Fala de Guedes exemplifica a mentalidade escravocrata da elite e classe média brasileiras, diz economista

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(Foto: Mauro Pimentel /AFP via Getty Images)
(Foto: Mauro Pimentel /AFP via Getty Images)

Texto / Simone Freire | Imagem / Divulgação | Edição / Pedro Borges

O dólar fechou esta quarta-feira (12) avaliado em R$ 4,35, o quarto recorde consecutivo. Questionado sobre a situação, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o câmbio a R$ 1,80 permitia que empregadas domésticas fossem à Disney, parque de diversões temático sediado nos Estados Unidos. “Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada. Mas espera aí? Espera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai ali passear nas praias do Nordeste”, declarou.  

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Para a mestra em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e proprietária da Consultoria Reconomizar, Regiane Vieira Wochler, a fala do ministro demonstra profundo desrespeito à classe de trabalhadoras domésticas. “Ela exemplifica a mentalidade elitista e escravocrata que permeia a elite e classe média brasileiras”, diz. 

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Segundo Vieira, a pequena ascensão social observada de 2002 a 2014, que permitiu a muitas famílias usarem avião pela primeira vez na vida, virou “festa danada” na visão do ministro.

Embora a desigualdade esteja crescente no país, com a crise econômica, alto desemprego e informalidade, para a economista, o que parece incomodar o ministro é a presença de pobres e negros em espaços historicamente ocupados por famílias de mais alta renda, como aeroportos, universidades, entre outros. 

“Ao proferir tal discurso, fica evidente a real preocupação da elite que está representada no poder: manter o status quo inalterado, com pobres trabalhadores em seu lugar de submissão e miséria e não viajando para lugares ‘reservados’ aos privilegiados da nação”, critica. 

Um estudo feito em parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento, e a ONU Mulheres, braço da Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que em 2015, a população geral dos profissionais domésticos cresceu, chegando a 6,2 milhões, sendo 5,7 milhões de mulheres. Dessas, 3,7 milhões eram pretas e pardas e 2 milhões eram brancas. 

“A escolha pelo ataque às domésticas evidencia aquilo que permeia o pensamento elitista: preconceito racial e de classe. Racial dado o histórico de escravidão que sempre utilizou as mulheres negras para atividades domésticas e os resquícios disso estão vivos na memória social, explicam a situação de pobreza de famílias negras e fundamentam o racismo estrutural da sociedade brasileira”, diz Vieira.

Ministro do governo de Jair Bolsonaro, Guedes vem consolidando uma agenda neoliberal no país: mudanças nas legislações trabalhista e previdenciária, que reduzem direitos dos trabalhadores e cidadãos, e menos investimento em projetos sociais (como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida), além do desemprego em alta e o mercado de trabalho informal em alta. 

Esse é um cenário, segundo Vieira, que acentua a desigualdade no país e traz maior vulnerabilidade aos mais pobres e atinge em cheio as famílias negras, já que, segundo dados do IBGE, entre os pobres, 74% são pretos ou pardos. 

“Segundo a OIT, a taxa de desemprego no Brasil deve encerrar 2020 em torno de 12%, ou seja, infelizmente, com a continuidade da atual trajetória da economia brasileira não temos expectativa de volta a um cenário de desemprego mais baixo e nem de voltar ao patamar próximo de 7% como visto em 2014. Com alto desemprego, crescimento modesto e menos acesso a programas sociais, os mais pobres devem continuar a ser duramente penalizados, explica.

Para entender o que, de fato, o dólar alto ou baixo significa na vida da população, Vieira explica que as influências da moeda estrangeira acontecem de forma indireta. Ela explica que, apesar das compras do dia a dia acontecerem em reais dentro do Brasil, muitos produtos essenciais que compõem a cesta básica de alimentos e serviços dos brasileiros têm seus preços vinculados ao dólar e sofrem o impacto direto do aumento da cotação da moeda norte-americana, pois têm em sua composição insumos importados. 

Quando o preço do dólar sobe, há uma desvalorização do real e, com isso, conseguimos comprar menos mercadorias importadas com a mesma quantidade de reais. “Um exemplo disso é o trigo, que é o principal componente do pão francês. O Brasil importa trigo de outros países e, portanto, sua cotação se dá em dólares. Desta forma, quando o dólar sobe, o preço da farinha de trigo sobe também e isso terá impacto no preço do pão no Brasil”, explica.

Isso acontece também com produtos que são chamados de commodities, que são cotados no mercado internacional em dólar. “Como a inflação tem impacto mais acentuado nas famílias de menores rendas, onde está a maior parte da população preta, o dólar mais alto pode levar ao aumento do custo de vida”, diz.

“O lado positivo de uma desvalorização cambial está no potencial incentivo às exportações, pois os produtos brasileiros tendem a se tornam mais competitivos na conversão de seus preços em dólar. Isso pode então gerar aumento de vendas dos produtos brasileiros no exterior e, para atender à demanda, pode haver aumento no número de vagas de trabalho no Brasil”, explica a economista.

Em contrapartida, ela explica, caso os produtores optem por não aumentar a produção (seja por questões estratégicas ou impossibilidades técnicas), e mesmo assim passem a direcionar mais produtos para exportação para aproveitar a oportunidade de obtenção de maiores lucros, isso pode reduzir mesmo que momentaneamente a oferta de produtos no mercado interno e gerar desabastecimento e consequente aumento de preços, como vimos recentemente com a carne.

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