O grande debate da NBA: receita x segurança

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Quadra vazia no Wells Fargo Center, em Filadélfia (AP Photo/Matt Slocum)
Quadra vazia no Wells Fargo Center, em Filadélfia (AP Photo/Matt Slocum)

Por Ben Rohrbach, do Yahoo Sports

A discussão sobre o retorno da NBA mudou, de forma não muito sutil; saiu um pouco da segurança do jogador e entrou um pouco mais na segurança financeira, levando a um otimismo maior sobre a retomada da temporada 2019-20.

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Em outras palavras, a primeira liga a encerrar as atividades em resposta à epidemia de coronavírus agora parece estar pesando mais o impacto econômico da COVID-19 do que as práticas recomendadas contra sua disseminação. A influência da NBA na percepção pública do vírus pode significar muito mais do que colocar a saúde dos jogadores em risco caso se decida pela retomada antes que as estruturas de teste e contenção melhorem em todo o país.

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O cenário financeiro problemático da NBA

Antes de uma teleconferência com o comissário da NBA, Adam Silver, e a Associação Nacional de Jogadores de Basquete (NBPA), a diretora executiva da NBPA, Michele Roberts, expressou a Ramona Shelburne da ESPN várias preocupações com a segurança em um possível retorno da competição. Roberts também comparou a possibilidade de locais de quarentena na Disney World e/ou Las Vegas a "encarceramento".

Naquela noite, Silver basicamente deixou tudo isso claro para os jogadores, de acordo com vários relatórios: embora ninguém possa obrigá-los a voltar ao trabalho, as implicações financeiras serão grandes caso a temporada seja cancelada.

O retorno será com arquibancadas fechadas, o que significa que 40% da receita da NBA já estará fora das contas durante o restante desta temporada, e possivelmente até na próxima. O descumprimento das obrigações contratuais firmadas junto às redes regionais e nacionais de televisão esportiva com o término de uma temporada regular de 70 jogos e playoffs neste verão pode afetar ainda mais os resultados da liga. O teto salarial pode cair US$ 30 milhões na próxima temporada, e o atual acordo coletivo de trabalho (CBA) pode ser rescindido.

Tudo isso com um corte salarial de 25% pairando sobre os jogadores.

A NBA e a NBPA chegaram a um acordo na última semana para estender o direito de 60 dias, da liga de quebrar o CBA nos termos da cláusula de força maior prevista, levando até setembro, de acordo com Adrian Wojnarowski da ESPN. Isso abre uma janela entre o início e o meio de junho para os dois lados decidirem se retornam a temporada ou não, sem afetar o trabalho de 2020-21, de acordo com Shams Charania do The Athletic.

No mesmo dia, o presidente da NBPA, Chris Paul, fez uma videochamada com algumas das maiores estrelas da liga — incluindo LeBron James, Giannis Antetokounmpo, Kawhi Leonard, Kevin Durant e Stephen Curry — e eles concordaram por unanimidade em retomar a temporada "implementando as medidas de segurança adequadas assim que a liga receber o sinal verde para começar", afirmou Chris Haynes, do Yahoo Sports.

Segundo a Associated Press, a NBPA divulgou os resultados de uma pesquisa informal feita com seus membros em uma carta, que foi enviada aos agentes na terça-feira, citando o apoio "categórico" a um retorno seguro de temporada regular e playoffs, com uma redução de datas.

Porém, não sabemos como se pode definir o que é seguro, um sentimento comum nessa pandemia.

Uma mudança de segurança insuficiente para risco reduzido

Conforme afirma Haynes, Silver disse à associação de jogadores que continuar a temporada depende de "uma série de opções ruins", mesmo após a liga garantir "as condições mais seguras possíveis". Ele afirmou aos jogadores: "Nenhuma decisão virá sem riscos", relatou Marc Stein do The New York Times.

Além disso, segundo Wojnarowski, Silver afirmou o seguinte à diretoria da liga em uma teleconferência:

As discussões estavam centradas em questões de saúde e segurança, incluindo o objetivo de familiarizar as equipes técnicas e jogadores com a ideia de que um teste positivo para o coronavírus após o retorno não interromperia as partidas.

Silver disse aos participantes que se um teste positivo "pudesse nos paralisar, provavelmente não deveríamos seguir esse caminho".

