"O racismo precisa ser debatido nas escolas”, diz lenda do MMA Carlão Barreto

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Carlão Barreto (Foto: Arquivo Pessoal)
Carlão Barreto (Foto: Arquivo Pessoal)

Carlos Barreto, 51, uma referência do MMA e do jiu-jítsu brasileiro tendo uma carreira respeitável nos ringues e octógonos (14-9) e sendo um dos melhores lutadores de jiu-jítsu formados pelo mestre Carlson Gracie (1933 – 2006), hoje leciona artes marciais e defesa pessoal além de ser comentarista de MMA no Canal Combate da Globosat.

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Recentemente, o Yahoo Esportes entrevistou Carlão Barreto, como é mais conhecido, por telefone, sobre as evoluções do jiu-jítsu e MMA, como a pandemia de Covid-19 afeta o universo do MMA e sua posição sobre racismo, que já sofreu na pele.

Yahoo! Esportes: Você possui uma vitoriosa trajetória como atleta, hoje leciona jiu-jítsu e defesa pessoal em seu dojo além de ser um respeitado comentarista de lutas. Como observa a evolução dos esportes de luta da sua época de competidor para os dias atuais?

Carlão Barreto: Já se passaram muitos anos e a evolução dos esportes de combate tem sido muito grande e significativa em vários aspectos. No que tange o ensino das artes marciais, os professores vem buscando muita capacitação; vivemos momentos de transformação, instrutores de várias modalidades de luta vem buscando se capacitar e evoluir para entregar o melhor serviço para os alunos e clientes, com isto o ensino das lutas têm evoluído bastante.

Obviamente, sabemos que as artes marciais sempre tiveram um cunho muito filosófico quanto ao ensinamento e a busca de respeito, disciplina, valores éticos e morais e também a conscientização pessoal do autoconhecimento, muito importantes para a busca do equilíbrio físico e mental.

“Mas como passar isto?”, é muito importante ter o entendimento de que as pessoas mudaram e o mundo também, logo a forma como se conduz e compartilha conhecimento também têm que mudar e vejo com bons olhos esta evolução.

Em termos competitivos não tem nem o que falar! Os competidores são “super” atletas, enquanto o MMA virou um esporte conceituado e estruturado com um grande player; que é o UFC (Ultimate Fighting Championship): Um evento muito bem organizado, cuidador dos atletas na parte de saúde; criador de um instituto de performance além de ter um (exame anti) doping muito rigoroso, portanto, o atleticismo e a qualidade dos atletas vêm evoluindo, hoje os esportistas possuem uma periodização de treinamento, preparação física, acompanhamento de fisioterapeutas e nutricionistas, uma equipe multidisciplinar trabalhando coesamente para a evolução do esportista, e sem dúvida a evolução técnica foi bastante acentuada nestes últimos anos.

De início o jiu-jítsu brasileiro era praticado por pessoas de melhores condições financeiras, e, você é um dos melhores formado por Carlson Gracie Sensei. Como observava a questão racial e socioeconômica daqueles tempos?

Sim, o jiu-jítsu na minha época era uma luta elitizada, cara, e até hoje de certa forma ainda é um pouco mais caro, o tíquete médio de uma academia de jiu-jítsu ainda é maior que a maioria das outras modalidades de luta.

Entretanto, mestres como Carlson Gracie, (Oswaldo) Fadda dentre outros, acabaram popularizando e dando oportunidades para pessoas que não tinham condições de treinar jiu-jítsu dando bolsas. Houve sim, uma mudança em relação ao perfil dos praticantes, muitos professores começaram a manter projetos sociais, e grandes campeões saíram destes espaços, isto é muito bacana!

Processo criador de um círculo virtuoso dentro do esporte, crianças de comunidades carentes que dificilmente teriam acesso à academias de jiu-jítsu podem treinar e competir, e, consequentemente terem suas vidas transformadas por meio da prática esportiva.

Sem dúvida, os impactos dos projetos sociais e da popularização do jiu-jítsu têm sido muito positivos para que mais pessoas possam treinar e as barreiras sociais sejam quebradas.

Hoje há projetos de jiu-jítsu nas favelas e comunidades pobres. Ao que se deve esta expansão do jiu-jítsu brasileiro?

São projetos geralmente pessoais de altruísmo, compartilhando aquilo que foi recebido, desta forma muitos professores vendo no jiu-jítsu uma ferramenta de transformação, e que as artes marciais podem transformar vidas, não só no aspecto pessoal ao conceber bons valores para estas crianças e adolescentes das comunidades, mas também a questão da ascensão social, onde através das artes marciais puderam ter uma visibilidade melhorando sua autoestima consequentemente usando o jiu-jítsu e modalidades de competições de lutas para serem professores, viajarem pelo mundo, conhecerem outras culturas, buscarem mais conhecimentos, terem melhores condições de educação... (respira).

Com isto tudo, o jiu-jítsu em especial por ser uma modalidade que esporta atletas e professores para o mundo inteiro, tem uma parcela grande e significativa de mudança do conceito. Por isto esta expansão do jiu-jítsu brasileiro se torna impactante.

