O mistério dos estádios lotados e silenciosos na Inglaterra

Felipe Portes
Emirates Stadium
Emirates Stadium

A Premier League é o campeonato mais visto no mundo hoje em dia. Nem mesmo a Liga Espanhola com Real Madrid e Barcelona atrai tanta atenção quanto os múltiplos jogos transmitidos em campos ingleses. Há quem diga que o Inglês também é a disputa mais acirrada, pois tem pelo no mínimo quatro times capazes de vencer, isso quando não aparece um Leicester para diversificar. Mas um fenômeno ainda mais curioso do que o enriquecimento rápido das equipes no país é o silêncio dos estádios, que mesmo lotados, não são mais tão vibrantes quanto em outros locais ao redor do mundo.

Nós, brasileiros, estamos acostumados a ver ou fazer parte de torcidas que exercem um papel crucial no sucesso do time. Apoiar uma equipe não é só comemorar um gol ou xingar o juiz quando um pênalti não é marcado. É também demonstrar aos jogadores que quando faltar garra no gramado, vai sobrar incentivo vindo das bancadas, das milhares de vozes que estão presentes. Em suma: o torcedor exemplar é aquele que canta e exalta seu clube até ficar rouco. Salvo exceções em que ficamos tão apreensivos que nos faltam palavras ou gestos em direção ao campo.

Na Inglaterra, esta noção de torcedor como o 12º jogador está se tornando ultrapassada. É nítida e sonora a diferença para décadas passadas, quando os estádios locais eram alçapões barulhentos e intimidadores aos adversários. Porque é este o intuito de jogar em casa: oferecer um ambiente hostil para os visitantes, esportivamente falando. Apesar de torcidas como a do Liverpool eternizarem cânticos como “You’ll Never Walk Alone” (composta em 1945 por Rodgers e Hammerstein para o musical “Carousel”, que acabou adotada como hino oficial dos Reds), casos como este são exceção nesta década. É claro que outras torcidas também inventaram ou entoaram canções em algum momento da partida, mas a sensação é de que o futebol está se tornando um esporte cada vez mais silencioso por aquelas bandas.

Somemos a propensão ao silêncio com a escalada de preços dos ingressos e à mudança gradativa de público. É mais um passo para a elitização de um esporte que só ficou popular em virtude da presença das massas e de camadas mais pobres da sociedade. O jornal inglês “The Guardian” argumentou ao longo desta semana que a Liga deve lutar contra a tendência das “torcidas caladas”. Teoricamente, uma torcida mais elitizada representa que o futebol seja interpretado como um espetáculo, não como um esporte em que haja interação massiva entre jogadores e torcedores. Se para nós daqui do Brasil é um absurdo imaginar um clássico entre Palmeiras e Corinthians apenas com aplausos, na Inglaterra isso está se tornando comum. E é por isso que existe um debate em torno do comportamento destes torcedores.

A atmosfera do futebol em si está em jogo. A quem interessa fazer do esporte uma espécie de competição que atrai um público apático? Quem possivelmente se sente em casa com gritos pontuais de gol ou de revolta, fazendo da festa de cores e sons um elemento que cada vez mais é coisa do passado? E mais: quem foi que confundiu o conceito de camarote sentado com a experiência completa de torcer em pé, pulando ou participando de um coro? Por mais que exista um tipo de torcedor que vá ao estádio para apenas assistir ao jogo e sentir o clima, a maioria sempre será aquela que entrega suas emoções para empurrar o time. O sistema inglês de carnê para a temporada, que fideliza o público, também traz outra questão: serão sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares, dificultando uma renovação ou restringindo o acesso a uma parte da torcida que não está acostumada ao estádio ou sequer conhece a casa do próprio time, por falta de oportunidade ou de dinheiro para arcar com os ingressos.

Se nos primórdios do futebol se permitia a entrada de torcedores e apoiar qualquer time se tornou uma questão de identidade, por qual razão isso seria excluído do contexto do estádio? Quer dizer, também há uma grande parte dos apaixonados que prefere ver o jogo em casa, mas estamos falando da forma mais abrangente e educativa de se acompanhar futebol, algo que jamais poderá ser substituído: frequentar a arquibancada para fazer parte do esporte, não só ser um espectador de teatro que aplaude entre um ato e outro.

Observar o futebol como quem vai a uma peça de teatro pode até ser poético, mas é um profundo desrespeito à essência da modalidade, à paixão, à alegria, ao sofrimento. Sentimentos que ajudaram a popularizar o esporte no mundo todo. O futebol sem o calor e o barulho da torcida viraria algo parecido com o tênis, que convenhamos, não é exatamente conhecido por ser acompanhado pelas camadas mais pobres da sociedade ou por ser vibrante. Isso explica o fato de não termos torcida oficial ou organizada por nenhum tenista.

Cantar em sinal de apoio à sua equipe é tão vital quanto o apito do juiz. É esta atitude a razão na qual todos nós um dia nos catequizamos na torcida por alguém, é a provação que precisamos passar antes de nos considerarmos amantes de um clube. Sentar-se no concreto ou nas novas cadeiras de plástico mundo afora é um exercício básico de apoio, evidentemente, mas não é só nisso que se baseia a atitude de ser torcedor. É também afirmar abertamente e a todo pulmão por que é que você está ali no estádio, porque é que esperou a semana inteira por aquele momento.

Uma arquibancada de futebol sem voz não é a representação de uma sociedade educada e civilizada, mas sim o retrato uma plateia passiva que não se sente ou efetivamente não faz parte do jogo. Não foi assim que nós aprendemos quando éramos crianças. Quem pede silêncio ou que fiquemos sentados provavelmente não entendeu ou não respeita o futebol como ele sempre foi.