo olímpico de esperanças.

Mesmo que o Brasil esteja longe de se enquadrar na categoria citada acima, o contexto é favorável para o Comitê Olímpico do Brasil (COB) intensificar o trabalho. A entidade, que anunciou o aporte de R$ 120 milhões do orçamento ordinário de 2020 às confederações em meio à pandemia, lida com metas no curto prazo, afinal é difícil prever como os atletas, tanto os daqui quanto os de fora, reagirão ao contexto, que trouxe consequências físicas e emocionais.

– Estamos acompanhando todas as ações e as monitorando para identificar qualquer necessidade específica. Todas as nossas atenções são voltadas para que consigamos retomar nossas atividades com segurança, dosando a carga de treinos e evitando riscos de lesões. É importante entender que todas as ações são complementares e serão ampliadas aos poucos e dentro do possível, ainda em ambiente de pandemia – disse Jorge Bichara, diretor de esportes do COB.

É comum pensar que o impacto do adiamento é igualmente negativo para todos os países, mas a situação do Brasil preocupa, devido aos atrasos em relação ao mundo no controle da pandemia. Modalidades coletivas, de combate e aquelas que dependem de aparelhos específicos sofreram os maiores impactos com o distanciamento social, ainda sem data para acabar.

O caso da ginástica artística é um dos mais delicados. Se risco de lesões já assombra os esportistas em condições normais, a situação se agrava após quatro meses sem a execução de séries com alto grau de dificuldade. O grupo realizou treinos online nos últimos meses, com exercícios preventivos.











– Planejamos um retorno gradativo. Neste momento, nosso objetivo é alcançar uma melhora física. Estamos realizando uma bateria de testes. Eles nos dão parâmetros que nos ajudam a entender o momento de cada um, e cada qual será devidamente respeitado, é claro – explica Marcos Goto, Coordenador da Seleção de ginástica artística Masculina, que está em Portugal, onde algumas modalidades realizam um período de treinamentos.

Por outro lado, dois nomes cotados ao pódio em Tóquio, caso apresentem suas melhores condições físicas, ganharam tempo valioso de recuperação de lesões: Arthur Nory, bronze no solo na Rio-2016 e campeão mundial na barra fixa em 2019, se recupera de uma artroscopia no ombro esquerdo. Se não fosse a pandemia, ele corria o risco de competir no sacrifício. Já Rebeca Andrade, uma das ginastas mais completas da atualidade, passou por três cirurgias no joelho direito nos últimos anos e ainda não garantiu vaga. Com o adiamento, terá margem para recuperar a forma e lutar pela classificação no ano que vem.

– Vou confessar que para mim foi muito bom. Tive oito meses parada, passei por uma cirurgia complicada e tive mais tempo para me recuperar e cuidar do meu joelho. Pude descansar bastante – contou Rebeca.



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Rebeca Andrade
Rebeca Andrade

A ginasta brasileira Rebeca Andrade (Foto: Divulgação)

Outras modalidades que tiveram perdas na quarentena e estão em Portugal são o judô, ainda à espera de uma definição sobre o caso de doping da campeã olímpica Rafaela Silva (57kg), e o boxe, que tem na campeã mundial Beatriz Ferreira (60kg) uma grande esperança. Os aquáticos também buscam recuperar o prejuízo após o fechamento de clubes e centros aquáticos. Ainda sem condições de treinar no Brasil, natação e nado artístico compõem a delegação na Europa.

– É um momento bom para retornar a treinar. A cabeça continua com o mesmo objetivo. A sensação é de começar tudo de novo em busca de um sonho. Espero que agora a gente possa voltar com tudo todos os dias treinando – afirmou Ana Marcela Cunha, dona de 12 medalhas em Mundiais na maratona aquática, que passou três meses sem ir para a água.

O atletismo deve se juntar ao grupo que está na Europa em breve, depois de algumas situações curiosas. Quarto colocado no arremesso de peso no Campeonato Mundial de 2019, Darlan Romani treinou nos últimos meses em um CT improvisado que montou ao lado de casa, em Bragança Paulista (SP). Ele sabe que o pódio olímpico se tornou uma missão ainda mais difícil.

– Estava numa preparação muito boa, mas de repente tivemos de parar tudo por causa da pandemia. Fiz treinamentos meia boca em casa e em um terreno vizinho devido à quarentena. Agora, eu e o meu técnico resolvemos recomeçar – disse Darlan, treinado pelo cubano Justo Navarro.





