"Os gays russos não precisam da ajuda do Ocidente"

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Maksim é torcedor do Dínamo de Moscou e da Colômbia (Arquivo Pessoal)
Maksim é torcedor do Dínamo de Moscou e da Colômbia (Arquivo Pessoal)

Maksim é russo, torcedor fanático do Dínamo de Moscou e gay. Ele está animado com a Copa na Rússia e torce pela vitória da Colômbia, país do seu ex-namorado.

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O jovem, de 31 anos, diz que a preocupação dos torcedores gays em visitar a Rússia é “exagerada”. Ele se considera de oposição, critica o governo de Putin, mas repete os argumentos das autoridades russas: “Esse medo dos gays em vir para a Copa na Rússia é fruto de uma “russofobia” no mundo, uma propaganda anti-Rússia em todos os países do Ocidente”. Maksim garante que o país não é perigoso para os gays, mas faz uma ressalva: “Os gays que se comportarem adequadamente não terão problemas na Copa”. Ele explica: “Na Rússia, os gays devem ser discretos e respeitar as leis locais”.

A situação da população gay da Rússia saltou às manchetes do mundo inteiro em 2013, quando o governo federal do país aprovou uma lei para “proteger as crianças de informação que defenda a negação dos valores familiares tradicionais”. Em outras palavras: a lei russa proíbe que seja divulgada, para crianças, qualquer informação de apoio aos gays. Na prática, a lei vem sendo usada para legitimar discriminações verbais e agressões contra a minoria gay.

Maksim minimiza o problema. “Existe homofobia na Rússia, como em qualquer lugar, mas são quase sempre agressões verbais e não físicas”. Ele conta, no entanto, que já foi agredido e roubado por um taxista na saída de uma boate gay em Moscou. Mas tenta justificar a agressão: “Eu estava bêbado e não vejo conexão entre o roubo e o fato de eu ser gay ou sair de um lugar gay”. Maksim não vê relação entre a agressão que sofreu na saída da boate gay e a homofobia na Rússia, mas revela que, quando tem que pedir um táxi saindo dos lugares gays que frequenta, prefere agora se afastar dois quarteirões. “Melhor pedir de um lugar neutro, que não chame a atenção. Por segurança”, confidencia. Ele não é o único. Na Rússia, não são poucas as histórias de agressões nas proximidades de lugares para o público gay. Homossexuais se tornam vítimas mais fáceis porque, como quase nunca se sentem à vontade para assumir sua sexualidade publicamente, preferem não fazer nenhuma queixa oficial que deixe evidenciado que frequenta um lugar gay, em caso de agressão e roubo.

O ativismo gay do Ocidente é duramente criticado por Maksim. “Os gays russos não precisam da ajuda do Ocidente. Os gays fracos, sim, esperam ajuda de países estrangeiros, mas os homens russos, até mesmo os gays, não querem parecer fracos”. Ele acha que os protestos ocidentais não alteram em nada a vida do gay na Rússia e podem até mesmo fomentar as agressões contra gays no país. “Essas manifestações do Ocidente podem até piorar as coisas pros russos gays, mas os ocidentais não entendem e não querem entender”. O jovem explica que os protestos ocidentais em apoio à comunidade gay na Rússia resultam em um aumento de casos agressões contra gays porque o assunto volta à tona no país. “É como mostrar a cor vermelha para um touro”, resume.

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Os boicotes também não são vistos pelo rapaz com bons olhos. “Ninguém se importa com um possível boicote da comunidade gay à Copa. O Mundial não deve se envolver nas batalhas políticas”. Maksim também acha que os protestos por Internet não são eficazes. “Colocar uma hashtag na internet é como soltar um pum em um quarto vazio (risos). Para que temos que protestar sempre? Esse desejo de mudar coisas em outras países nem sempre é algo bom. Lembremo-nos bem o que acontece quando, por exemplo, os Estados Unidos querem forçar uma democracia nos países árabes”.

Ele diz com confiança que os estrangeiros gays que visitarem a Rússia vão se surpreender ao ver que os gays russos “vivem bem, como na Europa, e há muitas opções para se divertir; não é tão ruim como as pessoas do Ocidente acham”.

E enfatiza: “A regra é ter juízo e não incomodar o governo, nem os cidadãos locais e suas normas de vida. Tem que seguir as leis do lugar que você visita”. E completa: “Aqui na Rússia a gente diz que não se pode entrar em outro monastério com suas próprias regras”.

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