O lado negro da carreira de Paolo Rossi, algoz do Brasil em 1982

Poucos jogadores marcaram tanto seu nome na Copa do Mundo como o italiano Paolo Rossi. Artilheiro da seleção italiana no Mundial de 1982 e com ótima participação na edição de 1978, o atacante deixou um trauma inesquecível nos brasileiros após os três gols diante do esquadrão de Telê Santana na segunda fase do torneio em 1982. Mas não é só por isso que a carreira de Rossi é tão lembrada no mundo inteiro.

Aniversariante desta sexta-feira, completando 60 anos, Rossi tem como grande glória a conquista do Mundial em 1982, mas por clubes, foi crucial para um período arrasador da Juventus dentro e fora da Itália. Ele conquistou duas vezes a Serie A, uma vez a Copa da Itália, uma Recopa Uefa e uma Copa dos Campeões Europeus, antigo formato da Liga dos Campeões.

Rossi teve passagens por Como, Vicenza, Perugia, Juventus, Milan e Verona, onde encerrou sua carreira em 1987. Mas antes de assinar com a Juve, em 1981, estava condenado a cumprir dois anos de gancho por envolvimento no escândalo de corrupção chamado “Totonero”, um esquema de manipulação de resultados bem comum dentro do futebol italiano.

O escândalo

A história do Totonero estourou em março de 1980 e chocou a Itália. Isso porque dois comerciantes que apostavam na Loteria Esportiva resolveram entrar em contato com atletas da Lazio para colocar um alto valor em partidas que haviam sido arranjadas entre eles. Ou seja: combinando resultados, os jogadores formavam uma rede e atraíam investidores para jogos específicos. Todos estavam ganhando algum dinheiro com a situação, até que um belo dia, um dos confrontos arrumados não se concretizou. Os comerciantes foram à Justiça italiana e delataram todo o acerto feito por baixo dos panos.

Não estamos falando de um ou dois jogadores. Foram 13 atletas indiciados por participação no esquema. Inclusive, alguns deles chegaram a ficar algum tempo presos. Os comerciantes, Massimo Cruciani e Alvaro Trinca, também foram para a cadeia, ainda que por curto período. A punição maior foi mesmo em cima dos atletas, que sofreram sanções por parte da Federação Italiana.

É claro que estamos fazendo todo este rodeio para dizer que Rossi era um deles. O atacante defendia o Perugia quando o Totonero foi desmantelado. Na época, mesmo em uma equipe sem expressão, ele já era um dos principais talentos do país, especialmente por ter feito grande Copa do Mundo em 1978. A Itália sediou a Eurocopa meses depois da explosão de corrupção no futebol e jogou desfalcada do próprio Rossi e de Bruno Giordano, um dos quatro representantes da Lazio punidos. Milan e Lazio, que sujaram as mãos no processo, acabaram rebaixados para a Serie B.

O retorno na Espanha

Paolo tinha inicialmente de cumprir três anos de punição, mas retornou aos gramados ainda em 1982 com a Juventus, sendo campeão italiano. Temendo ser desfalcada de seu atacante, a Federação Italiana reduziu a pena de Rossi para poder contar com ele na Copa do Mundo.

Mesmo sob dúvida a respeito de sua forma física, Rossi foi convocado e escalado como titular. Na primeira fase, a Itália foi muito mal e passou com três empates. O centroavante continuava em péssima forma, mas bancado por Enzo Bearzot. A aposta se fez acertadíssima a partir da segunda fase, quando ele se reencontrou com a boa forma e decolou para a artilharia e consequentemente o título.

A Itália venceu a Argentina por 2-1 e encarou o Brasil logo em seguida. O clima era de puro favoritismo para os brasileiros, que contavam com um time tão fantástico quanto o que foi tricampeão em 1970: Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luisinho, Júnior, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Éder e Serginho. Do outro lado, a Itália não era de se menosprezar. A atuação na primeira fase tirou grande parte dos créditos merecidos pela equipe de Bearzot: Zoff, Oriali, Scirea, Collovati, Cabrini, Gentile, Conti, Tardelli, Antognoni, Graziani e Rossi.

O Brasil começou bem, impondo seu ritmo, mas falhas defensivas se mostraram cruciais na frente de Rossi. Oportunista e com faro de gols, o italiano castigou o adversário e marcou três vezes, abrindo e fechando o placar no Estádio do Sarriá, em Barcelona, no evento conhecido como “Tragédia do Sarriá”. Ele anotou o primeiro, mas o Brasil empatou com Sócrates. Rossi fez o segundo e Falcão buscou o empate com um golaço. Restando pouco mais de 15 minutos, Paolo passou a régua no duelo e mandou o Brasil de volta para casa. Ali, a Itália ganhava força para arrancar e ser tricampeã do mundo.

Foram mais dois gols dele contra a Polônia de Lato e Boniek nas semifinais e um contra a Alemanha, que não conseguiu fazer frente à uma irresistível Squadra Azzurra na decisão: 3-1 no placar, graças a Rossi, Tardelli e Altobelli. Breitner diminuiu o placar já no final, tarde demais. A Itália superava suas próprias limitações e medo para ser campeã novamente.

O fim da linha

Rossi manteve o bom futebol e ficou na Juventus até 1985, saindo após a conquista europeia em cima do Liverpool, no jogo que acabou manchado pela morte de 39 torcedores italianos em Bruxelas, na Bélgica. De saída da Juve aos 29 anos, o goleador assinou com o Milan, que não vivia grande momento no futebol italiano. Tanto é que passou pela equipe rossonera sem conquistar nenhum troféu. Em 1986, foi para o Verona e jogou uma última temporada até se aposentar com 31 anos, contribuindo para um notável quarto lugar do time veronês na Serie A.

Paolo se lesionou e não conseguiu estar entre os jogadores que defenderam a Itália na Copa de 1986. E provavelmente por isso, enxergando que sua forma física estava longe do ideal, optou por pendurar as chuteiras.

Deixou para trás uma carreira de 14 anos, com altos e baixos. Era sem dúvida um grande goleador, um dos maiores de seu tempo, provando isso no maior palco que o futebol pode ter. Mas que carregará até o fim uma espécie de asterisco no currículo, os dois anos de inatividade por corrupção. Muitos brasileiros ainda trazem a cicatriz da derrota de 1982 na alma. E ela provavelmente não teria acontecido se a pena de Rossi não tivesse sido reduzida de forma que ele pudesse estar elegível para a convocação da Copa. Herói para o povo italiano e vilão como tantos outros para os brasileiros, ganhando um lugar especial ao lado de Ghiggia, Zidane, Platini e todo o time da Alemanha de 2014.