Pandemia cria abismos e joga times do interior do Ceará na crise

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FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS) - O meio-campista Toró, 25, não imaginava retornar ao futebol profissional no Ceará quando parou de jogar ainda em 2015, após passagem rápida pelo Crateús, que disputava a Série C do Campeonato Cearense. "Faltavam oportunidades", diz.

Toró ganhava a vida como barbeiro, em Caucaia, na Grande Fortaleza. Nas horas vagas, participava de amistosos no interior, campeonatos de bairro e jogava bola com os amigos pelos campos e quadras da cidade. "A gente recebia o dinheiro da gasolina, uma ajuda para pagar as contas ou fazer um lanche após o jogo, mas nada que desse para sobreviver."

Desde o fim de abril, ao lado de 26 jogadores, embarcou em um projeto do Caucaia Esporte Clube de tentar concluir o campeonato estadual. Se a preparação para a disputa de uma competição dura meses, Toró teve apenas três dias antes da estreia contra o Fortaleza, já na segunda fase do torneio.

O plantel do time é o resultado do impacto da pandemia nos clubes menores do país. Além de alguns profissionais, conta com jogadores amadores, autônomos e empregados de transporte público. A garimpagem precária na busca por atletas, sem testes e com apenas avaliações clínicas, aconteceu após anúncio nas redes sociais do clube e canais de comunicação da região.

O ocupante atual de uma das vagas da próxima edição da Série D do Campeonato Brasileiro vivia uma crescente nos anos anteriores, muito graças ao apoio financeiro obtido na última gestão da prefeitura municipal, principal mantenedora dos gastos do clube.

Em 2019, por exemplo, antes da pandemia, conquistou os títulos da Segunda Divisão Cearense e da Taça Fares Lopes, além da classificação inédita para a Copa do Brasil do ano seguinte.

Em 2021, com a mudança de gestão, o apoio da prefeitura acabou. Para o estadual, o Caucaia até trouxe um dos maiores ídolos do clube, o atacante Ciel, 39, que teve passagens por Ceará e Fluminense, mas, com dificuldades para pagamento de salários, precisou rescindir contrato com o jogador. Na última passagem, o veterano fez sete jogos e marcou oito gols.

Com o novo decreto estadual de isolamento rígido deste ano, paralisando o campeonato cearense em pouco mais de um mês, o Caucaia precisou emprestar a maioria dos atletas para outros times nordestinos e rescindiu com os demais. Do time que iniciou o Cearense, apenas dois são remanescentes. Ao todo, o clube inscreveu 60 jogadores em três meses de competição.

O pouco dinheiro que entrou no caixa do Guarany de Sobral, nas últimas semanas, serviu para fazer algumas contratações pontuais para a disputa da Série D, que tem início em junho.

"Para time pequeno, tudo é difícil", conta o presidente Mauro Fuzaro que, para completar o elenco, começou a buscar talentos nos municípios que ficam no entorno de Sobral. Após procura de jogadores de alto rendimento, 11 atletas ganharam a oportunidade.

Lamar Lima, técnico do Crato, lembra que o clube "fez um planejamento em cima do nada". Sem ajuda do poder público e das poucas empresas privadas que davam suporte ao clube, durante a pandemia, a diretoria não conseguiu manter o elenco e mandou todos os jogadores embora.

"Alguns dos atletas conseguiram se empregar em times de estados que não decretaram lockdown, outros estão desempregados", fala. Para conseguir concluir o Cearense e diminuir custos, o Crato precisou mandar jogos em Fortaleza, após firmar parceria com o Tiradentes, clube da capital.

Na retomada da competição, em 2 de maio, foi goleado por 4 a 0 para o Ferroviário. Na partida, o Azulão do Cariri contou somente com dois jogadores no banco e um goleiro. Na última rodada da Segunda Fase, após empatar em 3 a 3 com o Caucaia, conseguiu a vaga inédita para a Série D do ano que vem.

O Icasa, de Juazeiro do Norte, que ficou a um ponto do acesso à Série A do Brasileiro em 2013, terminou o Campeonato Cearense com um time de garotos. Dos jogadores relacionados para a partida do último dia 17, contra o Fortaleza, o atleta mais experiente da equipe tinha apenas 21 anos.

O time, que ainda sonhava com uma vaga na Série D, foi goleado por 6 a 0 para o Leão do Pici. "Estávamos empolgados em fazer uma boa campanha. Fizemos os mesmos contratos com os jogadores do campeonato anterior. Veio o novo lockdown e não sabíamos como arcar com os salários", falou o presidente França Bezerra.

Com uma folha salarial alta, comparada a de outros times do interior, a diretoria resolveu finalizar os contratos de todos os atletas e terminar o estadual com jogadores da base.

Segundo França, o prejuízo foi de mais de R$1 mi. "Sentimos que todo o poder público não pensou nos clubes e atletas. O esporte ficou sem ajuda. Não tivemos nenhuma reunião. A gente poderia estar classificado para a Série D", lamenta.