Os atletas têm que dar a cara a tapa para limpar o vôlei brasileiro, diz Murilo

GUILHERME SETO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Murilo Endres, 35, é de espécie rara em diferentes sentidos. Jogou na seleção como ponteiro, posição na qual o Brasil já teve craques em um passado recente, como Giba e Dante, mas que hoje vive escassez de representantes.

Além disso, há anos Murilo insiste em dar a cara a tapa e confrontar publicamente a Confederação Brasileira de Vôlei a cada nova notícia sobre irregularidades. Na última semana, ele voltou à carga após revelação do jornalista Juca Kfouri de que a Fazenda encontrou "indícios de atipicidade" em transações entre a Confederação Brasileira de Vôlei e empresa de Fábio Azevedo, braço direito de Ary Graça, ex-presidente da CBV e atual da Federação Internacional.

"Literalmente saquearam o vôlei e ninguém da 'nova gestão' fez nada pra investigar ou punir! Agora querem lavar as mãos!", escreveu em sua conta nas redes sociais.

Pergunta: O Brasil já teve uma seleção com Giba, Dante, Giovane e Nalbert. Hoje vive uma crise dos ponteiros. Por que isso aconteceu? Naturalizar o cubano Leal é uma boa opção?

Murilo: Acho que são safras. Já tivemos crises de central, de opostos... Sempre vem uma geração mais qualificada para certas posições. A gente pode até ter escassez, mas somos atuais campeões olímpicos e revezando bastante os ponteiros: jogaram Maurício, Lucarelli e Lipe, o Douglas estava mas participou menos. É difícil até falar sobre isso. Temos que investir mais nas categorias de base, gostaríamos de ver mais garotos de 18 anos com potencial para vislumbrar o futuro. Temos que administrar isso. Às vezes de uma temporada para outra um garoto recebe uma oportunidade e vai bem. Posso citar até o caso do Rodriguinho [ponteiro de 20 anos], do Cruzeiro, que está muito bem e a seleção tem que ficar de olho nele.

Sobre o Leal, não fico à vontade para falar sobre isso. É uma questão dele com o país e depois com o técnico, e eu nem na seleção estarei mais [na Olimpíada]. É muita polêmica. A gente jogou contra ele uma final de Mundial em 2010, então eu o vejo como um adversário. Mas se for algo permitido pela lei, deixo para os envolvidos decidirem.

P: Você tem duas pratas olímpicas e foi cortado antes da Rio-2016. Você se sente frustrado?

M: Lógico. Quem não gostaria de ter estado lá? E cheguei tão perto, depois de um ciclo olímpico tão difícil, com lesões, superações. Foi difícil ser cortado às vésperas dos Jogos.

P: Após o seu corte, você disse que faltou transparência ao Bernardinho. Ficou magoado?

M: Eu falei em transparência do ponto de vista pessoal. Minha primeira convocação foi em 2003, passamos por poucas e boas, e infelizmente eu fiquei sabendo que não participaria no próprio dia do corte. Voltei para casa e fiquei buscando explicação e me questionei bastante sobre o porquê de ele não ter falado comigo antes. Eu estava com um problema na panturrilha e poderia ter voltado para o Brasil e fazer exames. Por essa amizade que a gente tinha eu gostaria que tivesse falado comigo antes.

P: Você anunciou sua aposentadoria da seleção brasileira. Por outro lado, Sergei Tetyukhin, ponteiro russo, jogou no Rio aos 40 anos. Pensa em voltar?

M: Eu adoraria jogar para sempre pela seleção. O Serginho, também com 40, foi campeão no Rio, mesmo que seja líbero. Eu tenho consciência de que fisicamente tem ficado muito difícil para a minha posição. Hoje em dia a gente tem mais ponteiros de força, de ataque, parecidos com opostos, do que os de recepção, de habilidade e de fundo de quadra, como eu. O vôlei está muito físico, e eu teria que estar muito bem fisicamente para voltar à seleção, o que não tem acontecido nos últimos anos, infelizmente. É mais uma questão de consciência de que não estou no nível de quem representa a seleção hoje. Acho que ninguém diria não à seleção. Mas o ciclo olímpico até 2020 será muito pesado.

