Orcampi se reergue e mantém atividade expressiva no atletismo

Yahoo Esportes
Equipe de revezamento da Orcampi no Troféu Brasil de 2019 (Wagner Carmo/CBAt)
Equipe de revezamento da Orcampi no Troféu Brasil de 2019 (Wagner Carmo/CBAt)

Por Alessandro Lucchetti

Pouca gente viu. O Troféu Brasil foi disputado no Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo (CDNA), localizado à beira de uma estrada que vai para Bragança Paulista. Nenhuma emissora de TV fez questão de exibir a competição, acessível apenas por streaming, graças ao trabalho da TV NSports. Na classificação por equipes, a Orcampi foi vice-campeã, atrás apenas do endinheirado Esporte Clube Pinheiros.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

SIGA O YAHOO ESPORTES NO INSTAGRAM

Por falar em dinheiro, a situação da Orcampi já foi bem melhor. A equipe campineira, que treina numa pista localizada no interior de um amplo condomínio chamado Swiss Park, era parceira da B3 (antes conhecida como BM&F), a mais poderosa equipe do atletismo, que encerrou atividades no final do ano passado. O fim do investimento da Bolsa de Valores de São Paulo na modalidade foi anunciado em janeiro, mas a verba foi cortada apenas em dezembro de 2018. Com cobertor curto, Ricardo D’Angelo chegou a dizer que a equipe teria apenas 15 atletas em 2020. Hoje, já projeta um cenário em que pelo menos 30 competidores remunerados representem a agremiação. É ainda um número magrinho em comparação com o poderio de outrora. No Troféu Brasil de 2018, a Orcampi inscreveu cerca de cem atletas. 

No ano passado, os atletas da Orcampi foram aconselhados a buscar transferência para outras equipes. Alguns se aposentaram e outros se tornaram guias de atletas paralímpicos. Hoje, D’Angelo considera que o pior ficou para trás. “Temos um projeto baseado na Lei de Incentivo que está para ser aprovado. Conseguiremos pagar bolsa-auxílio a pelo menos 30 atletas”, diz o dirigente. As bolsas variam de R$ 600 a R$ 2,4 mil reais. Hoje, a Orcampi conta com alguns apoiadores: CPFL, Samsung, 3M e Unimed. Existe a possibilidade de a Comgás aderir.

Parte dos atletas que não obtiveram transferência para o Pinheiros, que paga os melhores salários do país, decidiu permanecer na Orcampi, que oferece moradia (12 casas com três vagas em cada uma delas), além de plano de saúde, alimentação e vale-transporte. Aqueles que contam com soldo oferecido pelas Forças Armadas, por meio do PAAR (Programa de Atletas de Alto Rendimento) ou Bolsa-Atleta, do governo federal, conseguem navegar nos tempos de dificuldade de maneira menos tormentosa. 

É o caso de Érica Sena, quarta colocada na marcha atlética de 20km do Mundial de Doha, em setembro. A pernambucana mora em Cuenca, no Equador, onde treina com o marido e treinador Andrés Chocho. A marchadora continua vinculada à Orcampi, apesar de não receber salários, e só não foi a Bragança para disputar o Troféu Brasil porque a equipe não pôde lhe enviar uma passagem aérea, segundo D’Angelo.

“É uma atleta de um caráter e de uma personalidade muito corretos. É claro que, no momento em que a situação financeira melhorar, vamos lembrar dela no primeiro momento”.

Se a situação da Orcampi está melhor, o mesmo não se pode dizer da gestão da Confederação Brasileira de Atletismo, que “escondeu” o Troféu Brasil em Bragança. Em parte devido à distância da capital paulista, poucas equipes de reportagem foram deslocadas à terra da linguiça. O grupo Globo, que costumava exibir a competição pelo canal SporTV, este ano optou por enviar apenas uma equipe de reportagem. Mesmo com a forte possibilidade de que Paulo André batesse o recorde brasileiro dos 100m rasos, raros jornalistas estiveram presentes no CDNA. Segundo D’Angelo, empresas estrangeiras com know how para a organização de meetings e GPs têm interesse em organizar eventos de atletismo na América do Sul. “A Global Sports Communication gostaria de organizar três GPs no continente, sendo um no Brasil, mas esbarra na CBAt, que se incumbe de realizar eventos, função que não deveria exercer”, critica o dirigente.

Como se sabe, dirigentes de outras confederações já utilizaram o artifício de inflar artificialmente despesas decorrentes de organização de eventos. A realização do Mundial feminino de handebol de 2011 é um capítulo à parte, a título de exemplificação. 

O fluxo insatisfatório de recursos de patrocínio e uma gestão da CBAt que merece algumas críticas, no entanto, não impediram que o Brasil registrasse uma participação digna no Mundial de Doha: foram oito finais. Vozes mais críticas do atletismo, no entanto, não concordam com a avaliação exageradamente otimista de jornalistas que se empolgaram com esse número.

“Um número elevado de brasileiros em finais não é algo inédito. A diferença é que, em edições anteriores do Mundial, registramos quantidades de finais similares, mas voltamos com medalha”, diz D’Angelo.

Constata-se que a empolgação é ainda mais infundada quando se compara a performance brasileira com as de países vizinhos. Colômbia, Venezuela e Equador medalharam em Doha. “A CBAt recebe R$ 15 milhões da Caixa Econômica Federal, R$ 5,4 milhões provêm da Lei Agnelo/Piva e o COB destina R$ 4 milhões a título de projetos especiais ligados a atletas do atletismo. Se a Colômbia, por exemplo, dispusesse desse volume de recursos, o que não teria feito no Mundial? Será que devemos comemorar tanto assim essas oito finais?”, pergunta D’Angelo. 

Siga o Yahoo Esportes

Twitter | Flipboard | Facebook | Spotify | iTunes | Playerhunter

Leia também