O efeito dos clubes-empresa no futebol brasileiro

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Red Bull Bragantino já garantiu vaga na final da Sul-Americana em pouco tempo de projeto (Foto: Nathalia Aguilar - Pool/Getty Images)
Red Bull Bragantino já garantiu vaga na final da Sul-Americana em pouco tempo de projeto (Foto: Nathalia Aguilar - Pool/Getty Images)

Sancionado no início de setembro pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), um projeto de autoria do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) visa incentivar os clubes brasileiros a mudarem o seu modelo de associações sem finalidades lucrativas para empresas. Atualmente a Série A, elite do futebol brasileiro, possui dois clubes-empresa: Cuiabá e Red Bull Bragantino. Além deles, o América-MG está em processo de transição para se tornar clube-empresa.

Após vários meses de discussão, o texto final da lei acabou focando em abrir um caminho para que os clubes sanem suas dívidas e que atraiam o interesse de investidores no formato de sociedade anônima de futebol. Há no entanto dúvidas sobre até onde a lei transformará o futebol brasileiro e uma impressão de que mais poderia ter sido feito.

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“O que a gente sente é que é uma lei que pensa muito nos pretensos donos e não tanto nos clubes. O que eu consigo enxergar é que se pensou muito em como os donos vão se tornar donos do que pensar na saúde do futebol brasileiro a longo prazo”, afirma Irlan Simões, jornalista e pesquisador do futebol (Leme/Uerj), criador do podcast e canal Na Bancada.

Atualmente não é proibido que um clube brasileiro se torne empresa e a lei recém-sancionada também não restringe apenas ao formato de sociedade anônima de futebol: “pelo que está desenhado, os clubes podem adotar o modelo que quiserem: sociedade limitada, sociedade comum. Um leque muito aberto, muito amplo ao que os clubes podem se converter, conta Irlan Simões. “(Não se tornar clube empresa) foi uma escolha dos clubes ao longo de sua história, mas é importante frisar que a maior parte do clube dos mundo fez isso após serem obrigados. Foi o que aconteceu em países como Espanha, Portugal, Itália, França e por aí”, completou.

Ao acompanhar a história do futebol é possível constatar que a maior parte dos clubes do mundo nasceu e viveu como associação sem finalidades lucrativas, mudando apenas quando a regulamentação de suas ligas ou país exigiram ou incentivaram fortemente. Mas nem por isso o resultado foi de que todos os clubes foram bem geridos: “A história do futebol é basicamente a história de clubes com dívidas ou quebrados, e a história do futebol recente é basicamente clubes endividados passando de mão em mão com alguém assumindo a dívida e explorando financeiramente aquele clube”, disse Irlan Simões. “Basicamente cada liga criou um regulamento rígido que impedisse que os clubes gastassem muito mais do que arrecadam. Não se trata de uma consequência de mudança do status do clube”, falou.

Esta constatação contribui para ideia de que o incentivo a mudança de clube empresa seria apenas o início, mas que a mudança real viria através de uma regulamentação que equilibrasse a receita e os gastos dos clubes: “No Brasil o que mais me incomoda é que nunca houve um regulamento que fizesse com que os clubes gastassem menos do que arrecadam. Você não tem regra de fair play financeiro, você não tem punições para dirigentes que quebram o clube. Nós não somos exemplos de tentativas reais de reduzir e controlar os gastos dos clubes”, opina Irlan.

A opinião neste caso é compartilhada por Olímpio Vasconcelos, setorista do Cuiabá pelo Globo Esporte. Um dos únicos clubes empresa da elite do futebol brasileiro, o Cuiabá já nasceu nesta modalidade, mas isso não significou que ele sempre teve sucesso. “Creio que os clubes precisam ter boa gestão. Sem isso, não faz diferença se forem clube-empresa.” No entanto, no caso do Cuiabá ele vê como um ponto positivo. “Sempre teve um dono, alguém que respondesse juridicamente pelo clube. Isso não deixou com que houvesse dívidas ou contratos altos, longos, sem responsabilidade. O formato de gestão não foi viciado nos moldes dos times mais tradicionais do estado e no Brasil, que a maioria está afundado em dívidas. Na situação atual, tudo que entra de receita volta para o futebol. Não existem ativos na justiça, pagamento de dívidas, nada”.

Olímpio ainda traz uma outra reflexão. Caso todos os times tivessem o mesmo formato e boas gestões, aqueles com mais receita alcançariam os melhores resultados. “O Cuiabá estar na Série A é reflexo disso. Se Cruzeiro, Vasco e Botafogo, por exemplo, se fossem bem administrados, pela arrecadação, clubes como o Cuiabá teriam mais dificuldades de subir e se manter na primeira divisão”. E como este não é o caso. “Quem tiver mais gestão terá mais sucesso”.

Ainda sobre os impactos das receitas no futebol brasileiro, Irlan Simões faz uma leitura de como deve ser o desdobramento dos primeiros anos após a mudança de formato dos clubes: “É de se esperar sim que o clube consiga num primeiro momento resolver as suas pendências e atingir um novo patamar esportivo. Mas isso tende a ser algo de curta duração”, continua Irlan, “É um voo de galinha, que é o momento que você tem um diferencial econômico em relação ao seu adversário e transforma isso numa diferença esportiva. Mas isso não tem garantia de longa duração, é um sopro em relação ao que pode ser o futuro do clube na medida em que você tem sócios da sua atividade econômica. Então não é o clube com uma visão de gerar apenas resultados esportivos. É o clube com uma expectativa de gerar também resultados financeiros e com acionistas que esperam o retorno do seu investimento”.

Além disso, o investimento não é exatamente garantido e, na visão do jornalista, pode trazer outros tipos de interesse aos clubes: “esses investimentos são tão incertos que a gente vê nos clubes investidores com mais intenções políticas do que financeiras. Para alguns, a intenção é expandir a sua marca através da visibilidade do clube. E quando acabar esse momento de usar a imagem do clube para melhorar a sua, esse clube é passado de mão em mão”.

Em conclusão, a mudança para modalidade clubes-empresa é um passo que pode abrir portas para reestruturação financeira dos clubes mas de forma alguma garante a saúde financeira a longo prazo bem como uma boa gestão. Além disso a falta de uma regulamentação de gastos por parte dos clubes é preocupante. “ O futebol brasileiro sempre foi muito leniente com más gestões e não é apenas mudando o status jurídico que você vai resolver o problema”, conclui Irlan Simões.

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