Paralímpico do esqui na neve usa criatividade e treina com saco de arroz na quarentena

Fernando Del Carlo
·6 minuto de leitura
SAO CAETANO DO SUL, BRAZIL - AUGUST 26: Para Athlete Aline Rocha exercises with the help of her husband and trainer Fernando Orso during a training session at her house on August 26, 2020 in Sao Paulo, Brazil. When she was 15, Aline suffered a car accident while traveling with family members and had a spinal cord injury, losing her leg movement. After the accident, Aline started to practice wheelchair racing and was then introduced to cross-country skiing. Aline was the first female athlete in Brazil to participate in a Winter Paralympics. Currently, she holds records in all distances of Paralympic athletics, being the best Brazilian time in four different distances (100m, 800m, 1,500m and 5,000m) (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
Aline Rocha durante treino em casa com o auxílio do esposo e técnico Fernando Orso (Buda Mendes/Getty Images)

Imagine atletas paralímpicos passando por experiência com superação redobrada. Nascidos em um país tropical (abençoado por Deus) como o Brasil, vão ter de disputar modalidades esportivas na neve. Mas não é só. Prepara-se visando competições em condições climáticas adversas em relação às da nação de origem. E ainda encarar dificuldades pontuais durante tempos difíceis na pandemia do novo coronavírus. Este é o cenário do recente desafio da paranaense de Pinhão Aline Rocha, de 29 anos, e do rondoniense de Cerejeiras Cristian Ribera, de 17 anos.

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Rocha e Ribera são atletas do esqui cross country. A diversificada categoria abrange aqueles das classes com deficiência visual, a sitting para os que competem sentados em um sit-ski e a standing aos que disputam em pé.

Ambos competem na classe (LW11), a sitting. É aberta à atletas com deficiências físicas (paraplegia com equilíbrio sentado funcional). No caso deles o sit-ski, que é cadeira equipada com par de esquis. Além destes detalhes, a CBDN descreve outra opção de categoria a portadores de deficiências, a Parasnowboard. Incansáveis, Rocha e Ribera participam ainda da T54, classe do atletismo em cadeira de rodas.

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Por esta apresentação, não é a toa que a trajetória deles apresenta antecedentes de extrema resiliência e êxito. Aline teve de superar um acidente de carro que a levou à paraplegia aos 15 anos. Não gostava nem um pouco de esporte. Deixava as aulas de Educação Física de lado, aliás, depois chegou até cursar por algum tempo faculdade na área. Mas foi na reabilitação esportiva, quando conheceu aquele que seria seu marido, ganhou embalo que faltava para ingressar firme no meio. E a felicidade dele se tornar seu treinador.

Já Cristian, que nasceu com artrogripose congênita, doença rara que atinge as articulações, já enfrentou 21 cirurgias. Foi sempre incentivado pela mãe, dona Solange, que o trouxe à São Paulo para cuidar de sua saúde.

Novo planejamento

Apesar dos Jogos Paralímpicos de Inverno estarem agendados para Pequim (China) apenas em 2022, os paratletas tiveram de buscar opções para trabalhar em suas casas, até porque o calendário previa competições internacionais de Inverno apenas em dezembro deste ano. No entanto, as datas foram adiadas para 2021 por conta dos protocolos de saúde prevenindo da Covid-19. A sequência reúne Copa do Mundo e mundiais entre janeiro e abril, distribuídos entre Suécia, Eslovênia, Noruega e Japão. Mas é algo incerto, segundo Cristian Ribera.

Por outro lado, Aline se prepara também para as qualificatórias do atletismo à Paralimpíada de Tóquio, provavelmente entre março e maio de 2021. O megaevento japonês será em agosto.

Segundo ela, ela e seu técnico, que é da seleção, Fernando Orso, além de outros colegas planejaram lista de atividades possíveis para serem desenvolvidas nas residências com adaptações. ”Usamos sistemas de rolos para treinamento de corridas em cadeiras de rodas. O que permitiu manter o condicionamento físico no apartamento”. E estender aos outros alinhados ao objetivo comum com exercícios possíveis de serem executados.

“Após 118 dias de isolamento, iniciamos as sessões de treinamento em asfalto”, explica. Ela mora em São Caetano, no ABC paulista, onde treinou após a quarentena em um bairro percorrendo asfalto.

Há o rollerski, que é um equipamento de rodinhas que possibilita os treinos no asfalto, e o mountainboard (skate de montanha), que permite a prática do esporte em estrada de terra e grama.

