Caso Queiroz: Suspeita sobre 2018 explode como bomba-relógio em 2020

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O senador Flavio Bolsonaro deixa a casa de Paulo Marinho após a eleição do pai, em 2018. Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)
O senador Flavio Bolsonaro deixa a casa de Paulo Marinho após a eleição do pai, em 2018. Foto: Mauro Pimentel / AFP (via Getty Images)

No livro “Sobre lutas e lágrimas -- uma biografia de 2018”, o jornalista e escritor Mário Magalhães vaticinou que o ano da eleição de Jair Bolsonaro estava longe de sedimentar as tramas e os traumas ocorridos ao longo daqueles 12 meses. Previa que as consequências dos fatos influenciariam decisivamente o país por tempo prorrogado. Por isso, tão cedo não iria terminar.

Não acabou.

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As razões poderiam ser resumidas em um parágrafo do mesmo livro: “Quando mentira e verdade se confundem, não se reconhece nenhuma delas. O Brasil em transe relativizou até a verdade factual.”

Na mitologia que levou à ascensão de Bolsonaro, não por acaso chamado de “mito”, conta-se que ele correu sozinho, sem dinheiro, sem estrutura e sem as digitais da velha política até o topo do pódio presidencial. Era o primo pobre eleito por incomodar os grandalhões.

Não era.

O que o empresário Paulo Marinho detalhou, em entrevista à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, é que um dos participantes da prova pode ter corrido sob efeito de doping. Enquanto operações policiais batiam às portas dos partidos que o capitão prometia varrer do país, seu estafe, segundo afirmou o ex-aliado, era avisado com antecedência que possíveis malfeitos dele estavam na mira e era melhor tomar providências.

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Segundo Marinho, que na campanha transformou sua mansão, no Rio de Janeiro, em QG da campanha bolsonarista, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018 o então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro foi avisado por um delegado da Polícia Federal que Fabrício Queiroz, velho amigo do clã e à época seu assessor, aparecia em uma investigação sobre um suposto esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa fluminense.

O policial seria simpatizante da candidatura de Bolsonaro.

Além de uma investigação de praxe, por parte da PF, o relato já provoca estresse e uma guerra de versões no momento em que Bolsonaro, dois anos depois, é acusado de interferir no comando da corporação para preservar filhos e amigos de possíveis encrencas policiais. Em 2020, o ano da eleição mostra a cara em versão eterno retorno.

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Paulo Marinho é velho conhecido de Brasília e seus habitantes.

Sua entrevista à Folha é um tiro de canhão no mito bolsonarista. Ele retrata o ex-aliado como um presidente sem capacidade de gerir um país em condições normais e “muito menos no meio de uma loucura como essa que nós estamos vivendo”.

Já durante a campanha, confidenciou Marinho, “a primeira coisa que percebi é que não se tratava de um mito”. “Eu olhava o capitão, com aquele jeito tosco dele, e algumas coisas me chamavam a atenção. Por exemplo: ele era incapaz de agradecer às pessoas. Chegava uma empregada minha, servia a ele um café, um assistente entregava um papel, e ele nunca dizia um abrigado”.

Mais: “as piadas eram sempre homofóbicas. Os asseclas riam, mas não tinha nenhuma graça. E, no final, ele realmente despreza o ser feminino. Tratava todas as mulheres como um ser inferior”.

Até aí, ninguém precisava abrir as portas para o então deputado do baixo clero para perceber.

O enrosco vem na sequência.

Marinho conta que Gustavo Bebianno, ex-ministro alvejado por Bolsonaro e que morreu de infarto no início do ano, tinha um telefone celular por meio do qual interagiu durante toda a campanha com o candidato. Era um “conteúdo imenso”, com “conversas íntimas que provavelmente deviam ter revelações interessantes”, segundo o testemunho. 

O celular ainda existe, garante Marinho. Está com uma pessoa nos EUA. Não deu mais detalhes, mas a pista foi jogada a quem interessar possa.

