Pelé foi astro no futebol, mas coadjuvante no cinema

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No cinema, o atleta do século 20 foi apenas um ator esporádico. Sem comparação, por exemplo, com o nadador Johnny Weissmuller (1904-1984), vencedor de cinco medalhas de ouro olímpicas que reinou nas telas como Tarzan de 1932 a 1948.

Sacrilégio dos sacrilégios: até mesmo um brucutu como Vinnie Jones, volante galês que jogou por Chelsea e Leeds, teve carreira cinematográfica mais reluzente do que Pelé, com destaque para o cult "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" (1998).

De longe, o filme de Pelé mais visto e de maior prestígio foi a aventura de guerra "Fuga para a Vitória" (1981), dirigido por um cineasta americano de primeira linha, John Huston ("O Tesouro de Sierra Madre", "Uma Aventura na África").

Astros internacionais, como Sylvester Stallone, Michael Caine e Max von Sydow, dividiam o elenco com o ex-jogador e outros atores-futebolistas, como o inglês Bobby Moore, o argentino Osvaldo Ardiles e o polonês Kazimierz Deyna.

Ali, era fácil brilhar porque o talento em jogo envolvia a bola, não as artes dramáticas: na trama, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial, um time de prisioneiros dos países aliados enfrenta, na Paris ocupada, um selecionado alemão.

Pelé voltaria a trabalhar com Huston (desta vez como ator) em outra produção internacional, "A Vitória do Mais Fraco" (1983), agora no papel dele mesmo e sem um pingo da repercussão do filme anterior.

No cinema brasileiro, seu maior sucesso foi "Os Trapalhões e o Rei do Futebol" (1986), visto por mais de 3,6 milhões de espectadores nos cinemas e por muitos outros em exibições na TV.

Mais uma vez, as fragilidades de Pelé como ator estavam disfarçadas pelo papel que interpretava, o do repórter esportivo Nascimento, e também pelo fato de que a trupe de Renato Aragão era responsável por manter a bola no ar.

Não houve como maquiar as suas deficiências, no entanto, em "Pedro Mico" (1985), baseado em peça de Antonio Callado, com Pelé no papel principal. O ex-jogador interpretava um malandro carioca que driblava a polícia e a própria quadrilha.

Só não driblou seus limites como ator: o diretor Ipojuca Pontes recorreu a Milton Gonçalves —esse, sim, um craque nas telas— para dublá-lo.

No cinema, as melhores imagens que Pelé deixa são mesmo as que o registram, em dezenas de documentários que cobrem a história do futebol, como um monstro dos campos.

Nesse aspecto, os destaques são "Pelé Eterno" (2004), que reconstitui o célebre gol na rua Javari, considerado o mais bonito do ex-jogador e que não foi registrado por nenhuma câmera, e "Pelé" (2021), da Netflix, focado na conquista das três Copas do Mundo.