O homem que mudou o basquete, enfim, é reconhecido por seu time

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Houve um tempo em que o basquetebol não era para gente muito alta. Os grandalhões eram ridicularizados.

Então, apareceu George Mikan (1924-2005), de 2,08 m, severamente míope, inicialmente desprezado por causa dos óculos fundo de garrafa e da falta de agilidade. O esporte nunca mais foi o mesmo.

O gigante se tornou o primeiro superastro da NBA. Dominou a liga norte-americana de maneira avassaladora e liderou os Lakers em cinco títulos entre 1949 e 1954. Enfim, no próximo domingo (30), terá sua camisa 99 aposentada pelo time que atualmente é de Los Angeles.

No tempo de Mikan, os Lakers eram de Minneapolis. Foi só em 1960 que foram levados à California. Em 1979, passaram ao controle da família Buss, de raízes fincadas na ensolarada costa oeste. E a história da época de Minneapolis, no gelado estado de Minnesota, sofreu uma espécie de apagamento.

Os Lakers hoje são os maiores campeões da NBA, empatados com o arquirrival Boston Celtics, com 17 títulos. Meia dezena foi em Minnesota (seis, se incluído na conta o de 1948, na NBL, outra liga profissional), mas a equipe homenageou dez jogadores do LA Lakers retirando seus uniformes -Pau Gasol, já foi anunciado, será o 11º-, nenhum do MPLS Lakers.

Em meio aos números içados ao topo do ginásio -e a um microfone, do lendário narrador Chick Hearn-, há apenas uma flâmula com o nome de Mikan e os de outras figuras importantes da virada dos anos 1940 para os 1950, como Jim Pollard e John Kundla. Isso, finalmente, vai mudar, em cerimônia a ser realizada no intervalo da partida contra o Denver Nuggets, na Crypto.com Arena.

Não há nenhum exagero em afirmar que George mudou o basquete e o tornou uma modalidade popular. Quem o disse foi gente como Bill Russell, Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar e Shaquille O'Neal, pivôs que seguiram os passos do ídolo original da NBA.

Mikan se tornou figura tão grande que um Knicks x Lakers de 1949, em imagem icônica de uma liga em ascensão, foi divulgado como "Geo Mikan v/s Knicks" no painel do Madison Square Garden, em Nova York. Algo inimaginável uma década antes, quando ele se apresentou para um teste no time da escola Joliet Catholic. Envergonhado, jogou sem óculos. O que só aumentou a vergonha.

Reprovado, foi jogar em um colégio de Chicago, a duas horas de sua cidade, Joliet, em Illinois. Depois, reprovado também na prestigiada Universidade de Notre Dame, ficou na pequena Universidade DePaul, onde se preparava para ser um advogado.

"Não importava aonde um cara alto ia naquela época, sempre tinha alguém para dizer que ele não podia fazer alguma coisa", afirmou George ao Chicago Tribune.

Mas Ray Meyer, assistente técnico no teste fracassado em Notre Dame, tornou-se técnico de DePaul. E, vendo potencial no gigante desengonçado, nele apostou. Fez o pivô ter aulas de dança, incluiu-o nos treinos dos boxeadores da universidade e elaborou um exercício que até hoje é parte fundamental no desenvolvimento de jogadores de basquete.

No "Mikan Drill", o atleta faz uma bandeja com a mão direita, pega a bola, mantendo-a no alto, e faz uma bandeja com a mão esquerda. Manter a bola no alto é importante, porque dificulta investidas dos adversários. No caso de George, há 70 anos, o movimento o deixava fora do alcance dos rivais, (bem) mais baixos.

Com as aulas de dança, com o "Mikan Drill" e com uma disciplina nos treinos que seria reproduzida por atletas como Kobe Bryant e Michael Jordan, ele se tornou o grande nome do basquete, que então era o patinho feio dos esportes coletivos norte-americanos. E passou a ser chamado de Mr. Basketball.

Seu impacto foi sem precedentes. Após uma vitoriosa trajetória universitária, o homem de Illinois começou a acumular títulos como profissional. Então, a BAA (Basketball Association of America) -nome da NBA (National Basketball Association) entre 1946 e 1949- tirou o Minneapolis Lakers da NBL (National Basketball League) e cresceu.

