Para cientistas negras, sede da Nasa passar a ter o nome de sua primeira engenheira negra representa avanço

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Mary W. Jackson dará nome ao edifício da agência espacial norte-americana.
Mary W. Jackson dará nome ao edifício da agência espacial norte-americana.

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões

A sede da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, passará a ser chamada de Edifício Mary W. Jackson, em homenagem à primeira engenheira negra da instituição e uma cientista importante para o órgão. “Ela foi uma cientista, uma humanitária, uma esposa e mãe que pavimentou o caminho para milhares de outros seguirem, não só na Nasa, mas por essa nação”, disse Carolyn Lewis, filha de Mary Jackson.

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A engenheira é retratada no filme “Estrelas além do tempo”, de 2016. Ela se formou em 1942 na universidade de Hampton, onde estudou matemática e física. Em 1951, começou a trabalhar no órgão governamental que mais tarde se tornaria a Nasa.

A cientista foi uma das responsáveis por um túnel de alta pressão construído na agência e se tornou a primeira engenheira negra do órgão, em 1958. Enquanto trabalhava, ela pediu para voltar a estudar, e fez escola noturna na mesma época em que dava expediente durante o dia. Em 1985, Jackson se aposentou. Ela morreu em 2005.

No ano passado, a Nasa já havia nomeado um outro prédio com o nome de uma cientista que trabalhou na instituição, Katherine Johnson, também retratada em “Estrelas além do tempo”.

A engenheira civil Steffani Baroni Siman, de 28 anos, recém formada pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), busca sua primeira colocação profissional na área e afirma que a representatividade da homenagem é importante, pois inspira novas mulheres negras a traçarem o mesmo caminho. “Ela começou a carreira num momento em que era ainda mais complicada do que hoje. Ter esse homenagem nesse momento de manifestações abre mais espaço para o diálogo e é importante garantir essa mudança efetiva”, considera. Na faculdade, Steffani não conheceu a história de mulheres negras que tenham se destacado no Brasil na sua área de atuação. “Mesmo na minha turma, não tinham outras mulheres negras, nem mesmo professoras negras”, ressalta. 

Já Helen Cristina Caetano, 28 anos, que tem licenciatura de Matemática pela Unesp, considera que Mary Jackson representa todas as mulheres negras. “A academia é uma forma de ascensão social e a possibilidade de ter um cargo melhor. Essa representatividade é importante, pois coloca as pessoas negras não como cota, mas como um destaque”, considera. 

Filha de uma empregada doméstica, que foi mãe solteira, Helen estudou em escola pública no Ensino Fundamental e Médio. A profissional lembra que demorou três anos para ingressar no mercado de trabalho. “Na época em que Mary Jackson atuou isso era ainda mais difícil. Havia uma segregação racial nos Estados Unidos e ela não podia usar o mesmo banheiro que as pessoas brancas”, ressalta, afirmando que ela abriu caminho para que muitas mulheres trilhassem o mesmo futuro.

Helen recorda que atualmente o mercado de trabalho ainda é cruel com a mulher negra. “A presença de uma mulher incomoda. A de uma mulher negra e retinta causa ainda mais incômodo e precisa comprovar a todo momento sua capacidade de estar naquele espaço. Não é uma posição vista naturalmente”, ressalta. No Brasil, ela cita a cientista Joana D'Arc Félix de Souza, que é química e professora e atua na Escola Técnica Estadual Prof. Carmelino Corrêa Júnior, em Franca. “Ela também poderia ser homenageada, assim como tantos outras pessoas negras como Machado de Assis. Estamos neste momento de revisar quem recebe esse reconhecimento de virar estátua, monumentos e nada mais justo do que reconhecer as pessoas negras que foram historicamente apagadas de suas áreas de atuação”, considera a professora de Matemática.

Outras homenageadas

Desde o começo de 2020, ano que marca o centenário da conquista do voto feminino nos Estados Unidos, a famosa nota de 20 dólares ganhou o rosto de uma das maiores figuras da luta contra a escravidão e o racismo nos EUA - Harriet Tubman, mulher negra que fugiu da escravidão e passou a comandar, do sul para o norte, a fuga de negros escravizados por meio das rotas conhecidas como Underground Railway, e posteriormente, se tornou uma sufragista de destaque. 

Em um contexto de manifestações históricas contra o racismo, empresas e instituições têm feito uma reflexão sobre o local concedido à população negra na sociedade. No Brasil, ainda não houve revisão de estátuas, nem novas homenagens à pessoas negras. Em São Paulo, por exemplo, a única estátua que homenageia uma mulher negra é a Estátua à Mãe Preta, que fica no Largo Paissandu, no centro, e retrata uma mulher negra amamentando uma criança branca. 

O monumento é considerado controverso pelo movimento negro, já que retrata a mulher negra no papel de subserviência, mas por ser a única foi ressignificado e é o local de encerramento da Marcha das Mulheres Negras, que ocorre a cada 25 de julho e do desfile do bloco afro Ilú Oba de Min, composto apenas por mulheres, na sexta-feira de carnaval.

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