Darlan Romani - Mundial de Doha
Darlan Romani - Mundial de Doha

Darlan Romani no Mundial (Foto: Wagner Carmo/CBAt)

A vela, que costuma render medalhas ao Brasil, tem competições previstas ainda para este ano. As campeãs olímpicas Martine Grael Kahena Kunze esperam se manter entre as melhores da classe 49erFX. Aos 47 anos, Robert Scheidt, dono de cinco medalhas olímpicas, por um lado sente o impacto da idade. Por outro, respira aliviado com o tempo ganho para tentar se aproximar do nível competitivo dos garotos da classe Laser. Ele treina há semanas no Lago di Garda, na Itália, e planeja voltar a competir em setembro.

Entre os coletivos cotados ao pódio, o vôlei parou no tempo. O ano de 2020 terminará sem que tenha ocorrido nenhum treinamento das Seleções masculina, que encerrou 2019 nas alturas, com o ouro na Copa do Mundo, e feminina. O mesmo vale para basquete e handebol, mas nesses casos já não havia favoritismo verde e amarelo. Quem joga na Europa leva vantagem.

Seleção masculina de vôlei
Seleção masculina de vôlei

Seleção masculina brilhou em 2019 (Foto: Divulgação/FIVB)

A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) tomou a decisão de cancelar o calendário devido à situação crítica da pandemia no país, com reflexos distintos em cada região. O foco é planejar o calendário dos clubes. A Superliga tem previsão de início a partir da segunda quinzena de outubro, quando o cenário do Covid-19 tende a ser mais favorável. Mas os jogos não devem ter público.

Para uma equipe com média de idade elevada, como a Seleção feminina, um ano faz diferença. Veteranas como Sheilla, de 37 anos, Fabiana, de 35, Fernanda Garay, de 34, Thaisa, de 33, e Tandara, de 31, não podem prever como estarão fisicamente e emocionalmente em julho de 2021. Nomes da nova geração, como Lorenne, de 24 anos, e Tainara, de 20, têm boa oportunidade de ganhar terreno no período, mas terão pouca rodagem internacional até os Jogos.

– As perdas são inevitáveis. Por outro lado, o tempo foi ideal para as atletas tomarem mais cuidado com o físico e, em muitos casos, se recuperarem. Não estão no ideal, mas puderam fazer alguma coisa. Com a bola tem sido mais complicado, mas acredito que a retomada será rápida, porque elas se conhecem e estão acostumadas a jogarem juntas. Além disso, não foi um privilégio do Brasil – destacou o técnico da Seleção feminina, o tricampeão olímpico José Roberto Guimarães.

Seleção feminina de vôlei
Seleção feminina de vôlei

Seleção feminina de vôlei vive incertezas (Foto: Divulgação/FIVB)

No vôlei de praia, as quatro duplas classificadas para Tóquio (Alison/Álvaro Filho, Bruno/Evandro, Ana Patrícia/Rebecca e Ágatha/Duda) aguardam a retomada dos torneios, ainda sem saber muito o que esperar do imprevisível cenário internacional.

No caso dos esportes que podem ser praticados longe de aglomerações, as perdas tendem a ser menores, apesar da falta do ritmo das competições. Na canoagem velocidade, os medalhistas de prata na Rio-2016 Isaquias Queiroz e Erlon Souza seguiram seus treinamentos em Lagoa Santa (MG), com os cuidados necessários.

Isaquias Queiroz
Isaquias Queiroz

Isaquias é esperança na canoagem velocidade (Foto: Divulgação)

O ciclista Henrique Avancini, vice-líder do ranking mundial de mountain bike, manteve-se ativo em Petrópolis (RJ). Os surfistas campeões mundiais Gabriel Medina, em Maresias, e Italo Ferreira, em Baía Formosa (RN), também não tiveram problemas pelo menos para treinar. O mesa-tenista Hugo Calderano, sexto do mundo, se beneficia do fato de morar em um país bem-sucedido no controle da pandemia, a Alemanha, e já compete a todo vapor.

O COB não torna pública sua meta para Tóquio, mas os dirigentes acreditam que ainda é possível superar o recorde de 19 medalhas conquistadas nos Jogos do Rio, em 2016. A entrada de skate, surfe e caratê, esportes em que o Brasil ocupa as primeiras posições em seus rankings, é um dos fatores que aumentam o otimismo. Mesmo diante de todas as incertezas.

Após um ano para muitos "perdido", cada elemento da engrenagem brasileira começa a voltar aos trabalhos, agora para fazer de 2021 o ápice de suas vidas.




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