O que é o 'Baile da 17', onde 9 jovens morreram pisoteados em Paraisópolis

Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo e palco do Baile da 17 (Foto: AP Photo/Andre Penner)
Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo e palco do Baile da 17 (Foto: AP Photo/Andre Penner)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Jovens morreram pisoteados durante operação da PM

  • Uma das vítimas tinha apenas 14 anos

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Uma ação da Polícia Militar em uma festa funk em Paraisópolis deixou 9 jovens mortos pisoteados na madrugada de domingo (1) – uma das vítimas é um adolescente de 14 anos. O “Baile da 17” acontece semanalmente e costuma reunir milhares de jovens na segunda maior favela de São Paulo.

Em entrevista coletiva após a tragédia, o tenente-coronel Emerson Massera, porta-voz da PM, negou que a ação tinha o objetivo de dispersar o pancadão: a versão da corporação é de que um grupo de policiais entrou na comunidade perseguindo um grupo de ladrões de motocicletas.

Leia também

Massera alega que os criminosos “usaram as pessoas como escudo” enquanto atiravam nos policiais. Os frequentadores da festa teriam atirado pedras nos agentes. Os policiais, por sua vez, revidaram com tiros de bala de borracha e bombas de efeito moral, de acordo com o porta-voz.

No entanto, moradores de Paraisópolis têm publicado nas redes sociais vídeos que contradizem a versão da PM: nas gravações, policiais aparecem agredindo com golpes de cassetete e chutes jovens rendidos e desarmados em um beco.

"Algumas imagens sugerem abusos e ações desproporcionais. A gente lamenta as mortes, essa tragédia. Mas ainda é cedo dizer se houve erro da Polícia Militar”, diz o porta-voz.

O Baile da 17 começou no início desta década nas ruas de Paraisópolis. Moradores contam que o número 17 é uma referência a um bar de drinks que existia na favela, na frente do qual acontecia um pagode. Com o tempo, os frequentadores começaram a ouvir funk em carros estacionados na rua.

Hoje, a festa costuma acontecer entre sexta e sábado, e já chegou a reunir 30 mil pessoas em quatro ruas da favela. DJ’s estacionam carros com aparelhos de som potentes e os frequentadores se reúnem ao redor dos veículos para dançar e se divertir. Excursões levam jovens do interior de São Paulo ou até mesmo do Rio de Janeiro para Paraisópolis, tamanha é a fama do pancadão.

Moradores denunciam que, com frequência, o baile começa na quinta-feira e se estende até domingo. O barulho levou muitas pessoas a saírem da área, que hoje é tomada por estabelecimentos comerciais que atendem os frequentadores da festa, como tabacarias e bares. Esses comerciantes bancam parte da festa – contratando os DJ’s, por exemplo, que chegam a receber R$ 2 mil por noite.

Tanto a prefeitura quanto o governo do estado de São Paulo tentam coibir a organização de pancadões nas favelas da capital, tanto pelas reclamações de barulho quanto pelas denúncias de tráfico de drogas durante o evento. Com frequência, as ações da PM para dispersar o baile acabam em violência, com o uso de bombas e tiros por parte dos agentes. De acordo com a PM, houve 45 ações de repressão ao Baile da 17 apenas nesse ano.

Mesmo com o barulho e o fechamento de ruas, os moradores de Paraisópolis acreditam que o Baile da 17 não deve ser a prioridade da atuação do governo na favela. Uma pesquisa da União de Moradores e Comerciantes revelou que o pancadão está em 5º lugar nas reclamações dos moradores, abaixo de itens como os problemas na coleta de lixo.

Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, afirmou à BBC News Brasil que o Baile da 17 é uma "alternativa de lazer" para jovens que têm poucas opções de divertimento em seus bairros.

"Não temos áreas de lazer em Paraisópolis. Temos um campo de futebol e hoje inauguramos uma praça. Ao invés do Estado proporcionar estruturas de lazer para o jovem, ele reprime por meio da polícia", argumenta.

Leia também