Olimpíada: com cegueira parcial, Ícaro Miguel, do taekwondo, busca pódio em meio a sacrifícios

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Com a mão, como um pirata, ao posar para fotos, virou o emblema do lutador de taekwondo Ícaro Miguel, de 26 anos, que estreia hoje na Olimpíada, às 22h15, contra o italiano Simone Alessio, na categoria peso médio (até 80kg).

Quando criança, Ícaro foi vítima de um grave acidente doméstico que o marcaria para o resto da vida. Sua mãe confundiu os frascos e pingou amônia em vez de água boricada na vista irritada pelo cloro após um dia inteiro na piscina, queimando córnea, retina e nervo óptico, e deixando o menino praticamente cego daquele olho.

A deficiência não foi obstáculo para que o garoto nascido em Belo Horizonte e criado em Betim ingressasse aos 8 anos no esporte, mesmo com apenas 10% da visão direita. Desde aquela época, a Olimpíada já fazia parte dos seus sonhos. O que era um desejo remoto, com o tempo virou um objetivo de vida.

O problema na visão acabou fortalecendo a perseverança de Ícaro em virar um atleta de alto nível. Ele lutou muito em busca desse objetivo e passou os anos finais da adolescência se dedicando por completo aos tatames. Chegava a emendar um treino no outro e, para aprimorar os reflexos, colocava um tapa-olho na vista intacta nos treinamentos.

O sonho de disputar uma Olimpíada aos poucos foi ganhando corpo, a ponto de Ícaro abrir mão de fazer um trasplante de córnea, que poderia lhe restabelecer a visão, para não ter que se afastar dos treinamentos.

— Eu tinha duas opções: fazer o transplante ou permanecer lutando. A minha escolha todo mundo já sabe. O transplante podia ser adiado, mas viver sem fazer o que amo não faria sentido para mim. Preferi abrir mão para continuar atrás do meu sonho. Vou deixar para correr atrás do transplante depois que encerrar a carreira — disse o lutador ao GLOBO.

Embora seja uma cirurgia com boa possibilidade de êxito, um transplante de córnea não se trata de um procedimento simples. Ele exige uma série de sacrifícios até a operação e paciência para encarar as prescrições de recuperação.

— Um transplante não é uma solução rápida nem garantida. É preciso ficar em cima, tratando constantemente — diz o oftalmologista Luiz Roisman, da Casa de Saúde São José.

— Seria muito complicado. Ainda mais pelo risco de sofrer uma pancada no olho. Quando se faz um transplante, cria-se uma cicatriz. No caso de um chute, existe o risco de ruptura — explica o médico.

Uma pergunta comum é se a deficiência visual não prejudica o desempenho de Ícaro no tatame. Segundo Roisman, um acidente desse tipo na infância tem atenuantes.

— Na infância, o cérebro e a visão ainda estão em fase de adaptação. Isso pode ter criado no Ícaro um remodelamento da função visual, fazendo com que não o atrapalhe tanto nas atividades. Se o acidente fosse na fase adulta, talvez ele tivesse mais dificuldade porque a noção de profundidade para a luta é essencial — analisa o oftalmologista.

Ícaro é taxativo quanto à extensão do problema quando pratica o esporte:

— Não acredito que me atrapalhe em nada. Até porque, à medida que minha visão piorava, meus resultados foram melhorando. Penso na solução e não nos problemas. Melhor focar no que posso fazer em vez do que poderia ter sido.

O currículo é uma prova do que Ícaro diz sobre seu desempenho. Ele foi vice-campeão mundial na categoria até 87kg, que não é olímpica, em 2019, na Inglaterra. No mesmo ano, conquistou a medalha de prata no Pan-Americano de Lima.

A essa altura, a vaga na Olimpíada já era uma obsessão — uma meta que, enfim, se concretizou.

— Sonhei com isso a minha vida toda. Treinei para Tóquio como para qualquer grande evento. Não penso muito no resultado, mas em ter a consciência tranquila de fazer o melhor que podia — confessa o lutador.

Uma aspiração natural para quem chegou ao topo do ranking mundial de taekwondo em abril. Com uma postura positiva e vitoriosa diante da adversidade, o mineiro virou um símbolo de superação e inclusão no esporte:

— Falo da minha deficiência como algo normal, e na verdade ela é. Todos temos diferenças, não vejo problema. Nem por isso deixamos de ser todos iguais.

Ainda neste domingo, 24 a paulista Milena Titoneli sobe no tatame, às 23h, para enfrentar Julyana Al-Sadeq, da Jordânia, na categoria peso médio (até 67kg).

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