Os Lakers, que já haviam levado um título da NBL com o camisa 99, ganharam cinco dos seis primeiros troféus que disputaram na BAA/NBA -em 1951, o craque jogou de tornozelo quebrado e não conseguiu triunfar. As estatísticas produzidas pelo jogador eram uma aberração.

Em 1946/47, por exemplo, o aproveitamento geral dos arremessos da BAA foi de 27,9%. Em 1947/48, atingiu elogiáveis 28,4%. Mikan chegou em 1948/49, acertando 41,6% de suas tentativas, com então astronômicos 28,3 pontos por jogo.

"Eu tinha um gancho de direita, e todo o mundo marcava agressivamente isso. Aí, o professor Meyer me fez, durante as férias, praticar mil ganchos por dia, 500 de cada lado. O de esquerda acabou se tornando melhor do que o de direita, aí ficou difícil me parar", disse a The New York Times.

Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo em 1997, aos 72 anos, Mikan ainda carregava parte da humildade do tempo em que era ridicularizado.

"Nunca fui gracioso em quadra. Para ser sincero, era mesmo atrapalhado. [...] Só conheci o basquete adulto. Mas me esforcei bastante para desenvolver um bom golpe. Pulava cordas o tempo inteiro, tentava de tudo. Até que aprendi a dar o arremesso de gancho, meu principal mérito", afirmou.

Por causa dele, a NBA precisou mudar suas regras. O garrafão, onde a presença tem um tempo limitado, foi alargado, para que George não ficasse constantemente ao lado da cesta. Também acabou sendo proibido o toco com a bola em trajetória descendente, porque o pivô grandalhão do Minneapolis tirava do alvo aquilo que dele se aproximava.

Outra alteração já veio entre a primeira e a segunda aposentadoria de Mikan -ele parou em 1954 e voltou brevemente no campeonato de 1955/56-, mas tem tudo a ver com ele: a instituição do relógio de posse de bola, hoje de 24 segundos. Em duelo de 1950, o Fort Wayne Pistons segurou deliberadamente a bola quase todo o jogo, para que o rival não tivesse a chance de atacar. Ganhou por 19 a 18.

"Ninguém arremessava. Ou batia a bola ou a passava para um companheiro", disse à Folha de S.Paulo, há 25 anos. "Para mim, o vexame foi ainda maior. Fui eu quem fez os pontos da vitória dos Pistons. Tentei bloquear um arremesso, mas desviei a bola para o lado errado, para a nossa própria cesta. Um absurdo!"

George ainda seria decisivo para uma mudança na regra que dita o jogo atual -ironicamente, de novo, menos receptivo aos grandalhões. Como principal dirigente da ABA (American Basketball Association), rival da NBA entre os anos 1960 e 1970, adotou a linha dos arremessos de três pontos, usada até ali só experimentalmente. A NBA regulamentou sua linha dos três em 1979, e o Golden State Warriors, de Stephen Curry, é o atual campeão por causa disso.

Mr. Basketball hoje tem uma estátua na entrada do Target Center, em Minneapolis, casa do Minnesota Timberwolves. Os Lakers já não são de Minneapolis, mas enfim vão reverenciar com o mínimo -a camisa aposentada- aquele que pavimentou o caminho de uma das maiores agremiações esportivas da história.

Mikan morreu em 2005, com problemas decorrentes da diabete, sem a pensão que a liga norte-americana de basquete atualmente oferece a seus ídolos. Shaquille O'Neal, tricampeão pelos Lakers, pagou o funeral.

"Ele nos mostrou como fazer", disse Abdul-Jabbar, que conquistou seis títulos da NBA levando o gancho a seu mais alto patamar. "Eu certamente não teria esse arremesso se não tivesse aprendido os movimentos vendo o jogo do George Mikan", declarou Kareem.

"Ele mostrou ao mundo que um homem grande poderia ser um atleta", disse Wilt Chamberlain, 2,16 m. "Ele não era um grandalhão que não conseguia andar e mascar chiclete ao mesmo tempo. Era um atleta esplêndido. Foi o primeiro superastro da liga."