Isso vai totalmente de encontro com a postura da NBA após a suspensão das partidas em 11 de março, que era a de só retomar os jogos quando o último teste positivo de um jogador tivesse acontecido 14 dias antes. A liga enviou um memorando aos fãs no dia seguinte, afirmando: "Pretendemos retomar a temporada se e quando ela for segura para todos os envolvidos". E Silver foi convidado pela TNT naquela noite e falou de uma teleconferência com os proprietários naquele momento: "Nenhuma equipe falou sobre o aspecto financeiro" como um problema, mas sim "toda a discussão tratou da segurança e da saúde dos nossos jogadores".

Abandonou-se a ideia de uma "bolha médica" rígida e de otimismo em relação aos testes rápidos, e em seu lugar entrou um "ambiente de faculdade" que permitiria que jogadores e funcionários "se movimentassem livremente, mas passando por testes na reentrada", conforme relataram, na terça-feira, o The Athletic e a ESPN a respeito da reunião de Silver com os proprietários.

O cálculo mais lógico aqui é que o dinheiro está começando a ter precedência sobre a segurança máxima. O ala do Los Angeles Lakers, Jared Dudley, e o grandalhão do Cleveland Cavaliers, Larry Nance Jr. — um homem de 34 anos, de um time favorito ao título e um de 27 anos rumo à loteria, respectivamente — confirmaram essa tendência.

"Todo mundo na liga quer terminar a temporada", disse Nance a repórteres em uma teleconferência, através do AP. "Em primeiro lugar, obviamente, porque amamos o jogo, mas ao mesmo tempo há uma grande chance de perdermos mais de 20% dos nossos contratos, o que pode impactar bastante alguns jogadores."

Recomendações que a NBA colocou na entrada dos banheiros dos ginásios durante o início da pandemia do novo coronavírus (Michael Reaves/Getty Images)
Recomendações que a NBA colocou na entrada dos banheiros dos ginásios durante o início da pandemia do novo coronavírus (Michael Reaves/Getty Images)

Muitas outras dúvidas precisam ser respondidas

Parece loucura, não é?

O planejamento para reiniciar a temporada antes que ela se estenda até o outono e a possibilidade de iniciar uma próxima temporada no dia do Natal já beira o impossível. A NBA não espera tomar uma decisão até o início de junho, pelo menos. Jogadores que voltam do exterior (como Luka Doncic, que supostamente voltou para a Eslovênia durante o hiato) e de áreas de alto risco nos Estados Unidos provavelmente teriam que ficar em quarentena por duas semanas, seguidas de um treinamento que duraria pelo menos três semanas. Os jogos só voltariam em julho. É possível, mas a loucura vai muito além disso.

Na ausência de testes rápidos generalizados, o que acontece quando um jogador é testado diariamente e a cada vez que é reintegrado à bolha? Ele espera as horas necessárias para saírem os resultados? Ou ele vai para a quadra normalmente, faz exercícios e treina, e só fica de fora caso o teste dê positivo? É possível que um jogador teste negativo após a reentrada e ainda leve o vírus para a bolha? Quantos colegas de equipe e adversários poderiam ser infectados por um jogador com um possível teste falso-negativo?

Mesmo que todos os jogadores e membros da equipe tenham uma idade favorável e condições para se recuperar do vírus, o que sabemos não ser uma verdade garantida, o que acontece quando um inevitável teste positivo aparecer? Existe a possibilidade de James, Antetokounmpo ou Leonard perderem uma série inteira de playoffs por se ausentarem por duas semanas em um cenário de playoff reduzido? Seria possível deixar várias equipes em quarentena por quinze dias?

Certamente haverá serviços de alimentação, hospedagem e saneamento, pessoal médico, equipes de TV e todas as outras atividades necessárias para levar centenas de funcionários da NBA de volta ao trabalho em um ambiente isolado. Eles não só aumentariam a probabilidade de um surto interno, mas suas famílias e qualquer pessoa com quem pudessem ter contato fora da bolha médica rigorosa também seria exposta a um risco maior.

A NBA certamente está avaliando esses aspectos enquanto escrevemos este artigo, mas há uma única pergunta que ainda não tem resposta, que Deus nos livre: e se alguém morrer por conta dessa reabertura antecipada da NBA?

