Ontem foi João Alberto, quem será o próximo negro vitimado no Carrefour?, diz advogada

Alma Preta
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Advogada e integrante da Coalizão Negra Por Direitos avalia ainda que casos como o do Carrefour ocorrem por falta de um processo rígido na contratação de empresas de segurança privada
Advogada e integrante da Coalizão Negra Por Direitos avalia ainda que casos como o do Carrefour ocorrem por falta de um processo rígido na contratação de empresas de segurança privada

Texto: Victor Lacerda Edição: Nataly Simões

Pode-se dizer que 2020 será um ano marcado pelas discussões, em escala mundial, sobre os efeitos do racismo na vida das pessoas negras. Mas embora o debate sobre o tema tenha aumentado, os casos de violência com motivação racial não deixaram de acontecer.

Além dos casos de George Floyd e Breonna Taylor, nos EUA, no Brasil houveram casos emblemáticos de violência racial e que motivaram às pessoas a irem para as ruas, assim como o assassinato de João Alberto Silveira, de 40 anos, espancado até a morte por dois seguranças brancos em uma unidade do Carrefour, no bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre (RS).

Um dos casos que mais chocaram foi o de João Pedro,de 14 anos, que estava dentro de casa quando foi assassinado a tiros em 18 de maio durante uma ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e de agentes da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Sem a autorização da família, o adolescente foi levado no helicóptero de operações e os pais só o reencontram no Instituto Médico Legal (IML), para o reconhecimento do corpo.

Na Região Metropolitana do Recife, no fim de outubro, outro jovem de 17 anos também foi morto com um tiro de fuzil em uma ação policial na comunidade do Alto da Colina. Lucas da Luz Márcio da Rocha foi atingido no tórax na tentativa de correr após ser pego de surpresa durante uma abordagem.

A advogada Sheila Carvalho, que atua na área de direitos humanos, destaca que o caso mais recente, envolvendo o Carrefour, não deve ser tratado como uma situação isolada. “Não é a primeira vez que o Carrefour protagoniza uma situação de violência dentro de suas unidades e é conivente em relação a esses crimes. O Carrefour também não é a única empresa que tem permitido atos de tortura e homicídios fundados no racismo e que não adota nenhuma mudança prática para que os crimes não se repitam”, alerta.

Dois meses atrás, em setembro, uma funcionária da rede de supermercados foi demitida de uma unidade no Rio de Janeiro após denunciar racismo e intolerância religiosa por parte de outro funcionário da empresa. Nataly Ventura, de 31 anos, prestava serviço como auxiliar de cozinha e teve no seu avental escrito a frase “só para branco usar”.

Em fevereiro de 2019, uma unidade do supermercado Extra, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, também foi cenário de assassinato de um jovem negro por um segurança. Pedro Henrique Gonzaga, de 19 anos, foi imobilizado e sufocado até a morte.

Quase dois anos depois, no início de novembro, veio à tona um outro caso de racismo envolvendo a loja do Grupo Pão de Açúcar. Um casal negro alegou ter sido alvo de racismo após ser acusado por um funcionária de furto em uma unidade do Extra, no bairro Aeroporto, em São Paulo. Na ocasião, quando uma das vítimas mostrou a bolsa havia uma bíblia e nenhum produto furtado.

Sheila Carvalho destaca que o racismo e a brutalidade por parte dos seguranças das redes de supermercado muitas vezes decorrem do fato de os ocupantes desses cargos serem pessoas que já passaram por forças policiais e que, inclusive, foram demitidas por abuso de poder.

“Ontem foi João Alberto, quem será a próxima pessoa negra vitimada dentro do Carrefour? É fundamental que essas redes de supermercados façam um processo rígido de contratação das empresas privadas de segurança, visto que muitas dessas pessoas que cometem esses crimes antes foram expulsas de corporações como a polícia por situações de violência”, explica a advogada, que também integra a Coalizão Negra Por Direitos, organização que reúne mais de 150 entidades do movimento negro organizado.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), oito a cada dez pessoas assassinadas em ações policiais no país são negras. Sheila acrescenta que apesar de 2020 ter sido um ano de aumento da discussão da agenda antirracista, a sociedade ainda precisa avançar para que casos como o de João Alberto, no Carrefour, deixem de existir.

“Ainda temos muito a avançar para que o discurso antirracista também seja uma prática e para que crimes como esse, em uma data tão simbólica para o movimento negro como o Dia da Consciência Negra, parem de acontecer”, conclui.