Quando perguntado sobre um possível interesse de Bolsonaro na Superintendência da PF do Rio, Marinho recordou um episódio, após as eleições, em que Flávio Bolsonaro, de quem é suplente no Senado, pediu indicações de um advogado. A Operação Furna da Onça já estava na rua e alcançado Fabrício Queiroz

Marinho conta ter recebido em casa o senador eleito e o advogado Victor Alves, funcionário de seu gabinete. Segundo o relato, ambos estavam impressionados com o que Queiroz havia feito. Flávio chegou a falar em quebra de confiança.

Queiroz era um ex-PM e motorista da família que movimentou uma quantia de dinheiro incompatível com seus vencimentos. Ele é suspeito de morder parte do salário dos funcionários de Flávio Bolsonaro, inclusive parentes de milicianos empregados no gabinete. O destino de um dos cheques movimentados por ele foi a primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

No encontro, sempre segundo Marinho, o senador eleito relatou que recebeu o aviso de um delegado da PF no Rio avisando da operação durante a eleição. O recado foi dado através de pessoas da confiança do senador, inclusive a irmã de dois milicianos presos em uma outra operação policial. A curiosidade, no meio da entrevista, parece ali jogada com outro adesivo de “a quem interessar possa”.

O resto da história, com a faixa de presidente no peito do capitão, é conhecida. Falta saber quem é o tal delegado que enlameou seu distintivo policial para ajudar um candidato que se esfarela hoje como um mito mal diagramado.

Após a publicação, a família Bolsonaro veio a público tentar desmentir Marinho. Flávio chegou a acusar seu suplemente, hoje aliado de João Doria e pré-candidato à Prefeitura do Rio pelo PSDB, de cobiçar o seu cargo.

De acordo com Marinho, Flávio quebrou a estratégia de defesa articulada por ele e nunca mais se falaram. Tá ok.

Flávio questiona o timing do relato do ex-aliado, mas precisa também contar a sua versão: por que demitir Queiroz e sua filha após tantos anos de serviços prestados (prestados?) bem às vésperas da operação?

E o que exatamente o ex-funcionário quis dizer quando reclamou, em um áudio providencialmente vazado, que o Ministério Público tinha um problema “do tamanho de um cometa” para entender “em nós”. Aliás, nós, quem?

Queiroz submergiu desde então. Quando questionado sobre o paradeiro do ex-amigo, Bolsonaro apelou e botou a mãe no meio.

Em meio a tantas versões, a data da demissão de Queiroz é tão factual quanto as mudanças que Bolsonaro promoveu no comando da PF antes de negar que fez o que falou que faria, como alerta agora outro ex-aliado nomeado inimigo, Sergio Moro -- o mesmo que não se atentou para o calendário eleitoral ao divulgar a delação de Antonio Palocci e aceitar trabalhar para o capitão pouco depois.

Parece óbvio que, se a operação policial não tivesse atentado para o mesmo cronograma, o resultado da corrida presidencial poderia ser outro. 

Antes de acreditarem em uma campanha que prometia ser implacável contra a corrupção e “tudo isso que está aí”, muitos dos eleitores saberiam, antes e não depois da votação, que os Bolsonaro mantiveram por anos em sua órbita um funcionário “tóxico” -- palavra do ano em 2018, como lembra Mário Magalhães em seu livro-biografia.

De fato, em 2018 mentira e verdade se confundiram a ponto de ninguém reconhecer mais o que era o que em meio a correntes com mamadeira de piroca e uma longa campanha moralizante fincada no combate a um inexistente kit gay. Quem ajudou a turbinar a trapaça hoje teme CPIs e inquéritos do Supremo relacionados a fake news.

A trapaça, ao que parece, segue operante. E quem botou as digitais nela começa a dar sua versão dos fatos -- ou fakes.

Em 2020, as pernas curtas dessa história já não conseguem quebrar a ressaca da onda que arrasta um país inteiro às tramas e aos traumas mal sedimentados de 2018.


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