Orelhinha Bonitinha: Vale-tudo de Crivella expõe crianças vítimas de bullying em propaganda

Matheus Pichonelli
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Rio de Janeiro's Mayor Marcelo Crivella gestures during a meeting with Brazil's Finance Minister Henrique Meirelles in Brasilia, Brazil February 21, 2018. REUTERS/Adriano Machado
O prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Foto: Adriano Machado/Reuters

No futebol, quando o jogo está apertado e não há mais nada a perder, esquema e organização tática dão lugar ao famoso abafa.

É quando zagueiro deixa a posição de defesa e vira centroavante pra tentar alguma coisa lá na frente.

Foi mais ou menos isso que fez o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, ao escalar crianças que passaram por cirurgia para corrigir “orelhas de abano” em sua propaganda eleitoral.

Sem decolar nas pesquisas e sob risco de não ir nem para o segundo turno, o candidato à reeleição parece ter chegado à fase do abafa na campanha.

Em um vídeo de 30 segundos, crianças contam como superaram o bullying graças a um mutirão do programa “Orelhinha Bonitinha” promovido pela gestão Crivella. Contam, inclusive, os xingamentos que recebiam dos amigos.

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Faltou aos marqueteiros da campanha avisarem que o risco era sofrer outra onda de bullying por causa da exposição (indevida?). Nas redes e grupos de WhatsApp, teve até quem comparasse a peça a um esquete do grupo Hermes e Renato. (Em respeito a elas, não vamos replicar a propaganda por aqui).

No site da prefeitura, a referência mais recente ao programa dizia que 36 pessoas foram beneficiadas pela intervenção denominada otoplastia em um mutirão. Na propaganda, Crivella fala em 28 mil atendimentos.

O fato é que a propaganda transformou decisão individual, e envolvendo crianças, em uma ferramenta de propaganda política. Não é o único problema da peça.

Em sua campanha pela reeleição Crivella conta com o apoio da família Bolsonaro. Eis o que o presidente amigo disse, durante a campanha de 2018, sobre bullying: “Quando era criança não tinha essa história de bullying. O gordinho dava pancada em todo mundo. Hoje o gordinho chora”.

Para Bolsonaro, “tudo agora é coitadismo”. “Coitado do negro, coitado da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense. Vamos acabar com isso”.

Uma vez eleito, o presidente se queixou, em uma live, que o país estava muito “chato” porque supostamente não se podia mais fazer piadas. “Falou que o cara pesa oito arrobas, não pode. Aquela polêmica toda! Criticou a mulher! Criticou gay! Não dá pra continuar assim! Estamos perdendo o direito de fazer piada no Brasil. Tudo agora tem que ser politicamente correto. Temos que pensar, será que vou ofender as gordinhas? Vou ser chamado de gordofóbico?”

É com um aliado assim que Crivella quer se vender como guerreiro do povo carioca engajado contra o bullying?

A validade da estratégia está a cargo agora do eleitor. É ele quem vai avaliar se o mutirão teve alcance de fato para ser citado como conquista da gestão.

Mas não deixa de ser curioso que o candidato seja da mesma turma que arranca os cabelos diante de qualquer projeto relacionado, por exemplo, ao combate da homofobia nas escolas -- um problema que, no limite, pode levar à violência, à depressão e ao suicídio. Como senador, Crivella foi um dos autores do projeto que isenta padres e pastores de qualquer responsabilidade por associarem sexualidade a pecado. Como prefeito, fez um escarcéu na Bienal do Livro por uma cena de beijo entre dois personagens de HQ.

Só que sexualidade não se corrige com cirurgia ou censura. Nem com terapia, como a turma quer fazer crer.

Crivella pode até tentar ficar bem no vídeo. Mas combater bullying é outra coisa.