Pandemia do coronavírus faz pacientes com câncer pararem de buscar tratamento e derruba doações a entidades

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Por Alana Ambrosio

Nayara Araújo deixou sua casa em Boa Vista, Roraima, para buscar em Brasília a cura do filho recém-nascido, Daniel Benício. No começo os médicos acharam que ele tinha uma infecção bacteriana, mas logo descobriram que o problema do pequeno era, na verdade, um rabdomiossarcoma - tumor maligno formado nos músculos esqueléticos. A mãe e o bebê de onze meses foram assistidos pela Abrace (Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias). Os dois vivem em uma casa de apoio enquanto a quimioterapia está em curso.

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Todas as quartas-feiras ele faz uma sessão do tratamento.

Desde que a crise do novo coronavírus atingiu o Brasil, as preocupações de Nayara aumentaram ainda mais. Não só com a saúde da criança como, também, com o auxílio a ele prestado pela instituição.

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Isso porque o direcionamento de doações para ações relacionadas ao coronavírus causou uma queda na arrecadação da Abrace.

“As visitas de voluntários diminuíram, assim como o contingente de funcionários em contato com as crianças. O número de pessoas que vinham fazer doações caiu também. Antigamente chegava bastante gente para ajudar, brincar com os assistidos, mas tudo isso acabou por causa do isolamento social. Me preocupo demais com a falta de alimentos também, porque já estão chegando em menor quantidade”.

Segundo dados da Central de Doações da Abrace, o mês de abril registrou uma queda de 30% nos donativos, o que causará um impacto enorme na assistência oferecida. Eles lançaram a campanha “o câncer não tira quarentena”, para conscientizar a população sobre a situação das famílias assistidas.

A previsão é que o tratamento do bebê Daniel Benício se estenda até o fim do ano. Até lá, a mãe não pode baixar a guarda:

"De final de semana dá pra sair do quarto e dar uma volta pela casa porque tem menos gente. Só que tem que ser de máscara, com mais cuidado, passar álcool na mãozinha dele. Eles são frágeis, o câncer já é muito perigoso. Com essa nova doença ficou tudo ainda pior. Mas eu faço de tudo pelo meu filho”.

DESENHOS

Os desenhos têm feito companhia para Douglas Leandro da Silva durante a pandemia. São horas dedicadas aos rabiscos feitos a lápis dentro de um quarto. O rapaz de 18 anos deixou há poucos meses sua cidade, Crato, no Ceará, para tratar um linfoma. Ele também é assistido pela Abrace. Todos os custos com hospedagem, alimentação, remédios e tratamentos são cobertos pela ONG.

Os cuidados com a saúde ficaram ainda mais intensos nos últimos meses. Ele anda com vários potes de álcool em gel na mochila, para limpar não só as mãos como todos os objetos ao seu redor:

“O paciente com câncer já precisa ter maior cuidado com tudo já que tem imunidade baixa, não pode comer qualquer coisa, fazer o que todo mundo faz. Agora, então, você pode imaginar... eu estou dobrando o cuidado já redobrado”, comentou com bom humor.

A quimioterapia feita uma vez por semana não parou nem o número de funcionários do setor diminuiu. Mas a rotina dos pacientes está bem diferente:

“Agora a gente fica isolado no quarto. Contato só na hora das refeições e tratamentos. A gente ficava na sala, todo mundo brincando, jogando, vendo filmes. Deu uma pausa em tudo. A gente tenta se ocupar com outras coisas. Para mim são os desenhos! Assim eu me lembro dos meus parentes, tios, primos e também de quem tá aqui.” Um dos desenhos feitos por ele é de Daniel Benício, o bebê de Nayara Araújo, de quem o adolescente ficou amigo.

O jovem faz um apelo:

“Por favor, não deixem de ajudar as casas de apoio no Brasil. Já está todo mundo passando por dificuldades por causa do coronavírus, mas tem sempre quem passe por problemas ainda maiores em meio a tudo isso”.

REPENSANDO O ATENDIMENTO

A pandemia tem alterado as estruturas voltadas para a área de saúde no país todo. Hospitais estão destinando áreas especificas para atendimento dos pacientes com quadros suspeitos, tanto nos setores de pronto atendimento quanto nas internações e UTIs.

Walter Cintra, médico coordenador do curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde da FGV, explica como a pandemia está impactando o atendimento a outras enfermidades:

“Hospitais focados no atendimento de câncer devem ser isolados para não receber pacientes com coronavírus; ou, se for preciso, dividir o atendimento, reorganizar os serviços, restringir uma ala apenas para pacientes com câncer. A princípio, profissionais de saúde que estão cuidando de pacientes oncológicos não devem atender aqueles com Covid-19. Por exemplo, o Hospital das Clínicas, maior complexo hospitalar do Brasil, separou um instituto inteiro, deslocou seus leitos para outras dependências e o deixou totalmente para tratamento dos casos do vírus. Já hospitais menores devem ser pautados pelas autoridades de saúde, pensando no sistema de saúde como um todo, para designar onde poderá haver atendimento e onde não”.

