"É uma alegria que não tem tamanho”: pais contam como é a relação com filhos trans

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·8 minuto de leitura
Tenho um filho trans. E agora? (Arte: Thiago Limón/Yahoo Brasil)
Tenho um filho trans. E agora? (Arte: Thiago Limón/Yahoo Brasil)

Por Henrique Santiago

Alan Marcolino, 52, se emociona várias vezes ao falar da filha. Ele embarga a voz, respira fundo, faz uma pausa rápida e pede desculpas por deixar transparecer suas emoções ao telefone. Uma semana antes, havia confirmado a entrevista: “Será um prazer falar da minha PRINCESA ALICE”, escreveu em letras garrafais no WhatsApp.

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O chef de cozinha é pai de Alice Marcone, a primeira cantora transexual da música sertaneja no Brasil, que integra o queernejo, movimento encabeçado por jovens LGBTQ+. Foi em um encontro na casa do pai, em Serra Negra, no interior de São Paulo, que ela, já adulta, decidiu revelar sua identidade transgênero à família.

O chef de cozinha é pai de Alice Marcone, a primeira cantora transexual da música sertaneja no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)
O chef de cozinha é pai de Alice Marcone, a primeira cantora transexual da música sertaneja no Brasil (Foto: Arquivo Pessoal)

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“Quando resolveu se assumir, ela chegou até nós [ele a esposa] e disse, sempre foi muito verdadeira. Em nenhum momento eu suspeitei, foi uma surpresa para mim. Me emociono pela coragem dela de chegar até os pais e falar para que a gente soubesse antes de qualquer outro comentário de outra pessoa. É uma situação em que nem todos filhos têm coragem de sentar com os pais para conversar diretamente sobre um assunto desse”, diz Marcolino.

Alan, Alice com Lia (centro), mãe da cantora (Foto: Arquivo Pessoal)
Alan, Alice com Lia (centro), mãe da cantora (Foto: Arquivo Pessoal)

A relação entre pai e filha sempre foi marcada pelo afeto, ele conta ao Yahoo!, como quando andavam de mãos dadas pelas ruas da cidade interiorana, e Alice ainda era pequena. A descoberta da transexualidade da cantora de 25 anos só serviu para reforçar a mutualidade de sentimentos, principalmente depois que ela iniciou a transição de gênero.

“No meio disso ela teve a fase de não aceitar muito o corpo, isso foi muito conversado. Nós apoiamos sem nenhum preconceito, nada de ‘ai, você poderia ter sido ‘normal’’. Isso nunca passou pela minha cabeça. O que conversamos era sobre como ela teria que se comportar nesse mundo. Hoje eu a chamo de princesa porque ela está linda e maravilhosa, ser pai dela é uma alegria não tem tamanho”, afirma, completando que tem planos de trabalhar no futuro com Alice Marcone em um projeto musical.

O respeito na família Marcolino - e nas demais que você lerá abaixo - é exceção no Brasil. De acordo com dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 129 pessoas trans foram assassinadas em todo país entre janeiro e agosto deste ano, em plena pandemia de coronavírus. Se comparado com o mesmo período de 2019, houve um aumento de 70% nos homicídios da população transgênero, aponta a entidade.

A aceitação é um processo

Marcelo e o filho Murilo de 13 anos (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcelo e o filho Murilo de 13 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

É por conta de estatísticas como essas que o sociólogo Marcelo Limão, 51, repensou sua vida por completo. Pai de Murilo, um adolescente trans de 13 anos que se assumiu aos 9, ele recorda que o menino já apresentava um comportamento inconvencional ainda na infância. O caçula nunca gostou de bonecas, preferia o Homem-Aranha; detestava vestidos, preferia bermudas; jamais se permitia usar sandálias, só sapatos fechados.

Após observar essas atitudes, Limão levou seu filho a uma psicóloga. Ela disse explicitamente que os pais estavam reforçando uma possível masculinidade ao permitir que a criança se vestisse daquele jeito. Embora soubesse se tratar de uma reprodução do senso comum, ele também se viu repetindo o mesmo discurso posteriormente. A aceitação da transexualidade não foi imediata, confessa, mas um trabalho intensificado por meses.

“No momento em que você percebe que tem um filho ou uma filha transgênero, lembra de quando achava que seu filho ou filha era homossexual, como se fosse mais simples, e não é, como se causasse menos medo e sofrimento, mas não é. Não se compara sofrimento, mas era assim: ‘Não poderia ser só uma menina lésbica?’. É normal esse processo, eu passei por isso, não vou negar”, destaca.

Para o sociólogo que vive em Jundiaí (SP), a descoberta da identidade de gênero na infância jamais deve ser subestimada pelos pais. “É comum pensar assim, que se tivesse 18 anos confiaria mais. Mas não se deve desconfiar. E não se pode descaracterizar o que uma criança diz, pelo fato de ser uma criança não se deve ouvir mais ou menos. Criança não é ‘café com leite’ em identidade de gênero”, avalia o pai do Murilo.

É possível que pais se revoltem com seus filhos por quebrarem um “contrato social”, reflete Limão, que pode traduzir em ações violentas, como agressões físicas, expulsão do lar e abandono. Abraçar, figurativa e literalmente, a identidade de gênero é um indício para que Murilo cresça com a saúde mental estável. Ele até começou a estudar a graduação em psicologia recentemente, para poder ensinar (e aprender) os pormenores da transexualidade.

