O magnífico Leicester segue encantando na luta contra o impossível, mas a ressurreição é estranha

Header Gabriel Pazini

Uma vitória nos últimos nove jogos. Nenhum gol sequer na Premier League em 2017. Time quase sempre apático em campo, sem a intensidade e a energia contagiantes da última temporada. Estrelas apagadas e irreconhecíveis. A chocante demissão de Claudio Ranieri, o arquiteto do épico apaixonante escrito em 2015/16. O conto de fadas do Leicester parecia ter chegado ao fim. A dura realidade parecia ter tomado o lugar do mundo de sonhos.

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Parecia.

Após a saída de Ranieri, o time que não tinha marcado gols na Premier League neste ano, balançou as redes seis vezes. Venceu Liverpool e Hull City. A intensidade e a energia contagiantes voltaram, a marcação praticamente perfeita também, assim como o brilho das estrelas. Veio, então, o desafio de tentar reverter a desvantagem contra o Sevilla, atual tricampeão da Liga Europa, nas oitavas de final da Champions League, e o Leicester mostrou que os sonhos não foram derrotados pela realidade. O conto de fadas continua.

Leicester Sevilla

Independentemente do que aconteça, a temporada atual da Uefa Champions League ficará marcada para sempre pelo milagre do Barcelona, e também pela história emocionante do Leicester, que nos últimos anos mostra uma vocação inacreditável para desafiar o impossível.

O campeão improvável da Premier League, que antes evitou um rebaixamento que parecia certo. Antes disso, o campeão da Championship uma temporada depois de ser eliminado nos playoffs com um gol de contra-ataque após perder uma penalidade no último minuto da partida decisiva. Agora, o pequeno gigante está entre os oito melhores times da Europa, nas quartas de final da Champions pela primeira vez na história, e logo em sua primeira participação no torneio.

A história recente do Leicester é daquelas que nem o melhor roteirista do mundo poderia imaginar. É realmente algo que parece não existir e está totalmente fora da realidade. É um filme repleto de fantasia, tanto na história coletiva quanto individual dos protagonistas do improvável, como Ranieri, Vardy, Mahrez, Morgan, Schmeichel e companhia.

Kasper Schmeichel

Nesta terça-feira (14), o Leicester, assim como ocorreu contra Liverpool e Hull City, jogou como o campeão inglês da última temporada. A apatia que vinha sendo vista com Ranieri desapareceu. Com o King Power Stadium em chamas e uma linda festa da torcida, os Foxes mostraram uma intensidade impressionante e a fantástica marcação vista em 2015/16.

O Sevilla não encontrou espaços, mal conseguiu sair jogando no primeiro tempo, e quando conseguiu abrir espaços e criar chances, parou em Schmeichel, que fez três grandes defesas ao longo do jogo e voltou a defender um pênalti na etapa final. O dinamarquês continua jogando um absurdo e escrevendo sua própria história. Ele já saiu da sombra do pai.

Enquanto mostrava seu poder de marcação com ótima exibição coletiva, o time inglês também brilhava nos contra-ataques. Drinkwater fez uma grande partida no meio-campo, assim como Ndidi. Albrighton, aberto pelo lado esquerdo, foi excelente na marcação, fechando bem os espaços pelo setor, e fundamental nos contra-ataques e criando boas chances pelo lado esquerdo, além de combinações interessantes com Vardy e Fuchs e marcar o gol da classificação do Leicester.

Já as estrelas voltaram a mostrar porque encantaram o mundo na última temporada. Mahrez jogou demais e foi dos melhores em campo. O argelino fechou bem os espaços na marcação pelo lado direito, conseguiu desarmes e roubou bolas fundamentais, criou ótimas chances, puxou contra-ataques de muito perigo, deu belos dribles e ótimas arrancadas e ainda a assistência para o gol do capitão Morgan. O camisa 26 dos Foxes participou diretamente, com gol ou assistência, de seis dos 10 tentos da equipe na Champions League.

HD Riyad Mahrez Jamie Vardy Leicester City

Vardy, por sua vez, sofreu a falta que originou o primeiro tento dos Foxes, ajudou muito na marcação, deu um trabalho enorme para a defesa do Sevilla, puxou contra-ataques perigosos, abriu espaços e tabelou com os companheiros, e ainda provocou Nasri, causando a expulsão do camisa 10 francês dos Rojiblancos.

Vale destacar também os treinadores. Craig Shakespeare - que fica no comando pelo menos até o fim da temporada - não inventou: escalou o time campeão da Premier League (tirando Ndidi no lugar de Kanté) e fez as substituições esperadas (Slimani na vaga de Okazaki no segundo tempo e Amartey no lugar de Mahrez para fechar a casinha no fim do jogo). Não mexeu na estrutura nem no estilo da equipe e fez um bom papel.

Sampaoli, que faz excelente trabalho no Sevilla e é um dos melhores treinadores do mundo, por outro lado, não conseguiu fazer sua equipe superar a marcação do rival, surpreendeu negativamente ao optar por Mariano e Jovetic no banco (erro que ele corrigiu colocando os dois em campo logo após o intervalo) e ainda foi expulso quando deveria transmitir calma para seus comandados.

Com uma excelente atuação, o Leicester foi melhor que o Sevilla e mereceu a classificação. O impossível foi novamente desafiado e derrotado pelos Foxes, que agoram sonham em escrever novos capítulos emocionantes.

Leicester Sevilla

O medo do rebaixamento na Premier League vai ficando para trás e dando lugar a um sonho que parece ainda mais impossível, mas é muito apaixonante, na Champions League. É incrível e inspirador ver o Leicester voltar a encantar todo o planeta e desafiar o improvável em uma época na qual o futebol parece perder sua magia e romance para a ganância, a corrupção e o excesso em ver o esporte como um balcão de negócios. No entanto, também é estranha a ressurreição relâmpago após a saída de Ranieri.

Querido e exaltado pelos jogadores, o italiano foi o grande arquiteto do impossível na última temporada. Não faz sentido isso mudar em questão de meses. A imprensa inglesa diz que existiu um complô dos jogadores para a demissão do treinador, algo desmentido pelos atletas, especialmente por Vardy, apontado como um dos líderes do "movimento" e que vinha em baixa incrível com Ranieri, mas após a saída do técnico, voltou a mostrar o futebol da temporada passada, com dois gols e uma assistência contra Liverpool e Hull e a já mencionada ótima atuação contra o Sevilla. O camisa 9 até fez questão de agradecer o ex-comandante publicamente. Ranieri, aliás, foi quem tornou o ex-operário titular dos Foxes na temporada passada.

Claudio Ranieri Jamie Vardy Leicester City Premier League 24102015

(Fotos: Getty Images)

Em conversa com veículos tailandeses, incluindo a Goal Tailândia, o vice-presidente do clube, Aiyawatt Srivaddhanaprabha, declarou que "os jogadores afirmaram ser contra a demissão de Ranieri e não concordaram com isso, mas respeitaram e entenderam a decisão da diretoria".

Ranieri merece uma estátua na frente do King Power Stadium e que o estádio seja rebatizado com o seu nome. Não gosto de acreditar nem cogitar que tenha existido um complô dos jogadores - que deveriam ser eternamente gratos - para provocar a sua demissão, mas é muito estranha a rápida transformação do time após a sua saída. É impossível não associar um fato ao outro.

A ressurreição do Leicester faz um bem gigante ao futebol. É apaixonante e emocionante ver os Foxes desafiando o impossível e escrevendo uma nova história inspiradora, mas a reviravolta também tem um lado estranho e triste.