Pai de Caio defende o filho e diz que Raí errou ao criticar Bolsonaro

CARLOS PETROCILO
Folhapress
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 08.12.2018 - O comentarista Caio Ribeiro. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 08.12.2018 - O comentarista Caio Ribeiro. (Foto: Greg Salibian/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A discussão entre os comentaristas Walter Casagrande e Caio Ribeiro nesta segunda-feira (4), durante o programa "Bem, Amigos!", do SporTV, ecoa no ambiente político do São Paulo, clube em que Caio foi revelado como jogador no início dos anos 1990, e seu pai, Dorival Decoussau, é conselheiro.

O motivo da discussão foram as críticas que Caio fez na semana passada sobre a fala de Raí, diretor-executivo do São Paulo, que mostrou desacordo com a condução do presidente Jair Bolsonaro no combate à pandemia de Covid-19.

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Nesta terça (5), Decoussau, ex-diretor do clube, disse à reportagem que concorda com a opinião do filho. Para ele, Raí não deveria ter feito críticas políticas pelo cargo que ocupa na agremiação.

"O Raí é uma pessoa pública e tem todo o direito de expressar suas opiniões. Agora, não pode, quando está exercendo um cargo no São Paulo e, questionado sobre condutas do futebol, como diretor assalariado, fazer críticas ao governo", afirmou. "O estatuto do clube não permite manifestação política."

O estatuto do clube, no artigo 33, proíbe especificamente que "que associados promovam manifestações de caráter político, estranho ao objeto do São Paulo, nas dependências do clube".

Procurado pela reportagem, o presidente são-paulino, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, descartou qualquer medida contra o seu diretor-executivo. "A declaração do Raí revela a sua compreensão pessoal dos fatos, manifestada como forma de expressão de exercício da democracia", disse.

Assim como o filho fez durante o programa do SporTV, o conselheiro são-paulino declarou que sua contrariedade diante das declarações de Raí não tem viés político, mas sim o objetivo de preservar a imagem institucional da equipe: "Como o Caio colocou, não se trata de tomar um lado de direita ou de esquerda. Achamos que não se deve misturar clube com a política".

Sobre a discussão com Casagrande no programa, ele elogiou a postura do filho: "Como pai, você não gosta do seu filho sendo questionado como foi. Caio sempre foi assim, Deus queira que não mude".

Em fevereiro do ano passado, após a queda da equipe para o Talleres (ARG), na segunda fase da Copa Libertadores, Decoussau foi um dos conselheiros da oposição são-paulina que se reuniram com Leco para fazer cobranças. Ele nega que o objetivo tenha sido pedir a saída de Raí da diretoria de futebol.

"Eu critico o Raí, sim, os números dele como diretor de futebol estão aí. É meu amigo, meu ídolo, mas quem não pode receber críticas? O Raí é um ser infalível? É como todos nós", diz.

Raí assumiu o cargo em dezembro de 2017 e ainda não conseguiu ajudar o São Paulo a conquistar um título oficial, o que não ocorre desde a Sul-Americana de 2012.

Há uma semana, na entrevista que deu origem à polêmica, o ídolo são-paulino e hoje dirigente disse ao Globoesporte.com que Bolsonaro estava "no limite da irresponsabilidade" ao ir contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Durante o programa desta segunda, Caio ganhou uma espécie de direito de resposta após Galvão Bueno, que participava de sua casa, levantar o tema.

"O que me incomodou é que minha opinião não teve nenhum viés político. Eu não estou analisando se o Raí é de direita ou de esquerda, se é a favor ou contra o governo, nada disso. Ele tem todo o direito de emitir a opinião dele. O que me incomodou foi que me colocaram no meio de uma guerra política como se estivesse defendendo o governo, e em nenhum momento eu emiti opinião política", disse Caio.

O apresentador Cléber Machado, Casagrande e o comentarista Maurício Noriega foram contrários à visão de Caio e manifestaram apoio à postura de Raí.

O ex-jogador do Corinthians, inclusive, já havia usado sua conta no Instagram para elogiar o dirigente são-paulino, que é irmão de Sócrates (1954-2011), amigo de Casagrande e companheiro de time no clube do Parque São Jorge na época da Democracia Corintiana.

A crítica de Casagrande à opinião de Caio se deu justamente por considerá-la antidemocrática.

"Eu fui contra [a sua opinião], mas não fui agressivo, fui bem educado. Mas eu acho que você tem que ser mais claro", disse Casagrande.

"Mas eu fui", rebateu Caio.

"Não, não foi. Você está dizendo que foi claro só para as pessoas que te entenderam. E para as pessoas que não te entenderam, você não foi claro? Eu discordo quando você fala que o Raí só tem que falar de futebol, que não pode falar de política. Isso é antidemocrático. Ninguém pode censurar o que o outro está falando. Foge da democracia. [...] Então, você tem que ser mais claro, porque, nesses anos todos, não é a primeira vez que você tem que vir no 'Bem, Amigos!' explicar uma declaração porque você não é claro", afirmou Casagrande

Ele e Caio, mesmo com algumas intervenções dos outros participantes do programa, continuaram discutindo por mais alguns minutos. Até que Caio encerrou sua fala justificando mais uma vez a tomada de posição com relação a Raí.

"Só queria terminar dizendo o seguinte: a minha fala, para mim, é clara e coerente com o que eu penso e vocês têm o direito de discordar. Eu só queria reiterar de que não tem viés político, de que não tenho problema com o Raí. Mas eu continuo pensando dessa maneira: quando você representa um time, você tem que tomar mais cuidado", concluiu.

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