Além do temor com uma possível falta de leitos, a grande preocupação dos oncologistas é com a interrupção de tratamentos imprescindíveis, como radioterapia e quimioterapia, e com a falta de diagnósticos. Pacientes estão resistentes quanto à ida aos centros médicos pelo risco de contaminação com o coronavírus.

Houve uma diminuição expressiva no número de pacientes que continuaram ou iniciaram seus tratamentos oncológicos, sejam eles cirúrgicos ou clínicos. Em São Paulo o Hospital A.C Camargo, referência no tratamento de câncer, compila dados impressionantes: em abril houve uma redução de 65% no número de novos pacientes na comparação com o mesmo período do ano passado. Já as consultas ambulatoriais caíram entre 50% e 80%, dependendo do tipo de tumor. Mais da metade das cirurgias oncológicas e 10% das sessões de quimioterapia realizadas neste mês foram interrompidas.

Helano Carioca, oncologista clínico do A.C.Camargo, teme que essa queda brusca nos índices agrave o quadro dos pacientes:

“Pelo volume baixo de atendimento, acreditamos que muitos pacientes tomaram a decisão de postergar suas consultas por conta própria e isso pode colocá-los em risco. Também é preocupante a redução do volume de casos novos de pacientes com câncer procurando atendimento, pois esses pacientes podem perder a janela de oportunidade de realizar tratamentos ainda com intenção curativa, caso posterguem suas avaliações por muito tempo. O câncer é uma doença proliferativa que pode avançar para órgãos distantes com a metástase e inviabilizar o tratamento. Mesmo nos pacientes em terapia paliativa, o abandono do tratamento pode agravar sintomas e até impactar o tempo de vida”.

Neste sentido, diversas outras associações se mobilizam, como as Sociedades Brasileiras de Radioterapia e de Oncologia, para orientar os pacientes quanto à necessidade de discutir com médicos as opções de terapias aplicadas.

A diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia, Ignez Braghirolli, reforça a necessidade de não suspender tratamentos, e explica como em alguns casos tem sido possível repensar as formas de combate ao câncer:

“Se o profissional acreditar que a pessoa está segura para fazer férias de tratamento, esse é um momento propício para tal. Mas nem sempre isso é possível. Quem usa hormônios, comprimidos, pode ficar sem ir às consultas médicas presenciais, substituindo por teleconsultas. Os especialistas estão também revisando tratamentos, mudando para aqueles com menos chance de baixar imunidade e opções que reduzam idas aos centros de saúde”.

Pacientes com câncer não têm um risco maior de serem infectados pelo coronavírus, porém, costumam apresentar imunossupressão, seja pelo próprio tumor ou pelo seu tratamento, o que os torna mais suscetíveis a infecções e aos efeitos do vírus. O INCA, Instituto Nacional de Câncer, estima que o Brasil terá 625 mil novos diagnósticos de câncer em 2020.

“Pelo volume baixo de atendimento acreditamos que muitos pacientes tomaram a decisão de postergar suas consultas por conta própria e isso pode lhes colocar em risco. Também é preocupante a redução do volume de casos novos de pacientes com câncer procurando atendimento, pois estes pacientes podem perder a janela para realizar tratamentos ainda com intenção curativa se postergarem suas avaliações por muito tempo. O câncer é uma doença proliferativa que pode avançar para órgãos distantes com a metástase e inviabilizar tratamentos. Mesmo nos pacientes em terapia paliativa, o abandono do tratamento pode agravar sintomas e até impactar o tempo de vida”.

Neste sentido, diversas outras associações se mobilizam, como as Sociedades Brasileiras de Radioterapia e de Oncologia, para orientar os pacientes quanto à necessidade de discutir com médicos as opções de terapias aplicadas.

A diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia, Ignez Braghirolli, reforça a necessidade de não suspender tratamentos. E explica como em alguns casos tem sido possível repensar as formas de combate ao câncer:

“Se o profissional acreditar que a pessoa está segura para fazer férias de tratamento, esse é um momento propício para tal. Mas nem sempre isso é possível. Quem usa hormônios, comprimidos, pode ficar sem ir às consultas médicas presenciais, substituindo por teleconsultas. Os especialistas estão também revisando tratamentos, mudando para aqueles com menos chance de baixar imunidade e opções que reduzam ida aos centros de saúde“.

Pacientes com câncer não correm um risco maior de infecção pelo coronavírus. Porém, costumam apresentar imunossupressão, seja pelo próprio tumor ou pelo seu tratamento, o que os torna mais suscetíveis a infecções e aos efeitos do vírus. O INCA, Instituto Nacional de Câncer, estima que o Brasil terá 625 mil novos diagnósticos de câncer em 2020.

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