Quando a economia se torna uma crise de saúde pública

Isso não é muito diferente do debate entre o principal especialista médico da força-tarefa do coronavírus na Casa Branca e o presidente Donald Trump. Em seu parecer no Senado, o Dr. Anthony Fauci alertou contra os perigos de reabrir o país muito cedo, principalmente agora, quando "não conhecemos totalmente esse vírus, então precisamos ter cautela, principalmente com as crianças". Um dia depois, Trump disse a repórteres: "Para mim, essa não é uma resposta aceitável", em meio a esforços para restaurar a economia.

Os Estados Unidos estão atrás de outros países que estão apenas começando a reabrir a economia em termos de testes e contenção da propagação do vírus. O número de mortos nos EUA por COVID-19 ultrapassou 93 mil semana. Os EUA estão entre os países em maior risco no mundo, e a taxa de testes positivos nos estados que começaram a reabrir a economia aparentemente é mais alta do que naqueles que continuam a restringir atividades comerciais não essenciais.

Podemos deduzir, então, que a reabertura da NBA aumentaria o risco em uma escala menor. Pensando mais superficialmente, como o retorno da liga afetaria a percepção do público? Silver elogiou a NBA por estabelecer um precedente que mudou a opinião do público, que foi o fechamento após o teste positivo de Rudy Gobert, pivô do Utah Jazz, antes da implementação do lockdown em todo o país. Não estaríamos enviando uma mensagem parecida se a NBA considerasse seguro voltar?

Silver disse a Trump que a liga gostaria de estar entre os líderes na reabertura da economia, citando a crise como uma questão de saúde pública que exige equilíbrio com a segurança extrema. Essa é uma verdade difícil de aceitar.

Os problemas da NBA são problemas nossos?

E a NBA é uma empresa como qualquer outra? Os astros que pressionam pelo retorno são multimilionários. Oitenta por cento do salário de Nance na liga, que ainda é acima da média, continua sendo US$ 10 milhões. Dudley, com um salário mínimo de veterano, ainda levará para casa um salário quinzenal livre de impostos de aproximadamente US$ 80.000, mesmo com o corte 25%. Eles vivem conforme seus salários, mas certamente não da maneira que a pessoa comum vive.

De acordo com a ESPN, as equipes de regiões menos rentáveis estão preocupadas com a possibilidade de perder US$ 20 milhões em distribuição de receita na próxima temporada, na pior hipótese. Gayle Benson, proprietário do New Orleans Pelicans, que atua no menor mercado da NBA, tem cerca de US$ 3 bilhões em patrimônio. O proprietário do Memphis Grizzlies, Robert Pera, cuja equipe trabalha no segundo menor mercado, tem cerca de US$ 10 bilhões. A crise econômica deles não é exatamente igual a sua.

É verdade que o retorno da NBA poderia fazer milhares de pessoas voltarem ao trabalho e quem sabe quantas outras pessoas são sustentadas por funcionários da liga, mas há sérias questões éticas relacionadas à reabertura de um negócio não essencial diante de uma pandemia, mesmo sob as condições mais seguras. Elas se tornam mais graves quando se considera que a riqueza coletiva dos empresários pode dar mais tempo a todos eles.

Há pouca dúvida de que os bilionários que choram como se fossem pobres e incentivam financeiramente os multimilionários a voltar ao trabalho pressionam todo mundo, desde treinadores assistentes que ganham seis dígitos até funcionários de arena que vivem com o salário da semana a voltar ao trabalho antes que se sintam completamente confortáveis em voltar. E que mensagem estão enviando para empresas menores que foram forçadas a dispensar funcionários em meio à epidemia? Uma segunda onda que poderia vir da reabertura antes da hora não criaria um problema econômico ainda maior?

Quero deixar claro que é óbvio que eu quero assistir esportes ao vivo, tanto quanto as estrelas da NBA querem voltar a jogar, e meu ramo depende disso até certo ponto, mas se o esforço da liga para reabrir em julho custasse a perda de uma vida a mais, isso tudo já não valeria a pena. Nesse sentido, a decisão da NBA não é mais difícil do que a que todos os países, estados e cidades estão tentando tomar juntos. Não temos todas as respostas, mas não podemos deixar que o desejo de coroar um campeão supere todas as perdas que esse desejo pode trazer.

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