‘Pensei que fosse morrer’, denuncia ajudante de caminhoneiro espancado por PMs dentro de casa

Ponte Jornalismo
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Por Caê Vasconcelos

Uma ocorrência para resolver uma discussão familiar terminou com a Polícia Militar, do governo de João Doria (PSDB), espancando um ajudante de caminhoneiro dentro da própria casa.

Leonardo Correa Baltazar, 44 anos, foi espancado por policiais militares na rua Santo Expedito, Parque das Nações, em Santo André (Grande SP), na madrugada de 27 de janeiro de 2021, após uma discussão com a sua mãe, que chamou a Polícia Militar.

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Apesar disso, o caso foi registrado no 2º DP de Santo André, pela delegada Nathalie Murcia R. dos Santos, como resistência. Como vítima no documento estava o PM Fabio Luiz Serafim Cavalcante, 33 anos, e como condutor da ocorrência o PM Bruno Silva de Sousa, 31 anos, ambos da 1ª Companhia do 10º Batalhão de Polícia Militar de Santo André.

Os PMs informaram, no termo circunstanciado, que não havia como atuarem no local, mas que Leonardo começou a xingá-los de “vermes, ratos”, e os teria ameaçado de morte, apesar de ser um contra cinco. A Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio acompanha o caso.

À Ponte, Leonardo confirmou que xingou os policiais, mas afirmou que nada justifica o que os policiais fizeram com ele. “Eu tinha bebido e fiquei transtornado, quebrei meu portão e minha mãe foi e trancou o meu cachorro, aí começamos a discutir. Minha mãe chamou a polícia para me acalmar, não para me espancar”, contou Leonardo.

Quando os PMs chegaram, Leonardo disse que não tinha o direito de entrarem em sua casa e se trancou no seu quarto. Pela janela, relatou à Ponte, os policiais jogaram spray de pimenta. “Eu fiquei meio tonto dentro de casa, abri a porta e fui para o quintal. Eu ia trancar o portão e fui malcriado, xinguei eles e eles correram atrás de mim e aconteceu tudo o que aconteceu”.

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Com chutes, pontapés e cacetadas, Leonardo foi espancado pelos policiais. “Eu apanhei tanto que desmaiei, jogaram spray de pimenta no meu cachorro para ele ficar quieto. Eu senti muito medo de morrer. Se tivessem me pegado na rua, tinham me matado. Se eu desacatei, eles tinham que me algemar e levar para a delegacia”.

Depois da agressão, os policiais colocaram Leonardo no camburão da viatura. Ele afirmou que chegou a ser levado para o pronto socorro e para a delegacia, mas que não desceu da viatura em nenhum momento. “Não tive atendimento médico, não tive nada. Aí eu pedi para me levaram para casa já que eu não ia ter atendimento. Com o meu sangue, escrevi perto do estepe da viatura: ‘Leo esteve aqui’ porque eu não sabia o que eles iam fazer comigo”.

Marcas da agressão em Leonardo | Foto: Arquivo pessoal
Marcas da agressão em Leonardo | Foto: Arquivo pessoal

“Me disseram que não iam me levar para casa, iam me levar para a delegacia. Me levaram pro 2º DP e fiquei trancado dentro da viatura mais uma vez, não dei depoimento algum. Fiquei mais ou menos uma hora lá. Eles só abriram a porta da viatura para eu assinar, mas como eu tava machucado assinei tudo errado e estava algemado. Aí eles pegaram e me levaram para casa, me jogaram na porta de casa”.

Só quando foi jogado na porta de casa e a viatura foi embora, Leonardo começou a gritar por ajuda e a sua prima, que é sua vizinha, chamou uma ambulância, que o encaminhou para a Santa Casa de Santo André, onde finalmente foi atendido.

No hospital, recebeu atendimento de outros policiais militares, do mesmo batalhão que os anteriores. “Um policial chegou lá e perguntou o que tinha acontecido, aí falei que tinha me batido e que iria levar isso para frente, porque não foi justo”.

“Aí ele chamou o comandante e me deram todo o suporte. Eram policiais do 10º Batalhão. Aí fui no IML, me levaram até em casa e a Corregedoria foi lá pela manhã, mas eu não conseguia nem andar, meu pé não conseguia nem pisar no chão. Até agora na verdade”.

Sangue na bermuda de Leonardo | Foto: Arquivo pessoal
Sangue na bermuda de Leonardo | Foto: Arquivo pessoal

Como trabalha descarregando caminhões, Leonardo está sem trabalhar desde o ocorrido por conta dos ferimentos e do medo do seu patrão de os policiais fazerem algo com ele. “Eu dependo de mim mesmo pra trabalhar, porque trabalho descarregando carga, e não consigo. Tomei quatro pontos na canela, quatro no cotovelo direito e dois pontos na cabeça”, lamentou.

Outro lado

A reportagem questionou as assessorias da Secretaria da Segurança Pública e da Polícia Militar, além de solicitar entrevista com os PMs Fabio Luiz Serafim Cavalcante e Bruno Silva de Sousa e com a delegada Nathalie Murcia R. dos Santos.

Também enviamos as seguintes perguntas:

1) É procedimento da Polícia Militar de São Paulo agredir pessoas em ocorrências?
2) Por que no boletim de ocorrências feito no 2º DP de Santo André só aparecem os nomes de dois policiais militares se nas imagens é possível ver ao menos cinco PMs?
3) Por que os policiais não prestaram socorro para Leonardo e por que ele não desceu da viatura na delegacia?
4) Como a SSP e a PM enxergam essas agressão?
5) Os PMs envolvidos na ação, que não constam no registro policial, foram identificados? Eles serão afastados?

Como resposta, recebemos a seguinte nota:

“O caso citado pela reportagem foi registrado, por meio de Termo Circunstanciado (TC), pelo 2º Distrito Policial de Santo André e distribuído ao Juizado Especial Criminal (Jecrim) do Fórum de Santo André. No TC consta o termo de declarações prestadas pelo autor.

A Polícia Militar esclarece que os policiais envolvidos na ocorrência foram identificados e afastados do serviço operacional. Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado pela Corregedoria da corporação. A PM não compactua com desvio de conduta por parte de seus agentes”.