Os bastidores de uma pegadinha antológica no basquete universitário

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Gabe Pruitt durante sua passagem por USC (Kirby Lee/Getty Images)
Gabe Pruitt durante sua passagem por USC (Kirby Lee/Getty Images)

Por Jeff Eisenberg, original do Yahoo Sports, em 3 de março de 2016

Na véspera do último jogo da temporada 2005-06 da liga de basquete universitário, Gabe Pruitt, armador da USC, recebeu uma mensagem de uma admiradora secreta.

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O apelido SexyBruinBabe, com fonte rosa-chiclete, dizia que se chamava "Victoria", que estudava na UCLA e que estava de olho em Pruitt desde o começo da temporada.

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Quanto mais a conversa com Victoria se alongava, mais Pruitt ficava curioso. Victoria flertava descaradamente com Pruitt, enviando fotos e fazendo elogios ao "corpo atlético" dele. Pruitt respondia com frases do tipo "vc tem um corpaço" e "quero muito te ver agora".

Victoria acabou comentando que estava organizando uma festa no sábado à noite com as amigas. Ela convidou Pruitt e disse para ele levar alguns colegas de time. Pruitt aceitou o convite e marcou de encontrar a admiradora em Westwood, depois do jogo contra a Cal.

"Na época, eu só pensava em mulher, então fiquei vidrado nela", admite Pruitt ao Yahoo Esportes. "Eu estava com um colega de time, Chris Penrose, e estava louco para contar a ele sobre a mulherada que conheci."

Pruitt continuou empolgado com o encontro com "Victoria" até entrar na arena do time da casa e olhar para a arquibancada reservada para os alunos da Cal. Só então ele percebeu que Victoria era uma farsa e que tinha sido vítima de uma pegadinha, que acabou ficando conhecida como uma das mais diabólicas da história do basquete universitário.

Um grupo de alunos da Cal tinha cartazes que diziam "DISQUE GABE" em um dos lados, com o número de telefone dele no outro. Além disso, outros estudantes mostravam cartazes com fotos de "Victoria" e mensagens como "A gente se vê na UCLA hoje à noite". Enquanto os jogadores da USC se alinhavam para a execução do hino nacional, todos os alunos da Cal gritavam juntos: "Victoria! Victoria!"

"Só me lembro de pensar, 'Meu Deus'", conta Penrose, que também jogava de armador e dividia quarto com Pruitt nos jogos fora de casa. "Nunca vou me esquecer da cara do Gabe. Ele ficou muito abalado. É difícil até descrever a sensação de descobrir que um encontro tão esperado tinha sido uma grande armação e que todos os estudantes sabiam".

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Descobrir a identidade de quem armou tudo isso não foi fácil, porque durante muito tempo o autor não queria ser encontrado. Mesmo depois de se formar pela Cal em 2009, Steven Kenyon optou por não falar publicamente sobre o assunto durante anos, com medo de que um futuro empregador não achasse graça desse tipo de "brincadeira".

Agora, depois de mais de 10 anos, Kenyon não se preocupa tanto com isso. Ele conta ao Yahoo Esportes que o objetivo era tirar a concentração de Pruitt para dar uma vantagem competitiva à Cal, algo que ele vinha fazendo com os adversários durante toda a temporada daquele ano.

Grande fã do basquete da Cal e agitador de torcida, Kenyon geralmente chegava cedo aos jogos em casa para conseguir um lugar na quadra o mais próximo possível do banco adversário. Em vez de recorrer a xingamentos ou clichês como a maioria dos agitadores, Kenyon fazia amizade com dezenas de jogadores adversários nas redes sociais e procurava possíveis brechas.

"O Facebook ainda era novidade", conta Kenyon. "Ninguém estava preocupado com segurança e privacidade nas redes como agora. Todos os atletas da liga me adicionavam direto e eu tinha números de telefone, endereços de e-mail, apelidos, fotos pessoais, nome de namoradas... E isso me fez pensar: ‘Como posso tirar vantagem disso para ajudar o time?’".

Às vezes, ele zombava do programa de TV ou filme preferido de algum jogador adversário. Outras vezes, ele levava aos jogos as fotos mais vergonhosas de um jogador postadas no Facebook. As reações eram extremamente variadas; um ala da Universidade de Akron, por exemplo, respondeu com insultos. Brook e Robin Lopez, de Stanford, acharam muito engraçado e até cumprimentaram Kenyon depois do apito final.

Quando Cal entrou na última semana da temporada 2005-06 precisando de pelo menos uma vitória para garantir a vaga no Torneio da NCAA, Kenyon chegou à conclusão de que seus métodos de distração habituais não eram suficientes para jogos tão importantes. Assim, o calouro da Cal decidiu arriscar mais, tentando enganar um jogador adversário com a ajuda dos dados de contato que tinha em mãos.

Como a UCLA estava em 15º lugar nos rankings e era a primeira adversária da Cal naquela semana, o armador Jordan Farmar foi o primeiro alvo de Kenyon. Ele criou o nickname SexyBruinBabe no AOL Instant Messenger, colocou a imagem de uma atleta da Cal, loira e bem bonita, e decidiu usar o pseudônimo de Victoria.

"Se tivesse nascido mulher, eu me chamaria Victoria", conta Kenyon. "Por isso escolhi esse nome".

Alguns dias antes da chegada da UCLA à arena Haas Pavilion, Kenyon se passou por Victoria e flertou com Farmar por mensagem. O futuro astro dos Lakers não caiu na armadilha. Kenyon não desistiu e decidiu se dedicar ao próximo desafio contra a USC, esperando que Pruitt fosse um alvo mais fácil. O segundo maior pontuador dos Trojans mordeu a isca.