Um estudo feito pelo Centro Nacional para Igualdade de Gênero, instituição dos Estados Unidos, revela que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio, contra 1,6% da população geral. Aqui no Brasil, 16 homens e mulheres trans tiraram a própria vida no primeiro semestre de 2020, afirma a Antra.

Pai trans, filha trans

Leonardo Medeiros, 36, e a filha Kylie, ambos transgêneros (Foto: Arquivo Pessoal)
Leonardo Medeiros, 36, e a filha Kylie, ambos transgêneros (Foto: Arquivo Pessoal)

O emocional de Leonardo Medeiros, 36, estava fragilizado pela depressão em 2010. Ele engravidou e deu à luz um filho, fruto de um estupro no início da vida adulta. Para vencer a vida de marasmo, foi necessário sair de Bagé (RS), sua cidade natal, e buscar melhores condições de vida. No meio do percurso, porém, uma surpresa: a criança que trouxe ao mundo se descobriu Kylie, uma menina trans, aos 10 anos.

A revelação de Kylie explicou os problemas que Medeiros enfrentava consigo. Ele se via como um homem em um corpo de mulher, e só foi aos 34 anos que finalmente assumiu sua identidade. “A gente não se dava muito bem e eu não sabia o porquê, mas só fui entender depois da transição. Eu não gostava que me chamassem de mãe, não era gostoso ouvir aquilo, ser chamado de pai é diferente”, conta ao Yahoo!.

Atualmente, ele vive com sua namorada, Selma, também uma mulher trans, e a filha Kylie em Palhoça, na Grande Florianópolis, onde abriu uma estamparia. “Nós somos uma família transdicional”, brinca, aos risos. Medeiros finalmente se diz uma pessoa realizada, mas faz questão de destacar que a sua família “transdicional” está longe de ser como aquela do comercial de margarina da TV.

Ao saber da transexualidade da filha, pediu para que Kylie não assumisse sua identidade em público para protegê-la de possíveis violências, mas hoje vê que foi um erro tentar interromper o interruptível. Hoje, seus conselhos são típicos de um pai, para que ela tome cuidado ao sair de casa, que avise quando chegar ou que evite ir a lugares com pessoas que não conhece, por exemplo. E, como uma adolescente de 17 anos, às vezes pode reagir com a rebeldia da idade.

“Eu digo que sou o cara mais feliz do mundo porque estou leve. Em relação a mim e a Kylie, a nossa relação melhorou 3000% porque a gente hoje se entende demais, eu sei as dores dela, ela sabe as minhas. Mas não é a família perfeita, vou te dizer, às vezes os gatos brigam. É louça para lavar, digo: ‘cadê a ajuda dentro de casa? Pelo amor de Deus’, aquela coisa de adolescente de querer fazer só quando quer. É normal como outra família, a única diferença é que somos uma família trans”, conta Medeiros aos risos.

Filho trans e negro, uma luta dupla

Carlos com o filho trans Matheus (Foto: Arquivo Pessoal)
Carlos com o filho trans Matheus (Foto: Arquivo Pessoal)

Ser pai de um homem trans é uma novidade recente na vida de Carlos Renato da Silva, 40. O operador de máquina de costura vez ou outra comete um deslize e chama Matheus, seu filho de 20 anos, de “ela”. Mas essa é a única dificuldade que a dupla enfrenta, pois ele se comprometeu a estudar sobre transexualidade na internet assim que soube do caso dentro da sua família.

Ele, que vive com a mãe em uma casa no Cangaíba, bairro da periferia de São Paulo, aprofunda as conversas com seu primogênito porque entende na pele a realidade de ser negro no Brasil. Ser homem negro e trans, portanto, é uma luta dupla que deve ser vencida diariamente.

É duas vezes mais preconceito, infelizmente, resume Silva.

“É um sentimento complexo, vem desde a maneira que o mundo enxerga a população negra até a forma que a população negra se enxerga e se relaciona com o mundo. A gente é criado, cara, para não ter fraquezas. Uma pessoa trans é tida como fraca, e a tendência é se afastar. Aqui nas periferias há casos de filhos que revelaram sua orientação sexual e é expulso de casa, é agredido pela própria família. O homem negro, a família negra pode encarar como fraqueza”, opina.

Mas Silva não se permitiu sequer pensar nessa possibilidade. Ele diz que é um pai carinhoso, sempre troca mensagens carregadas com um “te amo” para Matheus e se mostra aberto ao diálogo. Os dois, inclusive, saem juntos para shows, baladas e mantêm uma tradição: ver ao menos uma vez por ano uma apresentação do rapper Kamau. O pai quis mostrar apoio ao filho ao ir à Parada do Orgulho LGBT.

Com a pandemia do coronavírus, eles se veem com menos frequência, e restam apenas as conversas por celular. A saudade o faz até questionar pais como ele, que, diferentemente dele, não aceitam filhos que se descobrem trans. “O que eu posso dizer é: avalia o seu sentimento para com o seu filho. Será que o amor que você diz ter é tão raso que vai tornar isso uma barreira?”, finaliza Carlos Renato da Silva, que se diz um ser humano melhor do que há três anos.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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