O dia que Neto ficou furioso com o apelido de “dono da sauna”

Neto durante vídeo em seu próprio canal (Reprodução)
Neto durante vídeo em seu próprio canal (Reprodução)

Foram 184 gols em 470 jogos. Neto, hoje tão badalado quanto polêmico apresentador e comentarista da TV Bandeirantes, fez história como jogador de futebol. Era um meia habilidoso, com uma facilidade imensa para bater na bola.

Lançava bem, batia faltas e escanteios melhor ainda.

Até gols de bicicleta ele fez.

Curiosamente, marcou pelo Guarani, contra o Corinthians, em 1988, e pelo Corinthians, contra o Guarani, em 1992. E pelo Timão, contra o time de Campinas, Neto marcou e foi expulso logo em seguida. Tirou a camisa e, como já havia sido advertido com o cartão amarelo, levou o segundo cartão e foi para o chuveiro mais cedo.

Neto, exatamente como hoje, em frente às câmeras, era genial e genioso. Arrumou inúmeras confusões. Seu ato mais contestado (e deplorável) foi cuspir no árbitro José Aparecido de Oliveira em um Corinthians e Palmeiras, no dia 13 de outubro, válido pelo Campeonato Paulista de 1991. Cuspiu e foi expulso de campo, diante de mais de 37 mil torcedores presentes ao Estádio do Morumbi.

A assessoria de imprensa do ex-jogador garante que ele marcou 124 gols de falta. Números oficiais, no entanto, contabilizam 121. O que é indiscutível mesmo é que o ano de maior brilho do meia foi 1990.

Ele foi parar no Parque São Jorge após ser trocado pelo também meia Ribamar, do Palmeiras. O Corinthians vivia um momento financeiro muito ruim. O presidente do clube era Vicente Matheus, que fazia uma gestão de poucos gastos.

Era o Caudilho do Parque.

Quando Neto chegou, o jogador de maior expressão do Timão era João Paulo, ex-estrela do Santos. O time trocava constantemente de técnicos. Foram vários: Basílio, Fescina, Ênio Andrade...Foi quando Matheus resolveu apostar em Nelsinho Baptista, que acabava de ser vice-campeão paulista, com o modesto Novorizontino.

Giba, Marcelo, Guinei, Jacenir, Wilson Mano, Tupãzinho, Fabinho, Mauro, Ezequiel, Ronaldo, Márcio. Estes jogadores estavam no elenco que o técnico tinha para disputar o Campeonato Brasileiro de 1990.

Nelsinho, ex-lateral-direito de São Paulo e do Santos, criou fama na equipe de Novo Horizonte por exigir muita aplicação tática de seus jogadores.

Dava muita atenção à marcação.

E foi assim que Neto foi encaixado à equipe. Jogava solto. Era um meia com liberdade total para flutuar no gramado. A ele Nelsinho Baptista não deu responsabilidades defensivas. Não tinha de marcar o volante adversário.

Por ser de Campinas, havia jogado também na Ponte Preta, Nelsinho já conhecia a facilidade que Neto tinha para bater na bola.

Neto desandou a fazer gols. E gols importantes, como os que marcou contra o Bahia e o Atlético Mineiro, na fase decisiva da competição. No segundo semestre de 90, Neto disputou 32 jogos e marcou 13 gols.

Neto marcou cinco gols de falta naquele Brasileirão de 90.

Era para ter disputado a Copa da Itália. Só não foi convocado porque Sebastião Lazaroni, o técnico da Seleção Brasileira, preferiu levar Silas, Valdo e o garoto Bismark, seu conhecido do Vasco.

Até hoje Neto reclama, com razão. Era para ter disputado a Copa de 90. Mostrou futebol para ser convocado. Carregou o Corinthians nas costas na conquista do inédito título de campeão brasileiro.

Era, então, uma unanimidade no elenco corintiano? Não, longe disso. A imprensa badalava o principal jogador do time. Era chamado de “meia do pé esquerdo mágico” pela Gazeta Esportiva, o mais lido jornal de esportes do início da década de 1990.

Mas no Parque São Jorge Neto sofria críticas. Era olhado com desconfiança, até, e principalmente, por alguns de seus companheiros de time.

Alguns deles não se conformavam com o fato de Neto não ter a obrigação de ajudar na parte defensiva. Contestavam as ordens que Nelsinho dava para que eles marcassem, fizessem o serviço sujo de fungar no cangote dos adversários, enquanto Neto era liberado para guardar energias para, quando acionado, ter fôlego suficiente para fazer um lançamento, bater uma falta ou até se posicionar na área para marcar os gols que o time precisava para brigar pelo título.

Quem caminhava pelas alamedas do Parque São Jorge ouviu várias vezes comentários de alguns jogadores corintianos que, insatisfeitos, faziam duras ressalvas aos privilégios que o meia tinha no gramado.

Nas rodas de conversas que se formavam nas proximidades da agência bancária, do Bradesco, que havia no clube, um deles, o mais extrovertido e “bocudo” do grupo, falava alto, para que os repórteres ouvissem:

“O Neto é o dono da sauna. Ganha dinheiro com o suor dos outros”, dizia, arrancando gargalhadas dos companheiros.

Neto, embora ostentasse um rendimento elogiável, nunca exibiu uma boa forma física. Após a conquista do Campeonato Brasileiro de 90, engordou muito. E chegou a entrar em campo bem acima do peso ideal para um atleta de futebol. Em 1991, enfrentou muitas críticas por causa de sua má condição física. Foi preciso até que o preparador físico da equipe, Flávio Trevisan, fizesse um trabalho especial com ele.

Trevisan, que atualmente trabalha no futebol árabe, fez marcação cerrada sobre Neto e o convenceu até a disputar a tradicional corrida de São Silvestre, que é disputada todo 31 de dezembro nas ruas de São Paulo.

Todo o esforço de Trevisan era para que Neto emagrecesse.

Antes de o craque correr pelas ruas de São Paulo, tendo ao seu lado Flávio Trevisan, este repórter resolveu faze ruma ampla matéria falando da condição física do meia.

O preparador físico do Corinthians, Antonio Augusto, conhecido pelo apelido de Pardal, confirmou que Neto estava acima do peso. Até Vicente Matheus falou sobre o excesso de gordura do jogador. E confirmou que realmente Neto não estava se cuidando como deveria.

A matéria foi publicada pela Gazeta Esportiva. Em um dos tópicos da reportagem, foi revelado o comentário de que Neto era conhecido no elenco como “o dono da sauna”.

Neto não gostou. Ficou furioso.

E em um treino no CT de Itaquera, onde hoje fica a Neo Química Arena, agrediu o repórter com um chute na perna direita. Dias depois, arrependido, pediu desculpas.

Pedido de desculpas que foi aceito.