Já nos primeiros minutos da conversa, Pruitt pediu para trocar fotos por e-mail. Então, Kenyon teve que pensar rápido e criar um e-mail para Victoria. Para manter a fachada e se passar por Victoria depois de trocar telefone com Pruitt, Kenyon também precisou da ajuda de uma amiga para gravar uma nova mensagem de voz no seu celular.

Ele teve todo o cuidado para que as fotos de "Victoria" não tivessem nenhum acessório de Cal nem mostrassem elementos da cidade de Berkeley no fundo. As fotos que recebeu de Pruitt incluíam algumas pérolas. Em uma delas, ele mostra os músculos fazendo pose no espelho, em outra, ele aparece vestindo o uniforme do time de basquete da UCLA para impressionar Victoria.

Para espalhar a notícia, Kenyon enviou e-mails para vários amigos que provavelmente assistiriam ao jogo da Cal contra a USC. Ele anexou algumas das fotos trocadas e a transcrição das conversas entre Victoria e Pruitt.

Quando a bola subiu, todos os alunos da Cal que estavam na arena já sabiam da história. As fotos e os trechos da conversa entre Pruitt e Victoria foram impressos e colocados em todos os assentos reservados aos alunos.

"A pegadinha foi muito bem feita", comenta Penrose. "Quando a torcida deles começou a gritar 'Victoria', todo o nosso banco ficou olhando para mim e para o Gabe, porque só nós dois sabíamos o que estava acontecendo. Eu tive que explicar a situação enquanto o jogo estava começando".

A pegadinha de Kenyon deu certo. A Cal conseguiu uma vitória fundamental, com um placar de 71 a 60 e ficou em terceiro lugar no Pac-10. Distraído, Pruitt fez um dos piores jogos da carreira, cedendo seis turnovers e convertendo apenas três dos 13 arremessos disparados.

"Foi uma combinação de fatores. Por um lado, a torcida, por outro, eu querendo fazer o melhor jogo da minha vida para dar o troco", diz Pruitt. "Eu fiquei com aquilo martelando na minha cabeça o jogo inteiro."

Gabe Pruitt (Christian Petersen/Getty Images)
Gabe Pruitt (Christian Petersen/Getty Images)

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Até mesmo Kenyon ficou impressionado com a proporção que a pegadinha tomou.

Inicialmente, a ideia era só pegar um pouco no pé de Pruitt durante o jogo com alguns amigos. Ele não esperava que milhares de colegas entrassem na brincadeira, nem que a notícia se espalhasse pelo mundo em blogs e fóruns de discussão.

Kenyon chegou a ser questionado por alguns funcionários da Cal, que o retiraram do assento para saber se ele tinha alguma coisa a ver com aquilo, mas não houve maiores repercussões. Alguns torcedores de USC, irritados, ameaçaram espancar a mente por trás da pegadinha ou entrar na justiça contra ele, mas nenhum deles chegou levar isso a cabo.

A pegadinha também serviu como um exemplo para outras universidades que queriam impedir que seus atletas cometessem o mesmo erro de Pruitt. Kenyon recebeu várias ligações e mensagens de texto de atletas conhecidos de outras universidades da liga dizendo que a pegadinha "Victoria" tinha sido comentada em seminários de orientação para calouros e em treinamentos sobre redes sociais.

Depois de se formar em Cal e fazer mestrado em gestão esportiva pela Universidade de São Francisco, Kenyon agora trabalha para um time de futebol profissional recém-formado em São Francisco. Ele admite que a pegadinha pode ter cruzado a linha entre uma brincadeira de um torcedor e comportamento nocivo, mas insiste que não se arrepende, porque a história se tornou motivo de orgulho para os alunos e ex-alunos de Cal.

"Ainda hoje, se você digitar 'Gabe Pruitt' e 'Victoria' no Google, com certeza vai encontrar blogs que falam dessa pegadinha", diz Kenyon. "Alguns comentários são de pessoas dizendo que esse foi o dia mais feliz de sua vida, que serão Golden Bears para sempre. Ler esse tipo de comentário me deixa muito feliz. É como se eu tivesse levantado a bandeira de Cal para o mundo inteiro tocar nela".

O único aspecto da brincadeira do qual Kenyon se arrepende é de ter divulgado o número de telefone de Pruitt nos e-mails que enviou aos amigos. Alguns dias depois do jogo, ele até mandou uma mensagem a Pruitt pedindo desculpas.

"Lamento muito que as pessoas estão ligando para você, atrapalhando a sua vida", escreveu Kenyon. "Sei que isso não é justo".

Mostrando grande maturidade, Pruitt respondeu: "Tudo bem. Preciso dar um jeito nisso. Mas tenho que admitir, a pegadinha foi muito bem feita".

A brincadeira pode não ter sido engraçada para o time de USC no dia do jogo, mas acabou se tornando um grande motivo de zoação e risadas. Amigos, colegas de time e até o técnico de USC, Tim Floyd, provocaram Pruitt por meses.

"Sempre que a galera queria zoar o Gabe no treino ou em uma reunião, era só gritar: "Victoria! Victoria!", conta Bob Cantu, ex-assistente técnico de USC. "Acho que ele ficou com essa história na cabeça por muito tempo."

Até hoje, Pruitt ainda não se livrou da pegadinha, nem mesmo depois de dois anos no Boston Celtics e cinco temporadas na D-League e no exterior. Os amigos de USC ainda revivem a história com ele sempre que possível.

"Não dava nem para ficar irritado porque foi uma pegadinha muito bem feita", explica Pruitt. "E eu caí."

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