Paraisópolis: da seletividade midiática à resistência negra, periférica e favelada

Tem preto, pobre e periférico morrendo a cada edição de um pancadão na cidade
Tem preto, pobre e periférico morrendo a cada edição de um pancadão na cidade

O funk é uma cultura de expressão preta, periférica e favelada. Ritmo da realidade, o papo reto de quem resiste todos os dias. Sim, os jovens funkeiros, os chavosos, resistem diariamente... e não só porque insistem em perpetuar um ritmo de música discriminada, mas por continuarem respirando, afinal, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.

Como um veículo de imprensa negra, noticiamos estes números cotidianamente. Números que remetem à dor, à violência, à negligência, à perda que, infelizmente, fazem parte da nossa rotina. E o caso de Paraisópolis não é diferente. Nove vidas entram para a conta do Estado genocida brasileiro. Desta vez, jovens entre 14 e 23 anos, cujo objetivo ao saírem de suas casas era aproveitar a diversão no fim de semana.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Quando frisamos o número de mortos, não estamos apenas referenciando dados. Não estamos evidenciando números para colaborar com o discurso de ‘mi mi mi’, como diriam alguns conservadores do país. Estamos falando de vidas. Isso significa que nove mães não poderão dormir depois de abraçarem seus filhos, significa que nove famílias, nas suas diferentes estruturas, terão um a menos na ceia de natal deste ano. 

E estas ausências se deram, não por uma fatalidade infeliz da vida, mas por uma ação imprudente de uma instituição dirigida pelo governador João Doria (PSDB), cujo discurso dá à polícia a permissão para “atirar para matar”. E o modus operandi da necropolítica se repete a cada estado do país, se somando à política racista e violenta do governo federal de Jair Bolsonaro que tem colocado em xeque as instituições políticas e jurídicas do estado democrático de direito. 

Tem preto, pobre e periférico morrendo a cada edição de um pancadão na cidade. Pra quem está nas quebradas, os murmurinhos de “ontem mataram um”, “semana passada mataram dois lá no baile”, são rotineiros. Os bailes funk têm uma série de problemas. Não há como negar os transtornos à vizinhança por conta do barulho e lixo, o fácil e rápido acesso a bebidas alcoólicas e drogas para menores de idade. 

Mas o fato é que não se pode culpar e matar a juventude por procurar e promover alternativas. Se a regra valesse para todos, por que não agir da mesma forma em regiões centrais da cidade? Vale ler o editorial do Periferia em Movimento, que fala mais sobre isso. Também é fato que as mortes e violências crescem na medida em que o Estado nega investir em educação e políticas públicas que cultivem acesso à cultura (à nossa cultura, preta e periférica, principalmente). A Mural também fez um editorial importante pontuando que “se divertir não pode ser risco de morte nas periferias”. Vale a leitura!

Tragédias como a de Paraisópolis também caem na seletividade midiática pelo aproveitamento do apelo emocional. Não que casos como estes não devam ser denunciados. Mas a escolha do que vale ou não ser denunciado deve ser criticado. 

Cada vida tirada pelo Estado merece igual atenção da mídia. Toda vida importa! Não podemos levar a sério uma imprensa que negligencia o assassinato de um garoto na periferia da Grande São Paulo para evidenciar o acidente fatal que tirou a vida de um apresentador que nem no país morava mais, e cuja carreira se baseou em um programa racista e machista, como foram os casos do assassinato do menino Lucas, em Santo André, e da morte de Gugu Liberato. 

Em São Paulo, desta vez, cada canto da cidade está de luto: Zona Sul, Norte, Leste e Oeste. Gustavo Cruz Xavier (14), Marcos Paulo Oliveira Santos (16), Denys Henrique Quirino da Silva (16), Dennys Guilherme dos Santos Franca (16), Luara Victoria de Oliveira (18), Gabriel Rogério de Moraes (20), Eduardo Silva (21), Bruno Gabriel dos Santos (22), Mateus dos Santos Costa (23) vinham de cantos diferentes da cidade e se reuniram a mais de cinco mil pessoas neste sábado, 1 de dezembro. Há anos os chavosos se encontram alí, no Baile da DZ7, em Paraisópolis, símbolo de como as quebradas subvertem a ausência de políticas públicas positivas: “se o Estado não dá, deixa que a gente resolve”. 

E sempre foi assim na história da resistência negra no Brasil. Na herança de Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, Luiza Mahin, Sepe Tiarajú… Sangue e suor de muitos negros e indígenas para, hoje, andarmos pelos becos, vielas, quebradas e favelas e vermos a cara preta, o cabelo black, a trança, enfim, a autoestima do preto e da preta voltando ao seu vigor. Trabalho árduo, de formiga, mas tá lá. 

Seja na capoeira, no samba, no jongo, na universidade ou na poesia do slam e sarau, queremos e estamos falando dos nossos, insistindo em rememorar e cutucar a história das nossas ancestralidades afro ameríndias. Que o funk, nossa expressão cultural, continue resistindo ao genocídio, seja ele físico, intelectual ou psicológico. Porque mesmo sem discutir se somos de esquerda ou de direita, antes de tudo, somos negros. Estamos fazendo Palmares de novo!

Mobilizações de denúncia e repúdio ao caso de Paraisópolis estão sendo convocadas. Acompanhe no Alma Preta.

Leia também