Para banqueiros, Haddad assume discurso ‘genérico’, sem ‘senso de urgência’

Fernando Haddad, atualmente o nome mais cotado para ser o ministro da Fazenda do futuro governo, enfrentou seu primeiro teste ontem, ao representar o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva em evento de fim de ano da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), em São Paulo. Os presentes, no entanto, consideraram suas declarações genéricas e avaliam que faltou “senso de urgência” em relação aos problemas de curto prazo, especialmente fiscais, do país.

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Haddad foi escalado por Lula, que se recupera de uma cirurgia, para representá-lo no evento da Febraban. Foi a primeira vez que um emissário do presidente se encontrou com o mercado após a eleição. Haddad disse que havia sido convidado pessoalmente para o evento, havia recusado, mas acabou sendo escalado por Lula. E ouviu do presidente da Febraban, Isaac Sidney, pedido de previsibilidade para o país.

A reação do mercado foi de frustração: o Ibovespa, principal índice da B3, fechou em queda de 2,55%, aos 108.977 pontos. Já o dólar comercial subiu 1,89%, a R$ 5,4103 — a maior cotação desde 22 de julho (R$ 5,4977).

Defesa de reforma

Haddad afirmou que o governo Lula dará prioridade à reforma tributária já no primeiro ano, com foco em impostos indiretos, mas em seguida a renda e o patrimônio estarão na pauta. Também falou da necessidade de baratear o crédito e Imposto de Renda sobre fortunas.

— Estamos há duas décadas tentando fazer esse trabalho (reforma tributária). Duas propostas amadureceram em relação a impostos indiretos. Lula vai dar prioridade à aprovação em relação aos tributos indiretos, mas depois pretende focar em renda e patrimônio para completar o ciclo — disse Haddad.

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Ele ressaltou ainda que Lula nunca opôs responsabilidade fiscal e social. E assegurou que o presidente eleito sempre recorrerá ao diálogo:

— Lula é um democrata, nasceu numa mesa de negociação. Está no papel dele defender os interesses para os quais foi eleito. Mas não fará nada que não passe pelos poderes constituídos. Vai dialogar com o Congresso, a sociedade, em busca do traço fino que vai levar à prosperidade.

Haddad foi aplaudido no final, mas sem entusiasmo.

— Foi uma fala genérica, sem qualquer sinalização fiscal. Falta senso de urgência — disse um executivo presente.

Para um ex-diretor do Banco Central, faltou Haddad falar de responsabilidade fiscal:

— O que existe hoje é uma proposta que traz um gasto de R$ 200 bilhões e que não diz de onde virão esses recursos. Era necessário ser bastante claro sobre isso.

Um banqueiro presente no almoço considerou o discurso “fraco e sem foco”:

— Todo mundo está preocupado se o país vai explodir e ele vende o longo prazo. Alguém avisa que, para chegar no longo prazo, temos de enfrentar o curto prazo.

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Um dos principais sócios de um banco da Faria Lima classificou as declarações de Haddad de “superficiais”:

— O Haddad é bem intencionado, ninguém discorda. Só que o que ele disse foi muito superficial. Se ele atrair o cirurgião-chefe certo e uma equipe médica de primeira, o paciente vai se recuperar. Se ficar com ele e com a equipe do PT, o paciente vai ficar refém de uma quimioterapia cada vez maior. Estou falando de taxa de juros, um remédio que derruba, mas que é vital.

Já o presidente de uma gestora internacional no Brasil resumiu:

— Foi uma “fala chuchu”. Não trouxe nada de concreto em termos de propostas. Alguns gostaram da questão da reforma tributária como prioridade, mas é preciso entender melhor o que significa maior eficiência nas despesas.

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No mercado financeiro, além da queda da Bolsa e da alta do dólar, o movimento de aversão foi visto nas curvas de juros futuros. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 passou de 14,31% para 14,48%, enquanto a do DI para janeiro de 2026 foi de 13,47% para 13,65%.

Segundo o gestor de fundos da Arena Investimentos, Maurício Pedrosa, havia espaço para Haddad ser mais claro sobre a questão fiscal:

— Ele devia reconhecer que estava diante de uma plateia ansiosa por sinalizações sobre o que será colocado no lugar do teto de gastos — afirmou. — O que vimos foi uma fala muito subjetiva e com pouca tecnicalidade para um possível ministro da Fazenda.

O sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil Investimentos, Idean Alves, destaca que o mercado considerou as declarações de Haddad “pouco esclarecedoras”:

— É como se estivéssemos dirigindo em uma estrada com a visibilidade muito baixa, o que aumenta o risco de acidentes no percurso.

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Olho em Padilha

Haddad foi ao almoço da Febraban acompanhado do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, cujo nome também tem sido ventilado como opção para a Fazenda.

Pelo menos três executivos de bancos consultados pelo GLOBO disseram, sob condição de anonimato, que Haddad não é o nome preferido para a Fazenda. Segundo esses interlocutores, a indicação de Padilha seria vista com mais bons olhos. Eles dizem que Padilha tem a qualidade de saber ouvir o mercado, como fez durante a campanha em encontros realizados em São Paulo com economistas e gestores de investimento, em que defendeu o equilíbrio fiscal.

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Eles asseguraram, porém, que se Haddad for indicado há disposição em manter diálogo com o governo. Mas esses executivos defendem que é preciso estabelecer, o mais rapidamente possível, novas regras fiscais que sejam críveis. Por isso, a indicação de um nome para a Economia é uma questão urgente.

No evento estavam, entre outros, os presidentes do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto; do Bradesco, Octavio de Lazari; do Itaú, Milton Maluhy; do BTG, André Esteves; e da Caixa Econômica Federal, Daniella Marques.

Liberdade de escolha

Haddad criticou o Orçamento do país e afirmou que a qualidade da despesa no Brasil piorou muito:

— Hoje, temos dificuldade de atingir qualquer objetivo, seja em Saúde, Educação e Tecnologia. Precisamos reconfigurar o Orçamento, dar transparência, sempre com o protagonismo do Congresso.

Ele ainda defendeu redefinir a intermediação financeira no país, com os instrumentos digitais disponíveis, para baratear o crédito.

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A escalação de Haddad por Lula foi vista pelo mercado como uma sinalização de que o ex-prefeito de São Paulo será escolhido para comandar a Fazenda.

Tem havido especulações de que o economista Persio Arida, um dos pais do Plano Real, ocuparia o Ministério do Planejamento, que será recriado. Haddad chegou a afirmar, no evento, que eles são amigos de longa data. Persio, no entanto, disse ontem à Folha de S.Paulo que no momento não tem “intenção alguma de ter cargos em Brasília.”

Na saída do evento, Haddad negou já ter recebido um convite para assumir o comando da equipe econômica no futuro governo. Ele disse aos jornalistas que ficar insinuando possíveis titulares de pastas não funciona e que o melhor é “dar liberdade” para que Lula escolha os integrantes de sua equipe.