Parataekwondo brasileiro supera perrengues e mira pódio em Tóquio

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Alan Nascimento durante o Parapan-Americano (Divulgação)
Alan Nascimento durante o Parapan-Americano (Divulgação)

Por Alessandro Lucchetti

Não adianta procurar a sala de parataekwondo no bem equipado Centro Paralímpico Brasileiro. Inaugurado em 2016, foi projetado antes que a modalidade fosse incluída na programação dos Jogos Paralímpicos de Tóquio. É numa sala de judô emprestada que o técnico Alan Nascimento prepara boa parte da elite nacional da modalidade.

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Alan trabalha como técnico da seleção brasileira voluntariamente desde 2017. A Confederação Brasileira de Taekwondo, devido a problemas de ordem legal, está impedida de receber recursos federais. O único pagamento que pinga em seu orçamento, referente a esse trabalho, é o das diárias às quais faz jus quando viaja para tomar parte de competições no exterior. Antes de 2017, não havia trabalho organizado da CBTKD no esporte. “O antigo presidente, Carlos Fernandes, não tinha interesse”, recorda Alan, referindo-se ao dirigente que foi acusado dos crimes de peculato, associação criminosa e fraude em licitações e documentos. Foi afastado da entidade em novembro de 2016. Júnior Maciel, o novo presidente, diz que uma diária gira em torno de US$ 80.

Alan estima que pouco mais de 3 mil brasileiros pratiquem o parataekwondo, mas uma fração reduzida é elegível para ser enquadrada nas divisões de classe para competir na modalidade kiorugui (combate). Podem participar, por exemplo, atletas com amputação do cotovelo até a articulação da mão. No Campeonato Brasileiro de 2018, apenas 24 atletas foram inscritos. No ano seguinte, houve um salto: 109. Mas os números ainda são ínfimos. Ainda não há sequer campeonatos estaduais desse esporte, apenas Opens regionais.

Diante desse quadro, mesmo o mais exigente torcedor aceitaria se o desempenho brasileiro nas principais competições internacionais fosse modesto. Mas não é o caso. O Brasil concluiu sua participação nos Jogos Parapan-Americanos de Lima no topo do quadro de medalhas dessa modalidade, com duas de ouro, igual número de pratas e um bronze, ao lado do México. Se forem compilados resultados das outras competições continentais, no entanto, o Brasil se isola na condição de principal potência do esporte nesta parte do mundo. No Mundial de Antalya, na Turquia, o Brasil ficou em sexto lugar no quadro de medalhas, com um ouro e um bronze. Os países que mais subiram ao pódio foram Rússia (4, 5, 5), Turquia (4, 2, 5), Sérvia (2, 3, 2), Mongólia (1, 1, 0) e Ucrânia (1, 0, 2).

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Débora Menezes, campeã mundial em Antalya, explica de maneira passional esse sucesso construído em pouco tempo, com estrutura ainda deixando a desejar. “A gente consegue isso por causa do amor. Gostamos demais do que fazemos. Aconteceu tudo rapidamente, a Confederação abraçou o parataekwondo, em conjunto com o Comitê Paralímpico Brasileiro. Começamos a estruturar o trabalho e construímos esses resultados juntos”, diz a lutadora.

Hoje orgulhosa beneficiária dos programas Bolsa Atleta e Bolsa Pódio, Débora se acostumou a passar perrengues. Formada em Educação Física pela Uninove, trabalhou com recreação e como garçonete para pagar as mensalidades da faculdade até se graduar. Mas como a portadora de malformação congênita no braço direito fazia para carregar bandejas, pratos, copos e garrafas? Depois de rir com vontade, a vice-campeã do Parapan de Lima responde com simplicidade. “Apoiava a bandeja no coto e carregava com o braço esquerdo. Sempre procurei fazer tudo: servir as mesas, enxugar louça, varrer escada. Tinha que dar um jeito de pagar a faculdade. E nunca quebrei um copo trabalhando, apenas em casa”, frisa.