Hoje você vê garotos oriundos de comunidades que não teriam condições de treinar jiu-jítsu, mas hoje dão aulas, possuem sua própria academia, sustentam suas famílias de uma forma digna e mandando dinheiro de volta para as comunidades. É inspirador!

O jiu-jítsu é uma arte que transforma, serve como ferramenta de mudança social de grande impacto. Grandes atletas estão surgindo, competindo e conquistando medalhas ao redor do planeta, servindo de inspiração para outras crianças da comunidade para que olhem nos atletas e no jiu-jítsu como uma grande oportunidade, para que agarrem isto e se tornem grandes campeãs.

E mesmo se não vierem a ser grandes campeãs, os valores ensinados no tatame, aqueles aprendidos numa arte marcial, são muito significativos, são transformadores, essas crianças podem ser qualquer coisa na vida, elas começam a enxergar o mundo por outro olhar, começam a enxergar o mundo por outro prisma e veem uma porta se abrindo perante elas. Isto me deixa muito feliz!

No momento vemos manifestações contra o racismo em diversas áreas profissionais e partes do mundo, inclusive nas ruas, iniciadas com o assassinato do cidadão estadunidense George Floyd em uma ação da polícia de Minneapolis. Quais são suas opiniões sobre este momento que vivemos?

É um momento muito complicado ocorrido nos EUA, e acabou desencadeando no mundo inteiro, com as manifestações tendo (o assassinato de) George Floyd sendo o estopim. A tensão racial acontece há muito tempo, temos visto no futebol com várias manifestações racistas, algo muito triste nos dias atuais e sabemos que evolui para um lado e “involui” para outro.

A tecnologia e a medicina evoluem, enquanto as relações humanas vêm involuindo, é minha humilde opinião. Fico muito triste... (respira).

As manifestações são lícitas, o que não é lícito é a destruição e a baderna, certos grupos acabam se infiltrando no meio das manifestações e acabam diminuindo o impacto e a força das mesmas. A manifestação é lícita, a violência contra a comunidade negra é real e precisa ser combatida com educação e diálogo... Mas o diálogo profundo. Temos de parar de criar uma cortina de fumaça neste tema tão doloroso e tão importante para que possamos ter uma sociedade mais justa.

Temos de olhar no espelho e ver realmente quem somos. Então, é realmente importante discutir o racismo, é importante discutir o preconceito, tendo a discussão em primeiro lugar, mas o diálogo acima de tudo, a violência nunca.

Em esportes há figuras se destacando neste tipo de protesto como o jogador de futebol americano Colin Kaepernick, o qual já se expressava anos atrás; e hoje, nomes como o piloto de F-1 Lewis Hamilton. Qual a influência de figuras esportivas de grande destaque quanto ao público? Crê que veremos algo similar dentro do MMA?

Sem dúvidas! Lewis Hamilton tomou a frente e é muito importante o que fez, principalmente na Fórmula-1 sendo ele o único negro piloto, um grande campeão, tendo a postura dele causado impacto na comunidade da F-1, tanto que outros pilotos resolveram se posicionar contra o racismo. Esta comoção mundial contra o racismo iniciada com a morte do George Floyd tem como aspecto positivo abrir espaço para o diálogo.

Realmente creio que alguns atletas têm de se posicionar porque são ídolos e formadores de opinião, mas o que envolve no entorno disto é educação. No Brasil, por exemplo, grandes jogadores de futebol e grandes ídolos acabam se omitindo diante deste fato em razão da educação. Algumas pessoas dentro do povo brasileiro possuem a triste ideia, a falácia, de que no Brasil não há racismo. Olha que absurdo!

O Brasil é um país racista! Sabemos disto, nossa sujeira é jogada debaixo do tapete, por isto afirmo que a discussão é importante para colocar os pingos nos “i”s sem revanchismos, mas tentando fazer com que as coisas fiquem mais iguais, busquem dialogar e debater sobre o tema, se expor de uma forma bacana, com inteligência, para que possamos dar educação ao povo e transformar a vida das pessoas, e só a educação e o esporte fazem isto.

O racismo precisa ser debatido nas escolas, nas universidades, nas mesas de bate-papo, os líderes precisam falar sobre isto para se entender que isto é o mal da sociedade. Há uma desigualdade histórica, o povo negro passou pelo período terrível e obscuro da escravidão, e, ao acabar a escravidão, nossos ancestrais, a comunidade negra ficou ao relento, não foi cuidada, reposcionada e nem teve educação. O que desencadeou uma série de desigualdades e doenças como um “câncer”, o racismo é um câncer! Está muito ali atrás com a desigualdade, então precisamos rever isto e conversar e debater sobre isto.

Não com rivalidade e revanchismos ou mais racismo, nem vitimismos. É muito importante se colocar: Nem vitimismos, mas com diálogo aberto buscando uma solução para este problema, o qual precisamos resolver da forma mais educada e inteligente possível. Porque somos todos iguais como seres humanos, mas não somos todos iguais como cidadãos, isto é uma realidade, um fato.

