Pandemia afeta desenvolvimento de jovens talentos no futebol sul-americano

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Caio, atacante da equipe sub-17 do São Paulo, treina no Centro de Formação de Atletas do clube em Cotia (AFP/Miguel SCHINCARIOL)

A pandemia cortou as asas das novas gerações de jogadores de futebol na América do Sul. O confinamento e o cancelamento dos torneios juvenis impactaram na formação das promessas da região, em um momento em que a Europa amplia seu domínio.

Alguns voltaram aos gramados após meses de hiato, mas outros se afastaram devido a dificuldades financeiras. Alguns perderam a chance e outros terão que esperar para disputar um Campeonato Sul-Americano e uma Copa do Mundo, vitrines para olheiros em busca dos futuros Messi, Maradona e Pelé.

“A pandemia nos deu um pouco de atraso em o nosso crescimento (...) Eu tinha uma grande expectativa de disputar minha primeira Copa do Mundo, que é uma vitrine para o jogador”, diz Caio, pequeno e habilidoso atacante do São Paulo.

O jogador participou do processo de seleção do grupo relacionado do Brasil que participaria do Sul-Americano Sub-17, que garantia vaga para o Mundial no Peru em 2021.

Mas a Fifa cancelou os campeonatos mundiais juvenis masculino e feminino devido à pandemia e remarcou essas competições para 2022 ou 2023, quando muitos atletas não poderão participar porque estarão acima da idade exigida.

Em agosto, a Conmebol cancelou as competições sul-americanas masculina e feminina Sub-15, Sub-17 e Sub-20 2021, que garantem vaga para as Copas do Mundo de suas respectivas categorias. Os torneios nacionais também foram adiados.

“Era um momento em que eu estava em projeção”, lembra Caio, de 17 anos e agora na equipe sub-20 do tricolor paulista. "Minha família me deu muito apoio, meu clube também. Você tem que trabalhar para continuar".

O ciclo da Copa do Mundo pode incluir entre vinte e trinta amistosos e jogos oficiais, um período perdido para essas gerações, estima Patricio Ormazábal, técnico da seleção Sub-20 do Chile.

- Geração perdida? -

A base do São Paulo, uma das mais estruturadas do Brasil, esperou entre quatro meses e quase um ano, dependendo da categoria, para retomar o treinamento presencial, suspenso em março de 2020.

Em meio aos efeitos da covid-19, o Brasil, segundo país com mais mortes (606 mil), os jogadores conseguiram treinar em casa por meio de videochamadas com seus técnicos.

A situação se repetiu na América do Sul, onde Brasil (1º), Argentina (3º) e Colômbia (9º) estão entre os dez primeiros países exportadores de jogadores, segundo o Observatório de Futebol do CIES.

“Esta geração tem perdido muitas coisas, não somente com a seleção, nos clubes, na formação. Infelizmente vamos ter que achar alguma forma de recuperar essa situação, que é realmente gravíssima”, explica o ex-jogador Alex de Sousa.

Atualmente treinador da equipe sub-20 do Tricolor Paulista', Alex garante que os prejuízos nos jovens devido ao isolamento e à interrupção da educação física e desportiva ainda não foram "dimensionados".

“Vai ter perdas que a gente só vai começar reconhecer e saber um pouco mais de frente”, afirma o técnico, referindo-se a que, devido à baixa carga de exercícios nesse período de afastamento, os jovens podem sofrer lesões com mais facilidade ou ficar para trás no conhecimento técnico-tático, chave para o profissionalismo.

"A tendência é só a aumentar porque na Europa é muito mais organizado que aqui", completa.

Aos poucos, entre 2020 e 2021, as divisões inferiores dos clubes sul-americanos retomaram as atividades e alguns times disputaram amistosos.

O atacante Juan calcula que já deveria ter feito sua estreia profissional. Mas ficou no sub-20 do São Paulo pelo segundo ano devido aos atrasos gerados pelo coronavírus.

“A pandemia veio em um momento em que muitos de nós estávamos em um processo de transição da base para a equipe profissional”, afirma.

- Efeitos econômicos -

Na Colômbia, a crise econômica provocada pela pandemia obrigou vários talentos a se retirarem do futebol, alguns para sustentar suas famílias e outros porque os times cortaram comida e auxílio-moradia.

"Os clubes dispensaram muitos jogadores nascidos no ano de 2000", que ultrapassarão a idade exigida em futuras competições sub-20, revela Andrés Arenas, dono do Club Sabaneta, que forma jogadores para as equipes do departamento de Antioquia.

Fabián Ángel teve sorte. Apesar de ter sido convocado para a seleção sub-20 colombiana, desde 2020 meia passou a atuar pelo Junior de Barranquilla.

Os caribenhos esperam jogar a Copa Libertadores ou a Sul-Americana, vitrines que compensam a visibilidade perdida com o cancelamento de competições de seleções.

Mas a falta de jogos tem prejudicado a carreira de "muitos jogadores que ainda não tiveram a oportunidade [de estrear e que] são muito bons", lamenta Ángel.

Além de prejudicar seu treinamento e potencial, em um momento em que a Europa domina o futebol, após vencer as últimas quatro Copas do Mundo, a falta de exibição de talentos impacta as finanças.

Vender jogadores é fundamental para os clubes sul-americanos. Na última década, as transferências de jogadores de futebol brasileiros, argentinos e colombianos movimentaram cerca de 12 bilhões de dólares, de acordo com a Fifa.

Um contrato internacional pode transformar a vida de um jogador, muitos de origens humildes.

“A tendência é que o fosso com a Europa aumente, porque lá eles estão mais organizados”, diz Alex.

Fernando Álvarez, de 17 anos, integra as categorias de base do Argentinos Juniors, equipe que formou Diego Maradona, e foi capitão do vice-campeão argentino na Sul-Americano Sub-15, no Paraguai, em 2019.

"Não sei quando será a convocação da seleção, porque eles não disseram nada", declara. "Também não sei se terá convocação, mas quero estar lá de novo, o que é uma coisa incrível."

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