Órgãos de imprensa e secretários de Saúde articulam contagens paralelas dos dados da Covid-19

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As ações representam uma resposta à mudança na forma da divulgação dos dados feita pelo governo federal. (Foto: AP Foto/Ted S. Warren, File)
As ações representam uma resposta à mudança na forma da divulgação dos dados feita pelo governo federal. (Foto: AP Foto/Ted S. Warren, File)

Os veículos Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, G1 e UOL decidiram formar uma parceria e trabalhar de forma colaborativa para buscar as informações necessárias nos 26 Estados e no Distrito Federal sobre a pandemia do novo coronavírus. Além dessa frente, o Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde) lançou, no domingo (7), um painel próprio de informações, reunindo dados de contaminados e de óbitos em contagem paralela à do governo.

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As duas ações são respostas à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso a dados sobre a pandemia de Covid-19. O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, deveria ser a fonte natural desses números, mas atitudes recentes de autoridades e do próprio presidente colocam em dúvida a disponibilidade dos dados e sua precisão.

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Em uma iniciativa inédita, equipes de todos os veículos vão dividir tarefas e compartilhar as informações obtidas para que os brasileiros possam saber como está a evolução e o total de óbitos provocados pela Covid-19, além dos números consolidados de casos testados e com resultado positivo para o novo coronavírus. O balanço diário será fechado às 20h.

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Em razão das omissões, a parceria entre os veículos de comunicação vai coletar os números diretamente nas secretarias estaduais de Saúde. Cada órgão de imprensa divulgará o resultado desse acompanhamento em seus respectivos canais. O grupo vai chamar a atenção do público se não houver transparência e regularidade na divulgação dos dados pelos Estados.

— Neste momento crucial, deixamos nossa concorrência de lado por um bem comum: levar à sociedade o dado mais preciso possível sobre a pandemia. Essas informações orientam as pessoas e as políticas públicas. Sem elas, o país mergulha em um voo cego. O jornalismo cumprirá seu papel — afirmou Alan Gripp, diretor de redação de O Globo.

— A missão do jornalismo é informar. Em que pese a disputa natural entre veículos, o momento de pandemia exige um esforço para que os brasileiros tenham o número mais correto de infectados e óbitos — afirmou Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Globo (TV Globo, GloboNews e G1). — Face à postura do Ministério da Saúde, a união dos veículos de imprensa tem esse objetivo: dar aos brasileiros um número fiel.

— Numa sociedade organizada como a brasileira, é praticamente impossível omitir ou desfigurar dados tão fundamentais quanto o impacto de uma pandemia. Com essa iniciativa conjunta de levantamento de dados com os Estados, deixamos claro que a imprensa não permitirá que nossos leitores fiquem sem saber a extensão da Covid-19 — afirmou Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

— É nossa responsabilidade cotidiana transmitir informações confiáveis para a sociedade. E, agora, no momento mais agudo da pandemia, precisamos assegurar à população o acesso a dados corretos o mais rápido possível, custe o que custar — disse Murilo Garavello, diretor de Conteúdo do UOL.

— É triste ter que produzir esse levantamento para substituir uma omissão das autoridades federais. Transparência e honestidade deveriam ser valores inabaláveis na gestão dessa pandemia. Vamos continuar cumprindo nossa missão, que é informar a sociedade — afirmou João Caminoto, diretor de Jornalismo do Grupo Estado.

Painel de dados do novo coronavírus no Brasil, lançado no domingo pelo Conass. (Foto: Reprodução)
Painel de dados do novo coronavírus no Brasil, lançado no domingo pelo Conass. (Foto: Reprodução)

Já o painel que o Conass colocou no ar neste domingo segue o modelo adotado pelo Ministério da Saúde antes da guinada promovida nos últimos dias.

Há o total de casos confirmados, de óbitos, o número de mortes nas últimas 24 horas e os dados separados por estados, com a taxa de letalidade de cada um deles -divisão dos casos pelo número de óbitos.

AS MUDANÇAS NOS DADOS DA COVID

Mudanças feitas pelo Ministério da Saúde na publicação de seu balanço da pandemia reduziram a quantidade e a qualidade dos dados. Primeiro, o horário de divulgação, que era às 17h na gestão do ministro Luiz Henrique Mandetta (até 17 de abril), passou para as 19h e depois para as 22h. Isso dificulta ou inviabiliza a publicação dos dados em telejornais e veículos impressos. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente Jair Bolsonaro, em tom de deboche, ao comentar a mudança.

A segunda alteração foi de caráter qualitativo. O portal no qual o ministério divulga o número de mortos e contaminados foi retirado do ar na noite da última quinta-feira. Quando retornou, depois de mais de 19 horas, passou a apresentar apenas informações sobre os casos “novos”, ou seja, registrados no próprio dia. Desapareceram os números consolidados e o histórico da doença desde seu começo. Também foram eliminados do site os links para downloads de dados em formato de tabela, essenciais para análises de pesquisadores e jornalistas, e que alimentavam outras iniciativas de divulgação.

Entre os itens que deixaram de ser publicados estão: curva de casos novos por data de notificação e por semana epidemiológica; casos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica; mortes por data de notificação e por semana epidemiológica; e óbitos acumulados por data de notificação e por semana epidemiológica.

No último domingo, o governo anunciou que voltaria a informar seus balanços sobre a doença. Mas mostrou números conflitantes, divulgados no intervalo de poucas horas.

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