O que fez torcedores do Criciúma usarem tragédia da Chape como provocação? Como podem ser punidos?

Por Tauan Ambrosio 

O futebol pode incentivar práticas tão lindas e admiráveis quanto baixas, horrendas e que mostram o pior lado do ser-humano. No último domingo (23), parte da torcida do Criciúma entoou cânticos provocativos ao maior desastre da história do esporte mundial. Os gritos de “ão, ão, ão, abastece o avião” vieram contra a própria Chapecoense, com menos de seis meses completados desde a queda do avião que matou 71 pessoas entre atletas, ex-atletas, jornalistas e dirigentes.

A mostra de violência verbal foi o primeiro caso no futebol brasileiro desde o fatídico acidente, no final de novembro de 2016, mas veio semanas após alguns torcedores do Porto cantarem “quem me dera que o avião da Chapecoense fosse do Benfica”. Em resposta, os dois clubes portugueses e a própria Chape se posicionaram contra os cânticos. Nesta segunda-feira (24), a direção do Criciúma emitiu nota de repúdio ao acontecido no dia anterior e garantiu que vai ajudar as autoridades a identificarem os transgressores.

Criciuma Chapecoense torcedores provocam 24 04 2017

Parte da torcida do Criciúma cantou a provocação à tragédia (Foto: Reprodução/Twitter)

Mas, no meio da surpresa com atitudes tão lamentáveis, é impossível não questionar o motivo que leva alguns elementos a terem tal comportamento. Em contato com a Goal Brasil, o sociólogo Maurício Murad, professor na Faculdade Universo e maior referência nacional no estudo da violência de torcedores no futebol, explicou o que leva as pessoas a terem atitudes tão deploráveis.

“O futebol é um evento cultural muito forte das multidões e da paixão humana. A paixão tudo acentua, e a multidão também tudo acentua. Então, multidão tocada pela paixão é muito propícia a exageros, transgressões e ultrapassagem dos limites razoáveis da vida, da convivência humana”, afirmou. “São minorias estúpidas, com um grau de irracionalidade, violência e ódio muito intensos e que pensam que o universo do futebol permite tudo; que em um estádio ou no meio da multidão você pode tudo que você não pode na, digamos, vida real”.

Exemplos de fora já podem ajudar no estudo comportamental

Superga provocação 24 04 2017

Torcedor provoca a maior tragédia do Torino (Foto: Getty Images)

Músicas de ódio, que relembram tragédias parecidas, também já deram as caras em outros dois países que viveram traumas muito semelhantes. Na Inglaterra, rivais do Manchester United cantam de maneira pejorativa sobre o desastre aéreo de Munique [quando 23 pessoas, incluindo jogadores do United, morreram após a queda de um avião em 1958]; na Itália, a torcida da Juventus relembrou a Tragédia de Superga [que culminou na morte de 42 pessoas, sendo 18 atletas do Torino, em 1949] como algo banal e provocou os rivais em partida realizada em 2014.

Na opinião de Murad, esses dados mostram que as inúmeras diferenças entre os povos só atestam que o ser-humano é dotado de uma parcela de estupidez, de transgressão e ódio que pode se manifestar em qualquer cultura, qualquer sociedade.

GFX Mauricio Murad

“É por isso que todos os exemplos vindos de fora devem nos chamar atenção para ficarmos atentos. Além disso, para estabelecermos medidas punitivas no curto prazo; preventivas no médio prazo e reeducativas no longo prazo. Mesmo que a gente não consiga resolver tudo, é somente com essas medidas integradas que vamos conseguir colocar esse tipo de vandalismo, estupidez e brutalidade, sob o controle da lei, da ordem e das instituições”.

Como diferenciar os xingamentos no futebol?

Durante a entrevista, os gritos da torcida do Grêmio, em 2014, relembrando de forma irônica a morte de Fernandão [ídolo do arquirrival Inter, que faleceu em acidente de helicóptero] foram relembrados, assim como outras diversas situações. O grito de “bicha”, que se popularizou em alguns estádios do Brasil também foi posto na mesa para o debate. Seria possível distinguir tais agressões de alguns outros xingamentos feitos por torcedores há décadas?

Torcida do Grêmio

Em 2014, gremistas ironizaram a morte de Fernandão (Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA)

Murad reconhece que é uma questão muito difícil, mas propõe dois aspectos para tratar do tema e aproveitou para fazer uma crítica ao momento atual vivido pelo país: “Para estabelecer essa diferença, o primeiro critério é a lei. E o segundo é o contexto social onde se vive, onde esse fenômeno está inserido”.

“Se racismo é crime, qualquer grito racista dentro dos estádios pode e deve ser punido (...) O que for transgressão à legislação precisa sofrer sanções, ser punido. Também tem o critério do contexto social, do ambiente em que se vive. E o clima do país, hoje, é muito favorável às intolerâncias, às transgressões, ao descumprimento da lei. E isso é somado à grande impunidade brasileira. Essa impunidade precisa reduzir para que a gente possa minimamente tentar controlar, e diminuir, esses atos que confundem o adversário como inimigo e a concorrência como violência”.

Punição deve ser individualizada, e não o contrário

Por fim, o sociólogo defendeu uma punição exemplar aos torcedores do Criciúma flagrados entoando os cânticos contra a Chapecoense e destacou que o ideal é punir o indivíduo, e não o grupo.

GFX Mauricio Murad 24 04 2017

“Encaminhar as imagens para as autoridades tomarem as medidas cabíveis é muito importante, para inibir novos atos desse tipo de violência. E isso está previsto no código penal brasileiro, que prevê os crimes de incitação à violência e ao ódio. E esses poucos torcedores do Criciúma fizeram algo que é tipicamente uma incitação à violência e um crime que pode ser tipificado no código penal como um crime de ódio”.

“Tem que punir o transgressor, o delituoso, quem fez o delito, quem cometeu o excesso e ultrapassou o limite. Esse que tem que ser punido (...) Quem pune todo mundo, acaba não punindo ninguém. Porque quem fez fica escondido, na punição generalizada, e quem não fez fica furioso, porque fica punido sem fazer. Tem que ser uma punição exemplar, até pegando carona na imensa solidariedade brasileira e internacional que houve nesse lamentável desastre da Chapecoense. Tem que mostrar que o bem falou mais alto naquela altura, naquela ocasião”, finalizou.