PYEONGCHANG-GUN, SOUTH KOREA - MARCH 14: Cristian Ribera of Brazil competes in the Men's Cross Country 1.1km Sprint, Sitting event at Alpensia Biathlon Centre during day five of the PyeongChang 2018 Paralympic Games on March 14, 2018 in Pyeongchang-gun, South Korea. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
Cristian Ribera durante prova na Paralimpíada de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em 2018 (Buda Mendes/Getty Images)

Já o jovem Cristian ficou isolado por três meses em sua casa em Jundiaí, no interior paulista. Lá ele relembra a luta emocional que precisou ter para vencer. “Fiquei três meses preso”. Dividiu-se entre estudar inglês e se reforçar na forma física. Ribera lançou mão da criatividade. “Na maioria eram treinos com elástico para simular a técnica”. Alguns como se fosse de "força". Utilizava várias bolsas que tinha. “E coloquei ainda sacos de arroz como peso, garrafas de água, materiais de limpeza, rodo e vassoura, descreve em detalhes a adoção do material inusitado”.

O gênero alimentício, que ganhou as manchetes na imprensa pelo aumento de preço nos supermercados, foi duplamente aliado do atleta provendo sua alimentação. Para sua felicidade é acompanhado no CBP (Comitê Paralímpico Brasileiro) pela psicóloga Cristina Nunes e a nutricionista Barbara Pinheiro. Com a primeira, aliviou a tensão mental nos vitais contatos online.

Ele exaltou a dificuldade ao tentar tirar o seu máximo de esforço em alguns instantes. O resultado de agora é olhar para o futuro, algo que pode fazer bastante diferença. “A mentalidade continua para ser campeão. Não posso fazer corpo mole”, disse o paratleta que sobrecarregou ainda o trabalho na parte esportiva com treino puxado três vezes por semana. “Usava o rollerski em deslocamento entre 15 a 20 quilômetros diários, exigindo bastante nos percursos”.

Inspiração e ranking

Antes de se enveredar na modalidade de neve, Aline Rocha já havia disputado a Paralimpíada de Verão no Rio de Janeiro em 2016. Fez provas de 1500 metros, 5000 metros e maratona. Seria destaque ao se tornar a primeira brasileira a competir nos Jogos de Inverno, em PyeongChang (Coréia do Sul), em 2018. Apesar de se espelhar em atletas nacionais, escolheu como inspiração Tatyana McFadden, atleta e esquiadora paralímpica russa, naturalizada norte-americana. Com 31 anos, é detentora de 17 medalhas paralímpicas entre as quais de atletismo e esqui cross-country,

Ainda sobre estrutura de treino e suas exigências, Aline descreve o cuidado com limitações orçamentárias. “Não é interessante investir em viagens para campos de treinamento onde o local com neve está derretendo”, afirmou. Condições específicas que necessitam de ajustes técnicos.

Ela aponta que o Brasil é carente de locais para treinar. “Há alguns espaços com neve artificial voltada ao turismo e não atende às características da modalidade. Esse é o ponto que precisamos avançar”, disse. Por isso, a importância da conquista da primeira medalha que poderá acontecer em Pequim (2022) ou 2026. Fator determinante no processo de avanços. Ela exalta a excelência do Centro Paralimpico localizado na rodovia dos Imigrantes, na capital paulista como um dos melhores do mundo. Mas a visibilidade virá no sucesso em competições no Esqui Cross Country. Incentivando a criação de espaço semelhante para a modalidade.

Se depender de Cristian Ribera, o Brasil tem grandes chances de obter sucesso no paraski. No mês de julho, o Comitê Paralímpico Internacional (IPC, sigla em inglês) divulgou a atualização do ranking mundial de esqui cross-country e Cristian aparece na quinta colocação, com 39.68 pontos. Foram várias medalhas conquistadas. Os primeiros quatro colocados no ranking são de países com tradição em esportes de neve, casos de Rússia e EUA.

Ser top cinco só foi possível graças aos técnicos Fábio Ribera (seu irmão), Alexandre Oliveira e Thais Saito. Tem sido uma trajetória que parece surpreender, mas Ribera é desportista desde os quatro anos. Começou na natação, fez dança, capoeira. Ele foca nos treinos e retira do adversário e primeiro do mundo, o russo Ivan Golubkov, de 24 anos, o exemplo ao seu rumo. É um multicampeão. Já Cristian foi precoce nos resultados. Com apenas 15 anos chegou em sexto nos Jogos Paralímpicos de Inverno na Coréia em 2018, melhor marca conquistada pelo Brasil na competição. Feito de estreia na prova de 15 quilômetros. E também melhor sul-americano no evento.

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