YE: Em alguma passagem da sua vida você se sentiu vítima de racismo? Como reagiu?

CB: Sim, já fui vítima de racismo e como não esquecer... (respira).

Pra mim teve um fato marcante, já homem, como produtor de eventos (de lutas) ocorrido no ano de 2007, fui retirar dinheiro no Banco do Brasil, e falo mesmo: “Banco do Brasil”; fui impedido de entrar sem argumento nenhum, falaram que eu estava com uma pasta, só que entraram duas pessoas brancas com pastas, então eu discuti.

Minha esposa é branca, tenho um casamento interracial, tenho filhas mestiças e explico-as o que é racismo e desigualdade entre as etnias porque infelizmente ainda nos dias atuais esta discussão segue velada ou quando discutida causa raiva entre os lados. Somos iguais, mas somos diferentes.

Passei por este momento difícil, o qual denunciei e fiz boletim de ocorrência, chamei a polícia, abri o verbo, foi um momento muito triste de minha vida que guardo como alerta porque não podemos ficar calados.

Um negro vítima de racismo tem de abrir a boca e buscar seus direitos, assim como o branco que ao ver alguém sofrendo uma agressão racial tem de falar, tem de abrir a boca. A sociedade tem de gritar, a sociedade não pode deixar o racismo passar impune.

Senão se tornará algo comum e não é “comum” você ter preconceito contra uma pessoa simplesmente pelo tom de pele. Devemos avaliar pelo caráter, conduta ética e moral. Não pelo tom de pele. Mas infelizmente isto aconteceu comigo.

Outro problema que o mundo enfrenta neste conturbado 2020 é a pandemia de Coronavírus, por outro lado, o MMA foi um dos primeiros esportes a voltar com as competições. Como a pandemia afetou a modalidade? O que espera do futuro do MMA dentro de tais condições?

O Coronavírus veio de uma forma brutal não tendo distinções de classe social ou país, o mundo todo ficou e ainda está abalado tendo afetado o esporte de forma geral, eventos e toda a economia. Ainda não temos uma noção de todo o impacto negativo do Coronavírus, infelizmente.

O MMA através do UFC conseguiu retornar seguindo protocolos de segurança e vem obtendo sucesso, outros eventos estão seguindo esses protocolos e exemplo do UFC fazendo seu trabalho dentro deste novo modelo sem público. “É o que temos para hoje”, como dizem.

(Eventos) Estão se adaptando e investindo em protocolos de segurança, espero que tudo seja sempre benéfico para a comunidade da luta: os atletas e árbitros regressem ao trabalho com todo impacto que possa haver com o retorno dos eventos de MMA. Obviamente sempre seguindo os protocolos de segurança, porque saúde em primeiro lugar.

Ainda não temos (sociedade) um olhar mais transparente sobre o futuro, (o qual) se mostra turvo, precisamos analisar mais alguns meses, e entender como o próprio esporte compreenderá este momento, quando os atletas irão retornar aos seus treinamentos de uma forma normal. É difícil ainda fazer uma análise.

Estamos vendo o UFC e mais outros três ou quatro eventos ao redor do planeta fazendo seus eventos e voltando à atividade, todo mundo com suas restrições. Porém, para calcularmos de forma mais sólida o impacto da pandemia no MMA ainda é cedo, ainda precisamos de mais um tempo para fazermos uma análise ainda mais clara e transparente de quanto este impacto foi negativo para nossa modalidade, mas eu que sou um homem de fé creio que dias melhores virão.

Como a produção de eventos no Brasil e os próprios atletas brasileiros têm reagido ao “novo normal”?

No Brasil sem dúvida a produção de eventos está muito abalada, perdas significativas em diversos eventos e setores, diversos nichos e teremos um prazo longo de recuperação porque está muito atrelado à economia brasileira e as pessoas voltarem a consumir.

Precisamos ter calma, nos estruturamos e nos organizarmos para voltar com tranquilidade, os atletas também em seus protocolos de treinamento dentro de sua rotina, é um momento de cautela.

Tenho observado algumas pessoas empolgadas, outras mais pessimistas e há aqueles nem tão empolgados nem tão pessimistas. Termos de ter cautela para seguir adiante com os protocolos de segurança, tentando seguir as fases que as autoridades competentes vêm nos colocando; cada prefeitura e cada estado definindo suas fases para que cada grupo volte a trabalhar e retomem as atividades.

Certamente, enquanto as pessoas não tiverem confiança para retornar, com todos os segmentos e setores da sociedade estando abalados, seguindo ainda no amarelo, ou seja, não sabemos ainda o que irá acontecer. A esperança é grande, mas a cautela também.

Portanto, precisamos caminhar com passos curtos, mas firmes em busca de dias melhores. Em busca de uma solução principalmente no que tange os eventos, a recuperação da economia e também a parte esportiva tendo os atletas podendo voltar a treinar, voltarem a suas vidas normais para poder exercer suas funções e conquistarem suas medalhas.

Tudo com muita cautela, precisamos entender o que acontecerá neste pós-pandemia.

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