Palmeiras e Fla viram o jogo sobre rivais e ensaiam domínio financeiro

CARLOS PETROCILO E JOÃO GABRIEL
Folhapress
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 12-06-2016: Campeonato Brasileiro de Futebol 2016. Palmeiras e Corinthians, no Estadio Allianz Parque. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 12-06-2016: Campeonato Brasileiro de Futebol 2016. Palmeiras e Corinthians, no Estadio Allianz Parque. Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Palmeiras e Flamengo aumentaram seu faturamento em, respectivamente, 238% e 167% nos últimos dez anos e polarizam a briga dos clubes mais ricos do futebol brasileiro.

O crescimento dessas agremiações se baseou em mais de uma fonte de receita (bilheteria, patrocínios e cotas de televisão), diferentemente do que aconteceu com outros clubes líderes de receita nesse período, o que indica que essa situação pode perdurar.

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Segundo levantamento da reportagem com os balanços de times paulistas, cariocas, gaúchos e mineiros, cinco equipes lideraram a lista de maior receita anual do Brasil desde 2009: Corinthians (2009 a 2012), São Paulo (2013), Flamengo (2014, 2016 e 2017), Cruzeiro (2015) e Palmeiras (2018).

As lideranças de Cruzeiro e São Paulo foram resultado de vendas pontuais de jogadores. Já a do Corinthians é graças ao efeito de marketing da contratação de Ronaldo Fenômeno e da conquista do Mundial de Clubes (2012).

O time do Parque São Jorge dobrou, em quatro anos, seus ganhos com patrocinadores e contratos publicitários. Chegou ao recorde de R$ 94 milhões, porém, despencou para R$ 43 milhões atualmente.

"Devíamos R$ 100 milhões e faturávamos R$ 56 milhões, precisaríamos crescer o faturamento e depois pagar as dívidas do passado. Veio o Ronaldo, uma química forte, e o marketing deu vida a projetos engavetados há anos", diz o então diretor financeiro do clube, Raul Corrêa da Silva.

O São Paulo, em 2013, contabilizou arrecadação de R$ 522 milhões (valor corrigido). Parte significativa dessa cifra foi oriunda da venda de Lucas para o PSG por R$ 204 milhões.

Então bicampeão brasileiro, o Cruzeiro arrecadou R$ 167 milhões com as transferências de Ricardo Goulart ao Guangzhou Evergrande (CHN), Éverton Ribeiro ao Al-Ahli (EAU), e Lucas Silva ao Real Madrid (ESP). Com isso, fechou 2015 com receitas totais de R$ 459 milhões (atualizados).

"Negócio de ocasião [como venda de atletas] não garante resultado consistente. Os clubes, assim como empresas, precisam ampliar o portfólio, aumentar o escopo de ações. É o que Palmeiras e Flamengo têm conseguido", diz Joelson Gonçalves de Carvalho, professor de economia da Ufscar.

A dupla virou o jogo na segunda metade desta década. Em 2009, o time alviverde faturava R$ 205 milhões e o rubro-negro, R$ 215 milhões (em valores corrigidos). Ambos estavam atrás de Corinthians, Cruzeiro, São Paulo e Internacional --esse último foi o único que viu o seu faturamento cair de 2009 (R$ 316 milhões) a 2018 (R$ 311 milhões).

Segundo Pedro Daniel, diretor executivo da empresa de auditoria EY, Palmeiras e Flamengo lideram graças ao tripé bilheteria, patrocínio e cotas de TV. Ele ressalva que os cariocas conquistaram um crescimento orgânico, sem aporte de investidor, caso dos paulistas com a Crefisa.

"Há uma consolidação notória de Flamengo e Palmeiras, assim como o Corinthians teve com a presença do Ronaldo e a performance em campo até o título mundial", disse. "O São Paulo e o Cruzeiro foram casos atípicos impulsionados pela venda de atletas."

Em 2018, o Palmeiras arrecadou menos que o Corinthians em direitos de transmissão, porém, obteve R$ 103 milhões com patrocínios ante R$ 43 milhões do clube alvinegro. Após a construção do Allianz Parque, o clube também teve um aumento na receita com bilheteria. No ano passado, arrecadou R$ 119 milhões em venda de ingressos, enquanto o Corinthians contabilizou metade desse valor.

O Flamengo mudou de situação na gestão de Eduardo Bandeira de Mello, que assumiu em 2013. O clube rubro-negro havia fechado os dois anos anteriores com dívidas: R$ 422 milhões, em 2013, e R$ 444 milhões, em 2012.

"Tivemos que cortar na carne para atacar o endividamento e, por sorte, teve a aprovação do Refis [programa de refinanciamento]", disse Mello. "Parcelamos R$ 240 milhões [em 240 meses] no Profut, sem esse peso começamos a sanar dívidas bancárias e ações trabalhistas."

No Rio de Janeiro, o time rubro-negro destoa dos rivais em todas as fontes de renda. Ao longo dessa década, somente com patrocínios, publicidade e licenciamento de produtos, o Flamengo recebeu R$ 594 milhões. Botafogo, Fluminense e Vasco, juntos, contabilizaram R$ 520 milhões.

Para Pedro Daniel, o predomínio dos dois clubes pode mudar o cenário esportivo nacional, criando novas rivalidades e enfraquecendo outras mais tradicionais.

"Flamengo e Palmeiras já vêm se provocando por causa da performance, assim como acontece no futebol europeu. O rival direto do Barcelona seria o Espanyol, ambos da Catalunha, mas o principal adversário, na verdade, é o Real Madrid", afirma.

Atentos ao movimento destes dois, diretores de finança dos clubes da Série A têm se reunido para discutir estratégias de arrecadação. Já aconteceram encontros em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza e Belo Horizonte. Criaram inclusive um grupo de Whatsapp para trocar experiências e conselhos de gestão.

"Queremos aprender com erros e acertos, esses clubes que estão polarizando fizeram boa lição de casa", afirmou Paulo Braz, diretor do Atlético-MG e que organizou o encontro em Minas.

"O problema maior é o passado. As dívidas tributárias de muitos clubes estão no Refis, mas ainda são altas", disse o presidente atleticano, Sérgio Sette Câmara. Dos times do levantamento, o Atlético-MG é o que tinha a segunda maior dívida em 2018 (R$ 591 milhões), só inferior à do Botafogo (R$ 729 milhões).

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