O que a Argentina pode aprender com o Brasil de Tite?

Uma fase iluminada, que mais parece um sonho. Ótimo futebol, desempenho encantador, excelentes resultados e uma evolução impressionante. São nove vitórias em nove jogos, com 25 gols marcados e apenas dois sofridos. Além disso, a liderança, o melhor ataque e a melhor defesa das Eliminatórias e a classificação garantida para a Copa do Mundo de 2018, sendo a primeira seleção depois da anfitriã Rússia a garantir a vaga no Mundial. Um cenário inacreditável, levando em consideração a crise nos primeiros sete meses de 2016, quando o lugar no torneio era muito ameaçado.

O momento exuberante do Brasil com Tite é totalmente contrário ao pesadelo que a Argentina vive com Edgardo Bauza. O ex-técnico do São Paulo fez sua estreia no comando da Albiceleste no mesmo dia que o ex-treinador do Corinthians, mas o desempenho é totalmente diferente. São três vitórias, três derrotas e dois empates em oito jogos, com apenas nove gols marcados e 10 sofridos. No quinto lugar das Eliminatórias, o time de Bauza corre risco de ficar fora da Copa, e sofre com merecidas críticas.

Brasil Paraguai Eliminatorias 2018 28032017

(Foto: Getty Images)

É difícil não comparar os eternos rivais sul-americanos e o trabalho dos ex-treinadores dos "inimigos" paulistas, e fica nítido que a Argentina precisa 'aprender' algumas coisas com o Brasil para evoluir e conseguir uma vaga na Copa. A Goal Brasil analisa as aulas que Bauza precisa ter com Tite:

Competência e carisma

Tite encanta não apenas seus jogadores, mas também a imprensa e os torcedores. O treinador organizou a Seleção Brasileira taticamente, melhorando consideravelmente o desempenho coletivo e tático, e também dando confiança aos seus comandados. Em uma equipe organizada e com mais confiança e tranquilidade, os atletas passaram a render em nível semelhante ao que apresentam em seus clubes, evoluindo, assim, também o aspecto técnico e individual do time. O Brasil tornou-se mais coeso e compacto no 4-1-4-1, com as linhas táticas organizadas, o sistema defensivo coeso, e melhor troca de passes e posições e movimentação ofensiva. O futebol da Seleção evoluiu em todos os sentidos e ficou mais organizado e envolvente.

Paulinho, Tite, Fagner, Willain e Gil - Brasil - 23/03/2017

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

O lado humano de Tite e suas declarações também encantam. Com isso, o ambiente mudou e o time brasileiro voltou a jogar com 'paixão', fazendo com que os torcedores o carregassem no colo. Para se ter ideia, em pesquisa recente, 15% dos brasileiros disseram que votariam em Tite para presidente do Brasil! A diferença também é vista no elenco, com os próprios jogadores dizendo que a Seleção é uma família. O treinador, de fato, transformou completamente o escrete canarinho. Até mesmo o amor e o interesse do povo pela Amarelinha, que tinham desaparecido, voltaram.

Bauza, por sua vez, tem se envolvido em polêmicas, como fez ao visitar Icardi, capitão da Internazionale, que de fato vive boa fase e sempre briga pela artilharia da Serie A, mas tem histórico complicado fora de campo e não goza da simpatia de boa parte dos jogadores e torcedores de seu país, pelo episódio envolvendo Wanda Nara e Maxi López. Maradona, inclusive, já fez várias críticas públicas ao fato.

A perfeição não existe

Apesar dos vários elogios, Tite diz que mesmo com os 100% de aproveitamento, a Seleção Brasileira ainda não está pronta para a Copa do Mundo, e de fato não está, mesmo com a excelente fase, o ótimo futebol, o desempenho exuberante e os resultados expressivos. Ainda falta enfrentar fortes seleções europeias e realizar alguns ajustes no time. O treinador sempre afirma que a perfeição não existe, e isso pode ser levado para o lado dos craques.

Neymar, com seis bolas na rede e seis assistências, é o jogador que mais participou de gols diretamente (12) nas Eliminatórias. O craque está jogando um absurdo, mas não é perfeito e precisou superar problemas antes de brilhar novamente.

O camisa 10 enfrentou críticas durante a 'Era Dunga', cometeu erros dentro e fora de campo, ficou sete meses sem a faixa de capitão, mas amadureceu muito no período.

Neymar Brasil Paraguai Eliminatorias 2018 28032017

(Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images)

O camisa 11 do Barcelona faz toda a diferença, mas o Brasil não depende dele como antes. Contra o Paraguai, por exemplo, mais de 42% dos ataques tupiniquins no primeiro tempo foram concentrados do lado direito, com Philippe Coutinho, e não do esquerdo, com Neymar.

Na Argentina, por outro lado, a "Messidependência" é muito clara e prejudica o time.  A Albiceleste tem Di María, Dybala, Higuaín, Agüero, Pratto, Correa, Lavezzi e outros nomes de enorme talento, mas possui o terceiro pior ataque das Eliminatórias, com apenas 15 gols marcados, ficando atrás até mesmo da Venezuela (17). É inadmissível que o time não consiga se virar sem Messi, por mais que o craque faça a diferença em qualquer time e partida no mundo. Os números deixam isso claro:

A Argentina com e sem Messi

Organização

Além da movimentação ofensiva e troca de passes e posições, Bauza precisa organizar o meio-campo, como Tite fez, escolhendo as peças certas para o serviço e tornando a equipe mais compacta e coesa, dando menos espaços aos adversários. Também é necessário organizar o sistema defensivo, que tem cometido vários erros, escolher os melhores jogadores para o setor e confiar neles, dando confiança e tranquilidade para que eles trabalhem, algo que Tite faz no Brasil. A Argentina tem a segunda melhor defesa das Eliminatórias, com 14 gols sofridos, mas 10 deles ocorreram na 'Era Bauza'.

O treinador brasileiro faz um enorme trabalho de observação, acompanhando vários jogos, inclusive in loco, no país e no exterior, o que facilita para armar o esquema tático ideal com os melhores jogadores e as características que deseja. Um exemplo claro é Paulinho, que mesmo jogando na China, foi convocado, apesar das críticas da imprensa. Hoje, o ex-corintiano é peça fundamental no meio-campo tupiniquim e inquestionável. Tite provou que estava certo.

Bauza precisa fazer tudo isso e em pouco tempo. Afinal, a Argentina está apenas no quinto lugar das Eliminatórias, na zona de repescagem, com o Equador apenas dois pontos atrás, e Paraguai e Peru a quatro unidades de distância, ainda sonhando com a vaga. Sem Messi, a Albiceleste vai encarar Uruguai e Equador fora de casa, em duelos diretos por um lugar na Copa, além de Venezuela e Peru em casa. O treinador precisa olhar para seus próprios erros e aprender com o Brasil de Tite para evoluir e salvar a Albiceleste de um vexame.