O fecundo trabalho desenvolvido naquela sala de judô, situada perto das fontes do riacho do Ipiranga, já chamou a atenção de atletas estrangeiros. No dia em que a reportagem visitou o Centro Paralímpico, um lutador barbudo, com as pontas dos longos cabelos pintadas de azul clarinho, a cor do mar do Caribe, estava bebendo dos conhecimentos de Alan. Elliott Loonstra, lutador de Aruba, também passou pelos seus perrengues, como diz Débora. Com dificuldades para encontrar emprego, teve como única alternativa o trabalho no negócio do pai, uma empresa especializada em mergulhos. Ele abastecia de oxigênio os cilindros, também valendo-se do coto do braço direito para apoio. O sonho do caribenho de visual hippie é ir a Tóquio. No Parapan de Lima ele já fez história – teve o privilégio de carregar a bandeira da ilha na cerimônia de abertura e também na de encerramento do Parapan de Lima. Não se trata exatamente de um superatleta – é que Aruba enviou ao Peru delegação de um homem só.

Depois de levar uma senhora pancada na perna direita durante o treino, Elliott ficou uns cinco minutos deitado no chão, gemendo, antes de puxar um ar, endireitar-se e ouvir as perguntas. “Alan é muito bom treinador. É rígido e compreensivo ao mesmo tempo. Às vezes é agressivo, mas nunca furioso. Ele sabe como nos puxar até o limite, como nos estimular”.

Educado em escolas americanas, Elliott não é fluente em papiamento, que é um dos dois idiomas oficiais de Aruba, ao lado do holandês. Com forte base na língua portuguesa, falada pelos escravos provenientes de Cabo Verde e do Nordeste brasileiro que povoaram a ilha, o papiamento soa familiar ao brasileiro muitas vezes. Cumprimenta-se com “bon dia”, “bon tardi” e “bon nochi”, por exemplo. Habituado a esses sons, Elliott entende muitas vezes quais são os assuntos abordados em noticiários quando assiste à TV em São Paulo.

De alguma forma, o parataekwondo conseguiu reunir pessoas de origens muito distintas. Alan, por exemplo, era um garoto que começou a praticar lutas inspirado no filme Karatê Kid, e chegou a trabalhar como soldado da Polícia Militar, no patrulhamento a pé, antes de se firmar como treinador. Contratado pelo Insituto Olga Kos de Inclusão Cultural, viu-se obrigado a estudar o parataekwondo. “Na Faculdade de Educação Física, não me lembro de ter assistido a nenhuma aula sobre paradesporto. Depois tive que correr atrás”.

A julgar pelos resultados da seleção, Alan aprendeu bem a ser treinador de parataekwondo. Sem ter conseguido se realizar como atleta, está perto de alcançar uma meta como treinador: participar dos Jogos Paralímpicos. Nos tempos em que lutava, seu resultado mais perto de ser classificado como expressivo foi o de vice-campeão dos obscuros Jogos Internacionais de Polícias e Bombeiros. A 17ª edição, aquela em que Alan participou, foi realizada em São Paulo.

“Nos tempos em que era atleta, sempre tive que conciliar treino e trabalho, não era fácil”, diz Alan, que trabalhou como office-boy antes de ingressar na PM. “Agora estou bem perto de ir a Tóquio como treinador. Alcançar essa conquista é a realização de um sonho que não tem preço”.

Débora conquistou vaga em Tóquio graças ao ranking paralímpico da Federação Internacional – é a segunda colocada na categoria da classe K44 (amputados de braço). Duas semanas atrás, a CBTkd divulgou os nomes dos três atletas que disputarão o Qualificatório Paralímpico Pan-Americano, na Costa Rica, no início de março.  Silvana Mayara Cardoso, campeã do Parapan de Lima, será a representante da categoria até 58kg. Nathan Torquato, do Santos Tkd Team, também campeão no Parapan, representa o Brasil na até 61kg. E o baiano Bruno Rodrigues Mota, bronze no Pan-Americano Aberto, persegue a vaga na até 75 kg – todos na K44. 

“Acho que temos tudo para brigar por uma ou duas medalhas na Paralimpíada de Tóquio. Com a coordenação do Rodrigo Ferla e o trabalho do treinador Alan, temos grandes chances de brilhar”, diz o presidente da CBTkd, Alberto Maciel Júnior.

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