P: Há ainda a chance de que a sua prata de Londres-2012 vire ouro, já que o Giba recebeu a informação de que os campeões russos foram flagrados no doping. Você torce por isso?

M: Não. O sentimento é o de derrota, nós perdemos. Se existe a possibilidade de doping, que investiguem. Mas mesmo que mudem a cor da nossa medalha o sentimento será o mesmo. Eu só gostaria que as entidades investigassem e corressem atrás, que não é o que estamos vendo.

P: No auge dos escândalos da CBV em 2014, quando a Controladoria-Geral da União identificou irregularidades no uso de dinheiro público por parte da entidade, você disse 'tem gente ficando rica às custas de ossos, joelhos, ombros e tornozelos'. Mudou alguma coisa desde então?

M: Na semana passada saíram mais notícias sobre contratos, empresas e favorecimentos [Murilo se refere à revelação de que a Fazenda encontrou indícios de atipicidade em transações entre CBV e a empresa do Fábio Azevedo]. Trocaram o presidente [Graça renunciou após os escândalos], mas o atual presidente [Walter Laranjeiras, o Toroca] já foi presidente e está como vice há décadas [de 1984 a 2012]. Não vejo uma gestão diferente como estão tentando empurrar. "Não foram mais feitos contratos com as empresas [acusadas de favorecimento]". Mas é lógico, é só o que me faltava! Isso me irrita bastante: quem se diz gestor da CBV hoje não procurou punir os envolvidos e não fez nada contra isso. O caso da natação [a Polícia Federal prendeu quatro dirigentes da CBDA na semana passada em investigação de desvio de verbas] foi muito menor e os caras já foram presos. O esporte precisa disso. Temos que dar a cara a tapa para limpar o vôlei. Além disso, todos esses escândalos impactaram financeiramente o vôlei brasileiro. A imagem foi manchada e o dinheiro de patrocínio reduziu. Quem quer associar sua marca a esse tipo de coisa?

P: Você acha que as posturas da CBV são muito passivas?

M: Acho que sim. Apesar de falarem em nova gestão, o Toroca foi vice presidente durante todo o período. Não vejo como passar por todo esse período e dizer que não viu nada e não tentar punir ninguém nem correr atrás do dinheiro que é do vôlei. Ele não aparece. Desde a primeira denúncia nós não ouvimos a voz dele. Sempre se escondendo atrás de um gestor. Acho o cúmulo, um absurdo, o nosso presidente, o homem forte do voleibol, não se posicionar. Cobro até que um dia ele se posicione, e não com a famosa "nota oficial", que é muito fácil, já que ninguém sabe quem escreveu.

P: No esporte, poucos atletas se posicionam publicamente com tanta firmeza. Sendo assim, você aparece quase como uma voz solitária.

M: O Bruno [levantador, filho de Bernardinho e parceiro de Murilo no Sesi], o Gustavo [irmão de Murilo] e o William têm falado bastante. Alguns outros atletas dizem "ah, eu não tenho a mesma representatividade que você, ninguém vai se interessar pelo que eu tenho a dizer". Mas acho que todos deveriam cobrar. E não é só seleção. O dinheiro do vôlei é também para o campeonato brasileiro, para a base, para o feminino. Todos têm o direito de reivindicar esse dinheiro para a comunidade do vôlei.

P: E por que você dá a cara a tapa assim, correndo o risco de ser malvisto?

M: Primeiro, porque eu acho certo. Segundo, porque precisa. No Brasil a gente espera a poeira baixar, empurra para debaixo do tapete e deixa lá.

P: Você já sofreu represália por suas posições? Acha que o seu corte da Rio-2016 teve alguma relação com o protesto que você organizou no qual os atletas usaram narizes de palhaço?

M: Não, o corte não teve nada a ver. E até hoje não fui prejudicado por me posicionar.