Papo com Beto: 'Trinche, o mito do fut argentino que é quase desconhecido'

Carlos Alberto Vieira
LANCE!


Aqui no Brasil, alguns feitos que ficaram marcados na história do futebol foram vistos por poucos, alguns nem tem imagens: os golaços de bicicleta de Leônidas da Silva nos anos 40, os mais de mil tentos de Friedenreich, o gol mais bonito de Pelé num jogo sem TV contra o Juventus paulista.

Na Argentina, há uma história parecida, de feitos que todos conhecem de cor - mesmo sem imagens para ilustrá-los - e que passam de boca em boca, de pai para filho. É o caso da carreira de Tomas Carlovich, apelidado de El Trinche, que morreu durante um assalto em Córdoba, na sexta-feira (8 de maio), aos 74 anos.

Dizem que a vida de um argentino muitas vezes parecem caber em um tango (a música tradicional do país): dramática, cheia de alegrias extremas e tristezas imensuráveis. Vide Maradona. E, certamente, El Trinche... Considerado genial desde muito jovem, apenas com 23 anos teve a sua primeira chance num time profissional, o Rosario Central, e só jogou uma partida. Ficava encostado. O motivo: o apoiador odiava treinar, muitas vezes nem aparecia e só queria jogar. Não por acaso, sua carreira acabou se restringindo a times da Segundona ou Terceirona, principalmente o pequeno Central de Córdoba, onde jogou nove temporadas, não consecutivas. Lá foi campeão da Segundona nacional uma vez e até hoje é considerado o seu melhor jogador.

El Trinche não treinava, mas, quando jogava, enchia os olhos, tinha uma série de dribles que só ele conseguia fazer (um deles chamado “bico duplo”, basicamente colocar por duas vezes a bola entre as pernas do marcador e partir para o ataque). Não por acaso ganhou o status de “o melhor jogador do mundo conhecido por quase ninguém”.

Teoricamente era quase um craque de várzea. Mas tornou-se um mito por causa de um jogo em 1974. Naquele ano, antes de embarcar para a Copa da Alemanha, a Argentina fez um amistoso contra uma seleção de Rosário. A seleção era boa, pois tinha dois garotos de futuro - Mario Kempes e Killer (que seriam campeões mundiais em 1978). Mas o “cara” era Trinche Carlovich. Em 45 minutos ele comandou o combinado, que foi para o intervalo vencendo por 3 a 0 com direito a um desfile de dribles do meio-campista. Na etapa final, Carlovich saiu e o placar terminou 3 a 1. Um assombro.

A sua falta de vontade de treinar, seu futebol de alta categoria e algumas histórias lendárias nunca confirmadas construíram o mito. Um desses “causos” é que Carlovich, para segurar um resultado, conseguiu ficar quase dez minutos com a bola, escapando de divididas e, quando sofria uma falta, retomava a redonda para manter a 'cera'. Ou, ao estilo do que aconteceu com Pelé, ele foi expulso de um jogo e a torcida invadiu o gramado para obrigar o juiz a rever a decisão e fazê-lo voltar a campo.

Bem, Carlovich nunca topou jogar na capital Buenos Aires. Se era para jogar num time pequeno, que fosse perto de Córdoba ou Rosário. E assim, não treinando, se lesionando muito, sem aparecer nos resumos da rodada nas TVs e perambulando de time em time (alguns amadores), Carlovich se aposentou em 1986.

Com o tempo, sua fama cresceu na Argentina (e somente nela). Maradona sempre diz que El Trinche é o único jogador argentino melhor do que ele. O treinador Cesar Menotti é outro que tece elogios ao craque desconhecido.

No dia 27 de abril, Carlovich foi entrevistado por uma rádio de Santa Fe. Perguntaram como ele gostaria de ser lembrado após a morte:

- Que eles me amem como me amam agora. Ando de bicicleta por toda a Rosario, vou a qualquer lugar, eles me cumprimentam, buzinam no ônibus e tudo mais. Com isso, me fazem feliz. Perdi muitas coisas na vida e isso me faz pensar que estou vivo.

Na sexta-feira passada (8 de maio), Carlovich passeava por Rosario. Ele já tinha sofrido o roubo de quatro bicicletas. E mais uma vez foi interceptado por um ladrão. Desta vez, o assalto foi violento, ele foi golpeado na cabeça. Chegou a ser hospitalizado, mas não resistiu. Uma morte estúpida para o maior craque que quase ninguém conheceu. Que tem uma historia que mais parece um tango, em toda a essência argentina.


Deu no Olé

Fica aqui uma compilação de colunas e opiniões publicadas no Diário Olé publicadas após a morte desta lenda di futebol dos hermanos:

"A memória coletiva do povo, em tempos anteriores a esta época de informação instantânea, era feita de boca em boca. Histórias contadas através de testemunhos não documentados, passados para filhos, netos, bisnetos, de geração em geração. Trovadores e poetas também ajudaram, cantando e recitando elogios e grandes feitos.

De Tomás Carlovich quase não há registros, pois jogou apenas um punhado de partidas na Primeira Divisão, cerca de cinquenta na Segundona e grande parte da carreira na Terceira. Mas ele construiu uma lenda. Cesar Menotti, Mario Kempes, Jorge Valdano, José Pekerman transmitem a história do Trinche Carlovich: canhoto hábil, mágico, engenhoso, pícaro, que não era fanático por treinos nem se deslumbrava com as luzes de Buenos Aires ou da Europa. Não ganhou fortunas, não jogou Mundial, não brilhou no Maracanã, no Camp Nou ou no Parque dos Príncipes. Um fantástico jogador e também um homem humilde. Morreu Trinche, de forma estúpida, num assalto na sua querida cidade de Rosario.

Infelizmente não temos registros visuais dele em campo. Mas felizmente temos o boca a boca. Mesmo perdendo muitas oportunidades na vida, Trinche tinha a felicidade de, ao passar de bicicleta pelas ruas de Rosario, ouvir as pessoas buzinando nos carros, aplaudindo e gritando. Ele jamais parecia arrependido pelo que não conquistou."































Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Leia também